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Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo
 Espírito Eugênia-Aspásia

Corria o final dos anos 1970. Carlos recostou-se à porta de seu “Maverick” amarelo-dourado, que ainda exalava o característico odor de carro novo, de pé, feliz, após estacioná-lo em frente à casa da mulher que lhe inflamava os ideais de homem. Morena de tez clara e lindos cabelos escuros aos ombros, Bárbara era a típica mulher intimorata que havia sofrido os efeitos da geração anterior de jovens, a dos revolucionários anos 1960. “Emancipada”, sentia-se dona de seu destino, preocupada em desenvolver-se profissionalmente, assim como em encontrar alguém para partilhar a vida íntima, um homem que – pré-requisito essencial para ela – não lhe tolhesse a liberdade de ser humano.

Para Carlos, todas essas atitudes de Bárbara, ainda pouco elogiáveis, na maior parte do país, não lhe importavam. Pelo contrário: sentia-a segura e forte, o que admirava, profundamente. Não lhe interessava, nem mesmo, que dissessem, à boca miúda: “mulheres cariocas são todas perdidas”. Naquele Brasil de quatro décadas passadas, até em metrópoles regionais, havia fortes preconceitos contra tão somente a ideia de moças fazerem sexo antes do casamento. Tal atavismo já desaparecera, de modo expressivo, na antiga capital da república, que, todavia, preservava o status de capital cultural e artística da nação, mantendo-se na vanguarda dos costumes. Não entraremos em mais detalhes sobre a cidade (entre outros dados) em que ocorrem os eventos que narramos, a fim de que não sejam identificadas as personagens, ainda encarnadas, em sua maioria.

A noite estava agradável, numa primavera quase verão, que favorecia lufadas refrescantes de brisa tranquila, naquela capital de renome nacional que, entretanto, sequer encerrava dois milhões de habitantes. De dentro do veículo, o aparelho de som reproduzia uma fita cassete com melodias de “Bee Gees”. Carlos inspirou fundo o doce aroma de jasmins, que dimanava do jardim da casa de Bárbara, filha única de pais que foram transferidos, por razões profissionais, há apenas cinco anos, da “cidade maravilhosa” para aquele centro urbano de influência regional significativa.

Gervázio, alto funcionário da Petrobrás, e Eleonora, que, psicóloga, submeteu-se a refazer sua “clientela” em ambiente diferente, para acompanhar o esposo e manter a família de três membros unida. Ele, que vivera seus bons momentos de rebeldia, participando, embora já na casa de 30 anos, dos protestos de uma década antes, como a passeata dos 100 mil; ela, mente aberta com formação científica. Ambos nascidos, como a filha, na capital fluminense, não se incomodavam, por todos esses motivos, que Bárbara saísse sozinha, com o namorado, e voltasse mais tarde, com as chaves de casa, em mãos, desde que, com 19 anos, deveria ter ciência de seus atos. Carlos tinha quatro anos mais. Comemorara, feliz, os 23 janeiros de idade, há apenas uma semana, celebração em que exibira, orgulhoso e feliz, a namorada cintilante de entusiasmo e autoconfiança, além de portadora de uma beleza tipicamente brasileira, em concentração especial.

Viril de modo particular, trazia ele aquele porte pouco afeito a falar e demonstrar sentimentos, que as personalidades muito masculinas costumam apresentar. Não, contudo, para ter a mente arraigada a preconceitos comuns à época, que restringiam o gênero feminino a um papel secundário. Isso porque Carlos, espírito acima da média evolutiva do planeta, prevalecia à influência social e cultural o bastante para ouvir e ignorar as opiniões correntes, preservando seus próprios valores e impressões íntimas, assim favorecendo um coeficiente de felicidade para o relacionamento com o sexo oposto que, de forma mais ampla, somente gerações futuras desfrutariam, como atualmente se dá.

Engenheiro civil recém-formado, dava-se muito bem com o sogro, igualmente engenheiro, com quem palestrava animadamente, ao se encontrarem, naquele “logicês-pragmatês”, idioma peculiar ao universo masculino padrão, enquanto Bárbara se unia à mãe, no “psicologês-relacionês”, língua bem mais usual entre as mulheres daqueles dias, e ainda de hoje…

Carlos tinha um irmão mais novo, então com 18 anos. Gilberto era discreto e sensível. Adorava cinema e era encantado com música erudita e ballet clássico. Lembrava fisicamente o irmão, conquanto mais franzino e visivelmente feminino. Os pais de ambos “morriam de vergonha” e já haviam desistido de tentar corrigir as maneiras “efeminadas” do caçula, contentando-se em focar o pensamento e o coração no primogênito brilhante na escola, tranquilo de temperamento, másculo em todo ponto de vista, sem deixar espaço a dúvidas. Não eram más pessoas – tratava-se de um estereótipo deveras difícil de se erradicar, como no presente ainda é difícil para muita gente pouco esclarecida: o de que a homossexualidade constitui algum tipo de degradação, vício ou imoralidade, se não um conjunto de tudo isso.

Com uma atitude diversa em relação a Gilberto, Carlos fora promotor, efetivamente, do fim da “perseguição branda” que se fazia em torno do irmão doce e amável, no sentido de que este agisse de modo diferente à sua natureza. E os pais, ainda mais admirados dos valores do filho mais velho, foram cedendo, até que, à altura dos acontecimentos que relatamos, não mais “pegavam no pé” do garoto recém-ingresso na fase adulta, chegando a permitir que ele cursasse a tal faculdade de Artes Plásticas que lhe interessava.

Gilberto e Bárbara – curioso evento – se apaixonaram reciprocamente, se possível fora dizer, mais do que ocorrera com o par de enamorados. Foi um fenômeno de “amizade à primeira vista”, entre o irmão de Carlos e sua namorada, tanto quanto se dera, entre o casal, um clássico caso de “amor à primeira vista”. E isso agradava Carlos profundamente, em vez de lhe gerar ciúme ou qualquer ordem de disputa, qual seria de se esperar. Acostumado a ver o irmão mais novo como a uma irmã – era assim, secretamente, que o imaginava –, tinha uma postura altamente protetora em relação a ele, sem saber que, em pregressas existências, haviam entretecido, por mais de uma vez, a ligação de pai e filha. Destarte, quando via a mulher de sua vida, com quem pretendia se unir permanentemente em matrimônio, e “a filha amada” darem-se bem, seu coração fazia festa, intimamente. Não que percebesse, de forma consciente, o que aqui descrevemos; que concebesse ou elaborasse essas ideias. Eram sentimentos, e sentimentos de harmonia, felicidade, muita satisfação.

O triângulo afetuoso era uma família de outras encarnações que se encontrava. Bárbara, apesar de quase da mesma idade que Gilberto, intuía um carinho fora do comum pelo irmão do namorado, a ponto de alegrar-se quando via um, mas emocionar-se às lágrimas quando abraçava o delicado caçula daquele que, estava convicta, seria seu esposo… Ela quase o sentia irmão… ou… seria melhor dizer: “irmã”… Foram, em verdade, por mais de uma reencarnação pregressa, mãe e filha, nas mesmas épocas em que também se ligara a Carlos, em matrimônio. Por três vidas consecutivas, ao todo, o trio se encontrava nesse mesmo arranjo familiar de muito amor e sintonia, espíritos afins e dignos que eram, todos destoando da média do orbe.

– O que é isso, Carlos? – perguntou, entre os dentes, um tosco Sr. Luís, pai dos dois meninos, quando pela primeira vez viu a futura nora abraçar-se comovida com o filho mais novo. – Não tem algo de errado com sua namorada? Parece que ela está interessada mais em seu irmão do que em você!

– Deixe de bobagem, pai! Isso é amizade pura! E… – deixou escapar, sem se dar conta por quê – muita saudade…

– O quê? – perguntou um perplexo Luís.

– Não sei como explicar, pai. Mas é algo muito seguro que sinto. Não se preocupe. Bárbara é “moça de bem” e não me engana, se é o que o preocupa. E quanto a Gilberto… – deteve a frase, sem concluí-la.

Luís emburrou, recordando-se de sua sina: um filho “pederasta”. Pois é – pensava de si para consigo – “a vagabunda do Rio” poderia até se “assanhar” para o caçula, mas o seu preferido e primogênito, ao menos nessa ocasião, não corria nenhum risco de ser traído… isso porque o filho mais novo era um “degenerado”. Torcia, em seu coração de pai, para que a “menina soltinha” ficasse presa aos dois filhos, e não houvesse, então, perigo de ver seu tão amado Carlos sofrer por causa do que, julgava, era óbvio demais para ser explicitado numa conversa franca.

Voltamos a Carlos, debaixo do céu estrelado, recostado na lateral de seu “Maverick”, aguardando a amada surgir à porta. Deslumbrante e discreta, no vestir e maquiar-se, Bárbara apareceu e saltou nos braços de um arfante e realizado Carlos. Desta vez, ela tinha também lágrimas nos olhos para o namorado. Ele era a concretização de seus sonhos de mulher, logo ela que andava, há alguns anos, pouco crente de poder vir a encontrá-lo. 

A Lua, as estrelas, ao fundo de “Bee Gees”, foram testemunhas daquele momento feliz, quando, depois do cálido e sentido abraço, o casal de enamorados adentrou o automóvel e demandou ambiente mais reservado, onde pudessem confabular mais intimamente e usufruir da rara felicidade de espíritos tão amigos que se reencontram, pela quarta vez seguida (depois das três vidas anteriores a que aludimos), revivendo, no século XX, seus laços de sintonia e ventura.

Desta feita, no entanto, uma importante e difícil tarefa lhes fora confiada. Assim, toda a cumplicidade, confiança e ternura que nutriam um pelo outro lhes seriam essenciais, para que, enquanto eram felizes na intimidade de casal, tivessem suporte psicológico para sustentar a santa peleja pelo bem, na vida social e profissional…

(Capítulo psicografado em New Milford, Connecticut, EUA, aos 8 de dezembro de 2013.)

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