Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

O Natal se aproxima. Como n’outros tempos, Jesus menino vem a nós, saber se já estamos preparados para recebê-lo. No íntimo de nossos corações, não aguarda encontrar palácios de virtude ou riquezas faustosas de boas obras, mas uma manjedoura singela de boa vontade e a palha seca da disposição genuína de servir, ainda que parcamente.

Em todos os tempos e ainda agora, muitos sofrem a ilusão de suporem que, para receberem o Cristo na própria alma, é imprescindível encontrar-se o luxo e a glória de um espírito redimido. Almas de escol, porém, já se encontram definitivamente unidas ao Cristo de Deus, em ágape infinito de ressurreição eterna. Para esses santos e anjos não mais na Terra, o nascimento de Jesus se deu há muitos séculos, quando seus corações ainda eram primitivos como os da maioria esmagadora dos habitantes da crosta terrestre. Quem precisa do nascimento de Jesus no próprio interior são os seres pouco desenvolvidos, e não os iluminados. Eis por que, na civilização terrena, o Natal tem aspectos muito mais festivos e repercute muito mais que a Páscoa, que, para quase todos, sintomaticamente, lembra mais a dor, o martírio de Jesus, que sua libertação definitiva do cativeiro da matéria. É que, para a maioria de nós outros, espíritos, nos primeiros estágios da evolução humana, a coroa da glória derradeira soa tão improvável, distante e inalcançável, que seu significado verdadeiro passa desapercebido, distorcido no culto da “Paixão de Cristo”, tão mórbida quão distanciada do verdadeiro espírito cristão.

Uma outra desvirtuação grave acontece também no Natal. Como campanha de uma marca famosa surgiu o culto pagão do “Papai Noel”, terno, sim, adorável, sim, mas perigoso em suas reais expressões, nos efeitos que gera nas pessoas, na distração que provoca, desviando a atenção do populacho susceptível a hipnoses coletivas, do essencial para o fantasioso. E, assim, como um lobo em pele de cordeiro, o mito do Papai Noel toma o lugar do aniversariante divino, com os aspectos sedutores do velhinho bom, cheio de presentes a dar gratuitamente. O espiritual, assim, é permutado pelo material e o espírito de reflexão salutar é trocado pela febre consumista.

Sem dúvida que a troca de presentes tem seu lado bom, tanto quanto os festejos, favorecendo a psicosfera de reconciliação e confraternização gerais, no período natalino. Mas somos de convir que o Papai Noel nada mais passa de uma versão melhorada de Mamom (Da passagem evangélica: “Servir a Deus ou a Mamom”), o mesmo que aparece como o gordo “Rei Momo” do Carnaval, só que ainda mais carregado de símbolos de extravagância e apego às posses materiais, com seu veludo vermelho e ricos e faiscantes presentes, contrastando com a simplicidade e despojamento do menino-deus no estábulo. Uma criança pobre, mas cercada do calor familiar e de amigos, incluindo, com forte significado alegórico, animaizinhos da estrebaria, ao mostrar que o lado primitivo e o humano da alma curvam-se ante o numinoso que surge. Um velho risonho e rico, mas sozinho, sem família e sem raízes, distribuindo presentes sem dizer o motivo de sua generosidade, nem muito menos o preço que cobrará mais tarde por isso, aos que se deixam seduzir por seu canto de sereia. A discrepante diferença entre Jesus-Menino e Papai Noel, diametralmente opostos um do outro, bem serve de metáfora para os perigos de reverenciarmos a Deus ou ao poder das posses materiais, como escolhas de destino com conseqüências inexoráveis.

Jesus-bebê não gargalha, como o bonachão barbudo das tentações materiais, apresentando óbvios favores imediatos, mas emite vagidos inaudíveis, como frágil recém-nato, dentro de nossos corações, representando os nossos débeis propósitos de melhoria e crescimento, realização no bem e felicidade, espiritualidade e paz.

Que nos concentremos no motivo central de nosso Natal, e estejamos em família, não só considerando aqueles que compõem nossa parentela corporal, mas incluindo aqueles que formam nossa família espiritual, os que se afinam com nossos ideais e valores, e, assim, oremos e reflitamos, juntos, em torno de nossos ideais e iniciativas de fraternidade, amor e paz, fazendo sinceros votos, partilhados amorosamente, entre os convivas, de nos aplicarmos, efetivamente, o que dividimos no plano do espírito.

Que nos alinhemos com a presença do Cristo Cósmico, acessível a todos que o queiram, bons ou maus, virtuosos ou “pecadores”, almas nobres ou vacilantes, compreendendo que Jesus-menino veio justamente para aqueles que só podem receber uma criança de espiritualidade em seus corações e não um adulto de maturidade moral, que não suportariam viver.

Que todos compreendamos que Jesus nasceu para todos, mas principalmente para os mais carentes, frágeis e errados, para que, justamente, nos habilitemos, um dia, ao voo espetacular da espiritualidade sublime, na ressurreição de vida eterna de um futuro distante que, sem dúvida, um dia nos bafejará os espíritos imortais…

(Texto recebido em 23 de dezembro de 2002.).