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Introito elucidativo:

A imagem acima é de uma das mais aclamadas divas do cinema antigo, que atingiu o apogeu de sua celebridade durante a denominada “Era de Ouro de Hollywood” (anos 30 e 40 do século passado): Bette Davis, no filme “Pérfida”, de 1941, que lhe rendeu o “Oscar” de melhor atriz no ano seguinte.Escolhemo-la para ilustrar este capítulo, porquanto, diferentemente da imagem deformada, mítica e quase infantil que costumamos atribuir aos seres do mal, com tridente, rabo, patas e chifres, ou parecendo difusas sombras evanescentes, os gênios perversos da outra dimensão de vida amiúde se apresentam muito elegantes e bem postos, articulados e não raro belos – o mesmo podendo se dar com os que, reencarnados, estejam em nosso círculo de relações sociais, no domínio material de existência.Como os(as) leitores(as) perceberão, neste décimo fascículo do presente romance mediúnico, uma personagem desencarnada perversa surge bem semelhante ao “monstro sagrado” do cinema clássico: como uma dama de aspecto distinto, trajada “à moda de trinta anos passados” – ou seja, dos anos 1940, aproximadamente, pois que a narrativa se desenrola em 1979. Por outro lado, a própria “obsediada”, objeto da influência malevolente, jaz em regímen de profunda afinidade de ideias com a companheira despojada de corpo físico, na medida em que, completamente tomada pela mesquinharia e pirraça egoísticas, casadas à autovitimização, porta-se como vilã, ao tentar perturbar a felicidade de seus filhos, no afã de deter controle sobre eles.

Nesta complexa e realista narração da Mestra espiritual Eugênia-Aspásia, a encarnada igualmente não se enquadra no estereótipo do crime crasso: uma ladra, uma assassina ou uma estelionatária vulgar, e sim na condição de uma pessoa bem próxima do padrão de dignidade social que as convenções e o moralismo dominantes da época rotulavam de “mulher de família” – com sua natural contraparte, a do “homem de bem”.

O mal nem sempre é óbvio: um axioma de domínio comum, mas que costumamos ignorar, buscando nos proteger da dolorosa experiência de identificar o mal em nosso próprio cosmo interior. Todavia, somente com a percepção das falhas que portamos, valendo-nos, por exemplo, de processos projetivos como os que ocorrem durante as narrativas em texto (como esta) ou em produções audiovisuais, podemos descobrir, em nós mesmos, as causas de nossa queda, a fim de erradicá-las.

Para pasmo de indivíduos menos amadurecidos, psicológica ou espiritualmente, quase sempre somos seduzidos pelo mal quando justamente nos sentimos defraudados em nossos “direitos”, compreendidos como conquistas indiscutíveis, mas que, de ordinário, nem sequer direitos constituem. Filhos, realizações profissionais, casamentos nos podem ser subtraídos a qualquer momento, ainda que nos tenhamos empenhado arduamente nestes departamentos existenciais – familiar, profissional, conjugal. E muito menos teriam caráter inalienável, esses pretensos direitos, sobremaneira quando invadem o espaço do livre-arbítrio e discernimento de outras pessoas, por mais amadas que sejam, por mais tentemos nos convencer de que agimos em função do bem-estar e felicidade delas… Estaríamos mesmo?…

Há quem esteja totalmente convencido de suas sempre boas intenções – o que é muito comum –, e, no entanto, se faz agente das trevas, involuntariamente, por não manter a vigilância da autocrítica, a lucidez de buscar o autoconhecimento e a melhoria de si próprio. Tal cegueira da alma é bem demonstrada não só por diversas escolas sérias de psicologia, mas também pelas mais respeitáveis tradições espirituais da humanidade, tanto do Ocidente, como do Oriente, do passado e do presente.

Nota do Médium, em 14/02/2014.

Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo Espírito Eugênia-Aspásia.

O “ano internacional da criança” findava-se, e a década de 80 do século XX estava para despontar… Para Bárbara, o fim de 1979 significava o término da era de sua condição de menina – sentia-se definitivamente iniciada na vida adulta, com a morte súbita do pai.

Não havia qualquer clima emocional para celebração, no lar de Eleonora e Bara. A viúva e a órfã, todavia, enfrentavam com galharda bravura a nova experiência. Decidiram não participar de festas, ficando em casa, e Carlos, extremamente compreensivo, passaria os festejos de “Ano Bom” ao lado dos familiares biológicos, sem a presença da amada.

Gilberto estava ao telefone com Bárbara, quando faltava menos de uma hora para a meia-noite do dia 31 de dezembro. A jovem palestrara carinhosamente com o noivo, por quinze minutos, mas, com o “cunhado”, prolongava-se na ligação, há mais de meia hora.

– Que conversa interminável é essa? – perguntou ao irmão caçula, em voz alta, a poucos metros de distância, com ar de sorriso, tentando disfarçar sua preocupação, o filho mais velho de Nildete e Luís.

Sem interromper a amiga, Gilberto fez um aceno significativo, meneando negativamente a cabeça e tapando o fone, como quem repreendia o irmão pela atitude.

Ao mesmo tempo em que Carlos avançou para o irmão, em vez de atendê-lo, Bara interrogou, do outro lado da linha:

– Carlos deve estar bem murchinho com meu estado, não é?

– Nada disso, Bárbara: está preocupado com você, é claro, mas não abatido, e entende perfeitamente sua necessidade de ficar sozinha com sua mãe.

A essa altura, com o queixo ligeiramente levantado e mãos na cintura, Carlos estacava-se a meio metro do irmão, olhando-o “de cima”. Gilberto tão só virou o rosto para o lado, sinalizando que não iria ceder. Foi então que o noivo de Bárbara falou mais alto ainda, nitidamente para a adorada companheira ouvi-lo:

– Desse jeito vou ficar com ciúmes! Ela está conversando há bem mais tempo com você!…

Gilberto tentou cobrir novamente o fone, mas já no meio da frase e sem abafar completamente a fala do irmão. Olhou “fuzilando” Carlos, enquanto a amiga dizia, após um risinho abafado, meio sem graça:

– Passe o telefone p’ra esse rapaz mimoso, Gilberto…

– Tem certeza, Bara?

– Sim. Você já me confortou muito. Deixe-me “dengar” um pouco esse seu irmãozinho mais velho.

– Ok. Você é quem diz, amiga – e levantou-se da cadeira-mesinha do telefone, torcendo os lábios e olhando de soslaio para um impassível Carlos, que sorria, vitorioso, para o caçula.

Essas interações eram comuns entre os dois irmãos. Pareciam discussões ou desentendimentos, mas raramente havia conflitos de fato entre eles. Era como se “levassem na esportiva” suas diferenças de opinião e simulassem “grande rivalidade”, por não saberem expressar o enorme carinho que sentiam um pelo outro. O padrão, porém, lembrava o de irmãos de sexos opostos, o que nenhum dos dois disfarçava, nem entre si, nem diante dos pais, que se faziam de desentendidos ante aquela “vergonhosa fatalidade”, com ares de segredo familiar.

Carlos, talvez para se certificar de que não deixara o irmão realmente aborrecido, deu-lhe um tapinha na nuca, quando quase fugia ao alcance de seu braço, ao que Gilberto fitou-o nos olhos, como uma irmã mais velha olharia para o irmãozinho traquinas, meneando a cabeça novamente e sorrindo de canto de boca, qual a dizer: “Você não tem jeito mesmo, mas eu o aceito como você é e lhe quero bem mesmo assim”.

Tranquilizado com a reação de Gilberto, Carlos sorriu largamente e, aboletando-se no assento do móvel do telefone, discursou por pouco mais de cinco minutos, até que conseguiu arrancar de Bárbara um “sim” à sua proposta de sair de casa, não para comemorar, mas para ficarem juntos naquela madrugada.

– Mas, meu amor, se você sair agora, é possível que passe a virada de ano no trânsito. E é uma virada de década, hein? – argumentou Bara.

– Pensei que fosse você quem estava fazendo pouco caso da data. Não importa se corro o risco de passar por zero hora no percurso. Interessa-me estar com você, agora e sempre. Não me conformo com a ideia de sabê-la em casa numa noite como esta, mesmo que em luto.

– Mas, Carlos… meu estado me impede completamente de ter vontade de comemorar.

– Eu não disse que nos encontraríamos p’ra isso. Quero estar ao seu lado, apenas. Você não vai dormir agora, vai?

– Já tentei e não consegui.

– Então!… Prometo, se quiser, que nem lhe desejo um bom ano… depois da meia-noite.

Bárbara riu baixinho.

– Não precisa de tanto, meu amor…

– Então?

– Você é um homem determinado.

– Sou. Uma das minhas poucas virtudes. Sei o que quero: estar com você, principalmente num dia como hoje. Você insone, ouvindo os ruídos de celebração da vizinhança, em casa apenas com sua mãe, que já está dormindo, não é?

– Está.

– Por isso, nem essa desculpa você pode me apresentar: não está fazendo companhia a ela.

– Você venceu, Carlos. Vou pedir apenas que me dê quinze minutos para eu me arrumar.

– Não estou numa disputa: estou preocupado com você. Não gosto dessa expressão. E quanto aos quinze minutos, vou aproveitá-los no trajeto. Estou saindo de casa agora.

O jovem engenheiro falou com os pais e o irmão, despedindo-se com afeto distanciado, ignorando a cara de vítima que Nildete fazia com a notícia, bem como seu protesto improfícuo de que era injusto deixá-los àquela hora.

– Vá com Deus, Carlos! Seja muito feliz com Bara! Esse ano promete, para todos nós! – externou Gilberto.

Nildete apertou as pálpebras, apurando a visão para observar o caçula, desconfiada, mordiscando os lábios. Aquele menino estava muito diferente… – pensava consigo – uma alegria meio irritante em alguns momentos, choroso em outros… O que estaria acontecendo?… Com certeza tinha algo a ver com aquela tal psicóloga, mãe da carioquinha arrogante por quem seu filho se apaixonara. Bem empregado que ficara viúva uma e órfã outra! Merecido para as duas, que estavam, cada qual, roubando-lhe um de seus filhos…

– Mãe… que cara é esta? – flagrou-a o rapaz, depois que o irmão já havia partido ao encontro de amor e paz.

– Nada!… Só estava pensando numas coisas… – deixou escapar, com desdém acintoso.

– No quê, mãe? – indagou, torcendo mais uma vez o canto da boca (gesto muito próprio seu), já sabendo que viria algum comentário desagradável em seguida.

– Essa história de terapia. Que eu saiba, só frequenta consultório de psicólogo quem porta algum distúrbio grave. Não faço a menor ideia de como possa ser útil ou benéfico para você. Estou inteiramente convencida do contrário, não é, Luís? – pedindo apoio moral do marido, aquela que se julgava uma tão emancipada mulher moderna. – Essas visitas a Eleonora só lhe podem estar confundindo as ideias…

Gilberto enrubesceu-se de raiva. Luís permanecia calado, virando-se para o lado oposto, contrariado com a esposa e sua postura frequente de puxar discussões.

– Deveria ter pedido a Carlos para me deixar em qualquer outro lugar, longe de sua ignorância e mesquinharia, mãe!

– Olhe como fala comigo, moleque! Eu sou sua mãe! – alteou a voz, uma alterada Nildete.

– E onde houve erro, na minha fala com você? Nós já conversamos sobre isso. Sou maior de idade e Carlos é quem está pagando as sessões. Logo, não preciso de sua aprovação p’ra continuar fazendo o que sei que me faz bem.

Nildete, num esgar de espanto, tornou ao marido:

– Veja só isso, Luís! Quanta ingratidão desse menino! Veja como essa tal psicóloga está desarrumando a cabeça dele!

Antes que o pai pudesse articular palavra, Gilberto se levantou e respondeu de pé:

– Vou p’r’o meu quarto e, se você me acompanhar até lá, garanto-lhe que saio de casa e vou passar a virada de ano com um a-mi-go! – declarou, com entonação particular, insinuando à mãe que já entretinha relacionamento sexual com algum homem.

A matrona maldosa ficou paralisada ante a reação de autossuficiência emocional do “filhinho tão frágil e amoldável” de pouco tempo atrás.

– Luís?! – exclamou, horrorizada, como se solicitasse socorro.

O marido se levantou, demandando a cozinha, em busca de uma latinha de cerveja, e, elevando a voz para ser ouvido até o fim da frase, sentenciou:

– Isso é lá entre vocês dois, mulher. Não fui eu quem puxou a discussão. Você deve reconhecer que tem um prazer todo especial em fazer isso…

Duas lágrimas rolavam sobre a fisionomia enfurecida da mulher de meia-idade. Sua vida estava sendo destruída, pensou consigo. Precisava tomar enérgicas providências. Aquelas duas cariocas maus-caracteres tinham que sofrer imediata represália. Mas ela deveria planejar com inteligência o revide. As rivais eram muito sagazes, não podia negar isso, e, portanto, bem mais perigosas! Fora muito complacente e ingênua em permitir aproximação de Carlos e Gilberto com aquela família “infernal” – prosseguia em seu solilóquio sombrio, em palavras inarticuladas, dentro da caixa craniana. Ao seu lado, uma dama desencarnada, vestida à moda de trinta anos passados, abraçava-se a ela, alisando-lhe os cabelos, com semblante de falsa piedade… sussurrando-lhe aos ouvidos:

– Pois é, minha querida… Como você é sofrida!… Pobre coitada! Essas duas têm que pagar pelo que estão fazendo… Isso é muito injusto para com uma mãe tão devotada e decente como você! O que você fez para merecer uma sina ingrata como essa?

A esposa de Luís já desabava em pranto abafado, absorvendo as sugestões da companhia invisível ao sensório comum, entregando-se a profunda autocomiseração… Que mundo cruel era aquele!… Mas ela não era uma mulher tola e submissa, como as da geração de sua mãe. Reagiria sim, e reagiria à altura. Ato contínuo, empertigou a coluna, levantando o nariz e contraindo os lábios, com olhar vítreo de ódio, entrelaçando-se, quadro a quadro de pensamento, sem o saber, à companheira desencarnada. Não passaria aquele mês de janeiro, sem que tomasse alguma iniciativa no sentido de derrotar aquelas duas “monstras” destruidoras de seu lar. Seria a heroína a proteger seus filhos de tão nefastas influências… Elas não perdiam por esperar! Ah… não! – deliberou, com convicção, para dentro de si, terminando por murmurar, arranhando a voz entre os dentes, em tom macabro, um famoso jargão popular:

– Quem ri por último ri melhor!…

(Psicografia de 13/02/2013.)

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