pelo espírito Eugênia.

A cultura humana da Terra de hoje idolatra a beleza e a juventude, de forma tirânica e diabólica, fazendo um mal maior, inclusive, não propriamente a quem é menos favorecido pela beleza, ou a quem está vinculado afetivamente a quem chama menos atenção neste particular, mas justamente àqueles que se deixam impressionar pelo que vêem, ou aos que supõem ser muito valiosos, no mercado do sexo e dos relacionamentos, por este trunfo. Começo minha discussão do tema com este tópico porque, muitas vezes, o motivo profundo para a dúvida é rasteiro assim: a mera problemática da atração física, quando motivos mais profundos de se estar com alguém, em um relacionamento duradouro e sério, devem ser considerados em primeiro plano, antes dos meros atributos sexuais que alguém apresente. A não ser que se pretenda voltar à selva e viver como as feras.

Mas, de qualquer forma, levantemos algumas respeitáveis considerações no capítulo da dúvida em se manter ou não um relacionamento, quando, verdadeiramente, nada tem a ver com o quesito exclusivo “compleição física”. Sendo realmente assim, vejamos:

O futuro é hipotético, probabilístico, da perspectiva mais lúcida que se possa tomar, do ponto de vista humano. Entretanto, pelo fato de não se poder precisar o que está por vir, não se segue que compromissos não possam ser assentados e que laços de afeto e de lealdade não se distendam entre as criaturas.

Há pessoas que se abraçam a destinos infelizes, por não acreditarem que possam ter algo melhor. Há indivíduos, entretanto, por outro lado, que no meio do paraíso, reclamam de bagatelas que não sabem ser um preço módico que pagam, para a felicidade não raro expressiva que usufruem, como se estivessem desfrutando de um oásis, mas permanecendo incontentáveis por não verem todo o deserto em torno como o trecho de terra que lhes salva a vida.

Abra-se ao novo. Esteja com a mente sempre disposta à mudança e à experimentação. Todavia, cuidado para não exagerar neste princípio e esquecer-se do outro, correlato, tão importante quanto: o da conservação. Renovação e conservação são forças complementares que funcionam em sinergia, para favorecer a completude das experiências humanas. Um transforma, revoluciona, faz surgir elementos novos; o outro sedimenta, consolida, cristaliza, garantindo a continuidade, a cumulação da nova conquista ao acervo das antigas.

Há personalidades mais propensas a fixar-se em um ou em outro pólo, mas somente no equilíbrio, no centro destas duas vertentes de destino, pode-se encontrar a paz, a realização, a plenitude. Para saber se você está pendendo mais para um lado ou outro do espectro destes dois feixes inter-relacionados de forças-de-destino, verifique a voz da consciência, a voz da paz. Medite, ore, peça inspiração a seus guias espirituais e nunca tome decisões sob influência de estados psicológicos suspeitos, como o da ansiedade, o do medo e o da compulsão a experimentar o novo, sem uma clara necessidade para tanto. Postando-se assim, internamente, esteja certo de que, se você precisar passar por novas vivências no setor afetivo (como em qualquer outro de sua existência), estas naturalmente virão ao seu encontro, ou você mesmo se verá de tal modo convencido neste sentido, que tomará providências para se introduzir nelas, mas n’outro padrão de consciência: o da determinação, da coragem, da exposição ao novo e à mudança.

Importante, porém, considerar:

Quanta ingratidão há, entre os seres humanos!… Almejam o que está fora de seu alcance e desprezam grandes almas e grandes amigos ao seu lado. O jovem adula a garota de corpo atraente na escola, que o despreza sistematicamente, e explode em surtos de raiva com a mãe sacrificada no lar, que daria a vida por ele. A moça casadoira abre um largo sorriso ao homem bem sucedido, que apenas se envaidece de ter sua atenção, mas não quer nada realmente com ela, e despreza o homem valoroso e sincero ao seu lado, que, embora menos rico, belo e brilhante intelectualmente, ama-a, verdadeiramente, e a corteja, baldamente, sendo desdenhado sucessivas vezes por ela. Se continuarem agindo desta forma, talvez até consigam o que desejam, a um preço de angústia e de infelicidade que nem de longe dimensionam, em torturas psicológicas de descompensação e de frustrações indefiníveis, de cuja grandeza só se darão conta após haverem levado o objeto tão idolatrado de desejo para casa. Todavia, o mais provável é que nem consigam o que desejam, nem tampouco fiquem com o que poderiam ter, porque, após certo tempo de desprezo sistemático, a mãe sofrida terá morrido enferma, tanta a ingratidão do filho insensível, e o rapaz menos bonito, rico e inteligente estará cortejando outra moça, amiga daquela que só se sentia digna dos maiorais; e a vaidosa-indiferente terá que assistir, em futuro, à felicidade da outra escolhida, a mesma felicidade que ela se negou ter, por pura falta de maturidade, de juízo e de sensibilidade com os sentimentos do pretendente do passado, bem como, sobremaneira, pela tola vaidade e cobiça vã de ter tudo do melhor, antes, muito antes, de fazer a verificação sensata de ser ela mesma, de fato, melhor o bastante para poder desejar o melhor… Quem quer tudo, e além do que pode, acaba sem nada, nem mesmo o que poderia ter, na prisão da raiva, da frustração, da inveja e do remorso, ano sobre ano, encarnação sobre encarnação, até dobrar o próprio orgulho…

Não se deixe restringir pelas expressões do desejo e da vaidade. Isto não é só falta de elevação espiritual, mas de percepção, de inteligência, de maturidade. Há gente que gosta de desfilar com “troféus” ao próprio lado, para viver um pesadelo em casa, todos os dias. E há gente que vive em paz, longe dos olhares de inveja da multidão, porque seus afetos não despertam tanta cupidez, e podem, assim, viver com eles verdadeiras ilhas de felicidade, em meio ao mar de angústias e frustrações que ainda constitui a humanidade terrícola.

O objeto maior de concupiscência costuma ser narcisista e autocentrado, de tal modo que não sabe dar amor, acostumado a ser adulado de toda parte. E aquel’outra criatura, não tão chamativa aos olhos vulgares, aprende a ser doce, simpática e amável sempre, dando a linfa de amor e alegria que nunca o ser tentador poderia um dia oferecer…

Vou fazer duas citações de aforismos populares altamente sábios e apropriados a nosso discurso: Cuidado, para não levar para casa “gato por lebre”; e “as aparências enganam”!… Você não se casará com um corpo e sim com uma alma! O corpo é agradável durante momentos de prazer, por um tempo… e depois? E as afinidades profundas de espírito a espírito? E os valores? E as metas de vida? E os princípios? E todas as afinidades intelecto-morais que propiciam e mesmo viabilizam um nível mínimo de convivência harmônica e feliz?

Veja além das aparências, além dos rótulos. Quem se deixa impressionar apenas pelo externo demonstra não ter suficiente maturidade para ver além do próprio nariz. Somente crianças e deficientes mentais se fiam tão-somente no que vêem. Não pretenda igualar-se a eles, no plano essencial dos mais importantes compromissos relacionais de sua vida. Há um “escudo místico” em torno das pessoas certas com quem se deve relacionar. O escudo constitui um teste psico-espiritual, para averiguar sua capacidade de ver além do óbvio. Cuidado para não cair na tentação de olhar para as que “enchem os olhos” e acabar por fazer pouco caso daquelas que lhe “enchem o coração”, perdendo-as, talvez, pelo tempo de toda esta vida física… Mantenha em mente, caro amigo, que as flores da primavera murcham rapidamente, enquanto as frondes de carvalho duram para sempre…

(Texto psicografado por Benjamin Teixeira, em 23 de março de 2006. Revisão de Delano Mothé.)