Benjamin Teixeira
por
um espírito anônimo.

Não gostaria que a minha experiência se repetisse, com outros médiuns invigilantes, como eu fui. É deplorável constatar, porém, que não seja esta uma situação rara; talvez não de modo tão dramático, ao fim, qual a minha, mas estou informado, inclusive, de que isto acontece, efetivamente, em ampla medida, das formas mais variadas e indiretas de deserção. Por isso, estou aqui. Muitos medianeiros, nesta mesma sala, fazem-se escrupulosos demais, deixando de viver a graça, de desfrutar a dádiva ímpar de se tornarem canais da espiritualidade – tanto da orientadora, quanto da sofredora –, podendo, com isso, não só se aconselhar diretamente com os guias espirituais, em relação a seus rumos existenciais (além de transmitir instruções dos mentores desencarnados a terceiros, encarnados), como também prestar um relevante serviço aos semelhantes (de ambos os domínios de vida) incursos em processos obsessivos, atividade socorrista esta com que se comprometeram antes de renascer.

Deixo aqui o meu registro – espero que possa ser útil a alguém ou a muitas pessoas –, e lamento (embora atualmente me encontre mais equilibrado) os tresvarios da minha deserção espetacular e ominosa. Agora, sinto-me em paz e de volta ao meu eixo, por mercê da Misericórdia Divina. Ao desencarnar, em meio a tanto destrambelho emocional e mental, fui recebido em instituição hospitalar de nosso plano, e, após décadas de indescritível sofrimento, já estou em melhores condições de pensar e agir com relativo acerto. Portanto, posso dizer que, sem sombra de dúvidas, o meu foi um clamoroso erro – comum, é certo, mas que não deixa de ser, ainda assim, um vergonhoso delito.

Não se permitam, os amigos encarnados que tiverem acesso ao meu relato doloroso, enveredar por esse desvão da destruição da própria vida física e suas inapreciáveis oportunidades de crescimento e serviço (seja direto ou indireto o suicídio), infelizmente rotineiro, entre médiuns ostensivos ou indivíduos sem mediunidade ostensiva, com relação a seus planejamentos encarnatórios. Numa instituição espírita, como esta, não são dezenas, e sim centenas de pessoas que se comprometem, antes de reencarnar, a trabalhar como medianeiros ou colaboradores da casa. Há a revelação, na literatura kardecista disponível – e não está equivocada, apesar da estranheza que causa a muitos, em virtude da aparente hipérbole dos números –, de que, em expressivo percentual dos casos, as instituições espíritas surgem, no mundo material, com a promessa de cooperação de centenas de médiuns, ostensivos ou inspirados, para tarefas as mais variadas, que vão do esclarecimento de encarnados ou desencarnados, passando pela psicofonia (ou “incorporação” de sofredores de nossa dimensão) e psicografia de recados e conselhos dos orientadores desencarnados, até a função de “doutrinação” – no sentido de “disseminação das idéias espirituais”, em palestras públicas, denominadas, nos redutos mais conservadores do movimento, de “reuniões doutrinárias” –, ou , ainda, a de administração e operacionalização de todas as atividades físico-rotineiras da organização. Quando aportam à crosta terrena, com seus escafandros orgânicos, entretanto, das centenas, apenas algumas dezenas encetam o trabalho, de fato. E, com o correr dos anos, tão-só alguns poucos, normalmente, permanecem no encargo espiritual heroicamente – “heroicamente”, porque, em sua persistência, os poucos que perseveram sofrem a sobrecarga de serviço do conjunto inteiro, que deveria ser diluída, com todos os outros inúmeros desertores.

A instituição de vocês não é exceção, neste capítulo trágico das programáticas reencarnatórias de nosso orbe. Centenas, muitas centenas planejaram estar aqui, no trabalho direto, corpo a corpo (*4), e não mais se acham entre vocês. Metade destes mesmos que agora se encontram nesta reunião, eventuais desertores, fá-lo-ão por conta da aversão aos próprios princípios esposados pelo grupo, que são acertadíssimos, na luta contra toda forma de discriminação e preconceito, no mesmo sentido propugnado por Kardec e, mais ainda, por Jesus, embora não sob este mote: “combate a preconceitos”. E, lá fora (*5), nem se comente… Significativos segmentos do movimento kardecista, presentemente, mostram-se resistentes a idéias novas, ostentam uma lamentável tendência ao conservadorismo. Isso constitui um completo disparate, visto que, pelo simples fato de se definir como conservador, alguém já está se declarando não ser um espírita legítimo, em considerando que o Espiritismo propõe, em sua base principiológica, a diretriz fundamental (estatuída pelo codificador e seus orientadores excelsos) de se acompanharem todos os progressos do conhecimento e da ciência humanos, bem como de fomentar a evolução de indivíduos e coletividades na Terra, por todos os meios possíveis. Centenas, repito, deveriam estar aqui, e não mais estão. Muitos… vocês mesmos identificam-nos pela memória. Oxalá, metade dos que agora se integram a esta agremiação permaneça; todavia, não acredito que isso se dê, como nas instituições espíritas de um modo geral – e em todo serviço do bem, “idem”.

É tão lamentável que isso ocorra… Dúvidas… damos tanto espaço a dúvidas… esquecemos de dar guarida à fé em nossos corações e mentes. Da mesma forma que, nas igrejas evangélicas, fala-se mais das forças diabólicas do que na Presença Onipotente (para o orbe) de Jesus, no rincão espírita, que sempre teve como vocação essencial o trabalho de ciência (“lato sensu”), no campo do estudo do mundo espiritual, igualmente se preocupa mais com dúvidas do que com fatos e evidências, a despeito de os indícios e mesmo provas da existência do domínio extrafísico e de sua interpenetreção com a dimensão material de vida abundarem, enormemente, em torno dos passos de todos os trabalhadores, como tão bem é expresso em lindo excerto de “O Evangelho segundo o Espiritismo” (*6). Assim, em vez do assombro, do maravilhamento com a consoladora realidade imortalista, por toda parte, nos redutos espiritistas, há a suspeita de “animismo” e de “mistificação inconsciente”, como se estes dois fenômenos naturais, correlatos à interpretação subjetiva das comunicações espirituais, invalidassem, de todo, a realidade inconteste – por tantos e exaustivos estudos a respeito – da tese sobrevivencialista da alma humana. Não se apercebe, a esmagadora maioria dos encarnados, das argumentações capciosas e das falácias bem urdidas, pela sutil atuação sedutora dos espíritos pseudo-sábios, que se introduzem em seus ambientes, contaminando os corações e destruindo realizações gigantescas que poderiam vir a acontecer, crestando-lhes as possibilidades, desde a raiz axial das matrizes de esperança, ideal e fé…

Gostaria que isso fosse propalado aos quatro ventos, em vista de saber que vocês têm condições de publicar, em grande escala, este testemunho do bem, para que se evite este mal medonho, na vida de muitos. Por tal razão, estou aqui, sob determinação de Nossos Maiores, esperando que esta mensagem chegue ao maior número alcançável de consciências. Não vou minudenciar detalhes sobre lugar ou condições em que reencarnei, nesta última existência a que aludo, por não condizer com a finalidade do presente comunicado. Acredito, no entanto, importante afirmar que fui (e me sinto) brasileiro; e espírita, em solo pátrio. Vim para oferecer este estímulo a que vocês primem pelo idealismo, pela responsabilidade, em suas tarefas e motivações espirituais.

O orientador que fez uso, inicialmente, do recurso da fala – o padre Gustavo – falou sobre isso (*7). É extremamente importante reiterar, tantas vezes quantas suponhamos necessárias, nossa profissão de fé, nossa disposição ao serviço, nossa iniciativa sincera de fazer o bem, em todos os sentidos que nos estejam ao alcance. Cada um renasce, no organismo físico, com um propósito de trabalho e crescimento. Todas as pessoas são, no mínimo, médiuns inspirados (eis por que se diz que todos, em última análise, são médiuns, conquanto não captem, clara e diretamente, a presença dos desencarnados em torno de si), e, com esta ferramenta, que, grosseiramente, podemos denominar de intuição-voz-da-consciência, qualquer criatura humana é capaz de acessar a freqüência mental de seus guias espirituais, que lhe podem fazer sugestões telepáticas e até supervisionar-lhe o destino, por meio de orientações mais diretas, quando parcialmente há o desvencilhamento da máquina biológica, durante o sono. Deste modo, será mais fácil levar a cabo as incumbências que lhes foram designadas, como parcela de responsabilidade pessoal, para a existência material que ora desfrutam.

Então, ainda que tão-somente nos considerando médiuns inspirados, por que não realizamos nossas tarefas no bem? Por que essa vaidade, essa pretensão de querer ver e ouvir, com nitidez perfeita, o domínio de freqüências mais elevadas de consciência? Também existe esta questão: a da vaidade – a pretensão de fazer com perfeição alguma coisa, ou então não fazer nada. Com isso, não se vai fazer nada de significativo jamais, realmente, pois só se chega à excelência, porque se começou a agir, mesmo precária e deficientemente. Se o indivíduo não inicia a caminhada, ainda que claudicando ou caindo sucessivas vezes, nunca fortalecerá os músculos das pernas e, destarte, jamais chegará a caminhar com firmeza. Vacilar e ter pudores demais é errado, em serviços elementares do bem. Estou falando de cátedra, como alguém que resvalou exatamente nesses deslizes deploráveis. Sei, outrossim, que todos já sofreram muito, mas ainda estão, vários de vocês, mesmo hoje, padecendo de uma atroz dúvida, que paralisa a alma, que subtrai energia, que vampiriza a motivação. Isso precisa se findar, de uma vez por todas, e tem a ver com escolha, determinação e autodisciplina.

(Mensagem recebida psicofonicamente, no transcurso de reunião mediúnica fechada do Instituto Salto Quântico, em 11 de março de 2008. Transcrição de Úrsula Rangel. Revisão de Delano Mothé.)

(*4) O espírito se preocupou em diferenciar os trabalhadores envolvidos nas atividades desdobradas mais diretamente, na central do Instituto Salto Quântico, daqueles que colaboram com nossa Organização (e com as idéias por ela divulgadas) em tarefas à distância, em seus lares e ambientes de trabalho, por exemplo, eis que temos muitos milhares assim comprometidos, com este empenho benemérito de salvar vidas e levar a felicidade a muitos, em função do alcance gigante, pela televisão, em rede nacional de TV, de nossas postulações públicas.

(*5) Fora de nossa Organização.

(*6) Item 7, capítulo XIX, de “O Evangelho segundo o Espiritismo”.

(*7) Gustavo Henrique fez uso de minha psicofonia, para falar com os circunstantes àquela mediúnica, antes de esta entidade assenhorear-se de minhas faculdades mediúnicas, comunicando este depoimento tocante.

(Notas do Médium)