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Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo Espírito Eugênia-Aspásia.

O pequeno atraso de Carlos – embora fosse extremamente pontual – não causou estranheza em Bárbara, seja porque se tratava de apenas dez minutos, seja porque a carioca recebia com compreensão natural as pequenas falhas do companheiro, diante da enormidade de virtudes que ele apresentava. Bárbara portava a rara lucidez de evitar reclamações por pequenas faltas, a fim de não estressar a relação, com nonadas, e, por conseguinte, poder ser mais ouvida em assuntos de maior relevância, quando surgissem – o que sempre ocorre, em qualquer natureza de relacionamento.

A presença de Gilberto e seus óbvios olhos inchados chamaram a atenção da moça perspicaz. Carlos, que se emocionara menos, parecia normal.

– Gilberto!… – exclamou, agoniada, antes mesmo de cumprimentar o noivo, colocando as duas mãos espalmadas sobre o rosto do amigo, numa atitude maternal um tanto invasiva para um adulto. – O que houve?

– Cumprimente Carlos, por favor, Bárbara – falou, em tom seco, retirando com delicadeza as mãos da amiga, levemente ofendido com a imagem “infantilizada” que ela nutria a seu respeito. – Não sou seu bebê, e ele é seu noivo – concluiu, voz firme, na altivez característica das almas mais envelhecidas no carreiro evolutivo, que também não apresentam falsas atitudes de humildade e submissão, ante demonstrações de desrespeito, ainda que bem-intencionadas.

Os noivos se cumprimentaram, rapidamente. E Bárbara voltou a falar com Gilberto:

– Desculpe, não quis ser intrometida. Não o vejo como um bebê. Apenas me preocupo demais com você.

– Sei disso, Bárbara. Obrigado! – respondeu, num forçado semissorriso, enxugando as faces, com o lenço que Carlos lhe dera, após o abraço e confidências emotivas, quando estacionaram o carro há poucos minutos.

– Querem entrar um pouco?

Carlos meneou a cabeça, negativamente, cenho contraído, lembrando-se da timidez do irmão, e Gilberto adiantou-se a dizer:

– Não é preciso, Bara. Vamos logo ao cinema, p’ra vocês não perderem a hora.

– Nós! – rompeu o silêncio um peremptório Carlos.

Gilberto levantou as sobrancelhas, suspirando, e rebateu fitando os olhos do irmão, qual se dissesse “Como quiser”:

– “Nós”, Carlos.

Bárbara então passou a mão esquerda pelo braço direito do amigo-irmão, enquanto Carlos apressava o passo, no intuito de abrir a porta do carona para sua amada, levantando, em seguida, o banco dianteiro, de modo que Gilberto pudesse entrar primeiro, no veículo de duas portas.

– Quer que eu vá atrás com você? – indagou, carinhosamente, Bárbara.

– Fora de cogitação – denegou, resoluto, Gilberto. – Não posso estragar a noite de vocês, mais do que já estou atrapalhando.

Notando que não havia espaço a negociações, Bárbara aquiesceu, sem responder, e assim acomodaram-se todos no Maverick amarelo.

A sessão de cinema foi tediosa para Gilberto… e tensa para o casal feliz, que, por empático pudor, diante do sofrimento do ente querido, evitou as habituais carícias nas mãos, mantendo-as entrelaçadas, todavia, durante toda a exibição do filme. Vez que outra, Bárbara, que estava ladeada pelos dois irmãos, voltava-se para sua direita e perguntava, com alguns monossílabos, se o amigo estava gostando, ou se estava bem ou melhor, sempre recebendo um “sim” como resposta, seguido de toque afetuoso no braço, por parte do “meio-cunhado”, que pretendia transmitir segurança e gratidão no que dizia.

A poucas filas de cadeiras atrás, por “força da Vida”, estava ninguém menos que Túlio. Saíra sozinho para espairecer, e acompanhou a chegada dos três, sem ser visto por eles. Seu impulso natural seria pular da cadeira para cumprimentá-los. No entanto, ao se deparar com o vulto inequívoco de Gilberto, na penumbra do ambiente, estacou na cadeira, como se estivesse congelado.

Passou toda a sessão programando levantar-se e sair à francesa, no afã de evitar qualquer possibilidade de encontro com o amigo, a noiva… e… a materialização do “problema de sua vida”, no momento. A despeito de seus esforços, contudo, não conseguia pôr-se para fora da sala de projeções…

O que seria aquilo?… Tentou distrair-se com o enredo do filme, dizendo consigo que seu subconsciente deveria estar-lhe sugerindo a ideia de manter naturalidade, frente à situação. Mas logo voltava a observar, em meio ao lusco-fusco do salão, a silhueta dos três, sem perder nenhum movimento, quais os diversos instantes de preocupação de Bárbara, como também os de Carlos, que, por duas vezes, esgueirou-se sobre a noiva para perguntar a Gilberto se estava bem. Em cada ocasião dessas, Túlio esforçava o foco do aparelho visual para divisar, tão nitidamente quanto possível, o quase perfil, em ângulo oblíquo, do rosto que o fascinava. “Céus!…” Estava há dois domingos em intensos encontros sexuais com suas “amigas”, e o “negócio” com Gilberto não “sumira”. Apavorou-se. O que mais poderia fazer?

Quando se inclinava a deduzir que a situação era “mais séria do que pensara” e que as lembranças do rapaz (que haviam esmaecido, mas não desaparecido de todo) poderiam, de fato, significar o que mais o terrificava, voltava a envidar um esforço psicológico ingente para sair da sala… e, simplesmente, prosseguia sentado na poltrona, como se estivesse amarrado por correntes…

O império das relações cármicas – não no sentido pejorativo, mas na conotação de “programa existencial” e “vínculo de amor espiritual” – não permitia que Túlio fugisse de algo que, intuía, ele muito desejava, conquanto não soubesse até então que necessitava. “Tudo bem que eu fique aqui agora, mas vou me levantar de um salto, quando o filme ameaçar terminar, antes que eles possam me ver” – deliberou internamente, julgando-se muito certo da decisão tomada.

Foi nesse estado de espírito, mergulhado em profundos conflitos emocionais, que as luzes se fizeram na câmara da casa de cinema, finalizada a projeção. E Túlio continuou estatelado em sua cadeira, claramente, segundo percebia de si próprio, esperando ser descoberto na sessão de cinema, não obstante haver “decidido” o contrário, conscientemente ao menos. Segundos depois, Bárbara, sorridente, sussurrava algo aos ouvidos de Carlos, que também abriu um sorriso amistoso para o familiar pelo espírito.

Mãos frias e coração precípite, Túlio sorriu um tanto sem graça, levantando-se – agora conseguia –, em gestos lentos e pesados, e caminhando na direção dos três, em postura completamente fora de seu padrão de comportamento, dinâmico e entusiasta de ordinário. Enquanto avançava para a tríade de corações queridos, reparou, num misto intraduzível de emoções, que seus olhos, involuntária e magneticamente, procuraram os de Gilberto, que lhe retribuía o olhar, visivelmente nervoso e assustado… “O irmão de Carlos sentia o mesmo que ele…” – logrou formular o pensamento – “Mas e o que tenho com isso? Se o rapaz é homossexual, eu não sou! O problema não é ele me retribuir, mas eu estar sentindo isso por ele…”

– O que houve, camarada? – interrompeu Carlos, com um fraternal tapinha nas costas, tirando-o de suas reflexões doridas. – Que cara é essa? – complementou, ostentando uma expressão de perplexidade.

– Tudo bem, meu chapa – retribuiu, constrangido –; estou meio cansado hoje.

– Algum problema no escritório? – interrogou Carlos, sinceramente preocupado.

– Não, tudo bem!

– E em casa?

– Tudo bem, também – respondeu, lacônico, o falante de todas as horas.

Bárbara cumprimentou o melhor amigo do noivo, com a amabilidade costumeira, percebendo, porém, com enorme surpresa, a troca de olhares entre ele e Gilberto, com quem se mantinha de braços dados, ao mesmo tempo em que segurava com a outra mão a de Carlos. “Não!… Isso deve ser uma impressão muito errada de minha parte. Conheço Túlio e suas histórias de agitada vida sexual. Carlos teria me dito alguma coisa se…” – e, num átimo, corrigiu a linha de solilóquios, enquanto os amigos trocavam frases curtas. “E se Carlos não soubesse?…” – continuou, tentando ocultar um sorriso de contentamento e desviando o rosto para seu amado, como se prestasse atenção ao que diziam. “Preciso falar com minha mãe sobre isso… ainda hoje!” E, vislumbrando, de soslaio, o semblante aturdido de Gilberto, bem como o tremor de seu braço, quando Túlio dirigiu um cumprimento quase ríspido ao jovem, sem estender a mão, pensou consigo, ainda mais animada: “Deve ser essa então a causa da tão misteriosa angústia de Gilberto. A-há! Isso também vai constar de meu relatório a D. Eleonora, hoje mesmo, antes de ir p’ra cama.”

– Minha mãe é psicóloga, Túlio. Creio que você saiba disso – disparou, num repente de inspiração, salvando um aflito Carlos, que não conseguia arrancar do “amigo do peito” o que o consternava tanto.

– Sim, sim!… Acho que você ou Carlos já me disse isso! – confirmou Túlio, olhos mais animados, como quem recebesse uma ideia interessante.

– Se estiver precisando desabafar com alguém, com a garantia do ab-so-lu-to si-gi-lo – reforçou Bárbara, com forte acento no final da frase –, é uma ótima opção para quem enfrenta tantos problemas, trabalhando num escritório de advocacia…

Túlio adorou a deixa que a quase cunhada (era assim que a sentia) lhe dera, e retomando parte de sua verve, confidenciou, de modo articulado e em volume de voz mais forte:

– ‘Taí, Bárbara; nunca achei que fosse julgar necessário consultar um psicoterapeuta. Sempre considerei uma medida p’ra desajustados ou doentes mentais… Mas, como você bem disse, um escritório de advocacia lida, basicamente, com problemas de terceiros, e precisamos manter o sigilo dos clientes. Só que a pressão mental, às vezes, é muito forte, sobremaneira quando as fronteiras da ética e da moralidade parecem estar difusas…

Carlos ouviu, pasmo, o que Túlio dizia, mas ficou satisfeito que a noiva houvesse encontrado uma rota na conversa para diluir o mal-estar óbvio do amigo de infância. Bárbara, então, aproveitou, feliz, a receptividade do futuro consulente de sua mãe:

– Ah… Túlio! Como é forte esse preconceito em relação ao aconselhamento ou mesmo ao tratamento psicoterápico. No futuro, todos farão terapia. Eu mesma faço, com um amigo de minha mãe. É algo de extrema importância para qualquer pessoa… e como ajuda no auto-co-nhe-ci-men-to! – enfatizou, propositalmente neste ponto, o que, entretanto, esmaeceu o sorriso do interlocutor. – Mas também dissipa pro-ble-mas i-ma-gi-ná-rios – falou, certeira, fazendo Túlio voltar a sorrir.

– Gostaria do telefone do consultório de sua mãe. Pode me passar?

– Sem dúvida alguma! – afirmou, empolgada, Bárbara, retirando da bolsa feminina-porta-tudo um bloquinho de notas e uma caneta, para escrever o número numa folha de papel e entregá-la ao irmão espiritual de seu amado.

– Extremamente grato, Bárbara.

– Não há de quê, Túlio. Vou ligar amanhã para a secretária de minha mãe e pedir que arranje um jeito de encaixá-lo na agenda dela para logo…

Túlio, que não se sentiu invadido com a iniciativa de Bárbara, e sim agradecido, aditou, curioso, a questão que lhe era surpreendente:

– Então um consultório psicológico é tão procurado assim?

– Não todos. E, em grande parte, como acabei de lhe dizer, por preconceito. Mas minha mãe é famosa por desfazer “grilos” da cabeça das pessoas, como se tivesse um condão mágico… – arrematou, escolhendo cuidadosamente as palavras, para atingir seus fins… com sucesso instantâneo.

Com olhos como que trazidos de volta à vida, Túlio disse, abrindo um sorriso espontâneo:

– Legal! É exatamente isso de que ando precisando!

Otimista-quase-simplista, Túlio cumprimentou Carlos, com a alegria próxima do que lhe era de costume, beijou a mão de Bárbara, agradecido, e até apertou a destra de Gilberto, que – impossível não notar – estava fria e trêmula.

Sentindo um comichão no peito, Túlio percebeu que o irmão de Carlos evitava fixar os olhos nos seus, embora os buscasse do mesmo modo instintivo e irresistível como acontecia com o próprio advogado. Mas a ideia do consultório psicoterápico lhe pareceu a solução final para seu “problema”. Tentaria marcar um encontro para aquela mesma semana, e não teria receio de abrir-se com uma profissional. Muito pelo contrário: como ele era “homem” (hétero), naturalmente a especialista conheceria a razão profunda para a crise que enfrentava e lhe apresentaria formas práticas de “remover o distúrbio” de “uma vez por todas” de sua mente, trazendo-o de volta à “normalidade”.

(Capítulo psicografado em 26 de dezembro de 2013.)

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