Benjamin Teixeira
em diálogo com o espírito
Eugênia.

(Por sua extensão e importância, este diálogo figurará como mensagem do dia também nesta segunda-feira, 28 de maio de 2007.)

Em conversa reservada com Eugênia, nesta sexta-feira (como faço todos os dias), pediu-me a querida e sábia orientadora espiritual que entabulássemos um diálogo a respeito dos 12 anos de publicação de “A Princesa do Mediterrâneo” (completados neste domingo, 27 de maio), que acabou por se desdobrar em inúmeros assuntos e curiosidades sobre os quatro mil e quinhentos anos mais recentes de sua trajetória como espírito eterno, numa rara permissão dela a conversar sobre si mesma, com tantos detalhes e intimidades. Eugênia pediu para começar a provocação do colóquio, que segue, abaixo.

O Médium.


(Eugênia) – Contando doze anos, desde a publicação do romance de pretensões biográficas, sobre uma encarnação de minha insignificante pessoa, há seis séculos, resolvi trazer alguns informes que nos (*1) pareceram apropriados, aos prezados companheiros encarnados, e numa forma dialogada, a fim de que mais palatáveis ficassem ao prezado leitor.

(Benjamin) – Certo, Eugênia. Por onde pretende começar?

(Eugênia) – Pelo título. Não deveria ter se chamado “A Princesa do Mediterrâneo”, mas sim: “Uma Alma em Processo de Redenção”, de suas múltiplas limitações, a caminho do que deveria se tornar, em função de seus ideais cristãos. Desde a época do Egito Antigo, quando, dois mil e quinhentos anos antes de nossa era (ou seja: há 45 séculos), estive na condição de uma rainha-mãe, na famigerada cidade de Tebas, precisava dar os últimos acabamentos e correções na conduta da verdadeira responsabilidade ante o vulgo. Fui, no meu entender, naqueles tempos longínquos, há 4.500 anos, por demais distanciada das necessidades populares, ciosa excessivamente dos próprios princípios.

(Benjamin) – Não foi isso que nos disse o Espírito Gustavo Henrique, sobre essa sua antiga reencarnação (*2). Afirmou, inclusive, que era você o grande norte de orientação e equilíbrio de uma elite desassisada no comando da “coisa pública”…

(Eugênia) – O nobre padre Gustavo, mais fã do que aluno – além do quê, um amigo dileto, a quem sou muito grata, pela imagem alcandorada de luz que faz de minha pobre personalidade –, foi também o autor do título que me engalana a alma, com valores que me não pertencem ainda, em caráter absoluto, na nobreza de sentimentos que me deveria nortear continuamente, como o Cristo nos pede.

(Benjamin) – O que quer dizer por nobreza que a “deveria nortear”? Poderia esclarecer nosso leitor sobre o que considera faltar em seu espírito, para que se sinta moralmente satisfeita? Desculpe-me assim perguntar, mas é porque a vemos tão acima de todos nós, que é difícil ver-lhe máculas, de qualquer natureza, que desabonem seus sublimes atributos espirituais.

(Eugênia) – A falha que hoje ainda sinto portar em meu espírito é a mesma que, em medidas maiores, comprometeu-me a tábula indestrutível e de caracteres indeléveis da consciência, que viu, nela inscritas, faltas que até hoje trabalho por compensar. Sou mãe, fui mãe inúmeras vezes, quando reencarnada, e repeti a relação de maternidade com alguns espíritos em particular, de um modo que me jungi, mais especialmente, pelo coração, a estas criaturas, que têm, assim, minha preferência afetiva. Esta predileção, portanto, faz-me sentir extremamente devedora e limitada ante a Bondade de Nossos Maiores, que já lograram granjear, plenamente, o sentido de incondicionalidade do amor universal. São duas conquistas a serem angariadas, em grande medida: o amor universal, e, depois, a incondicionalidade deste amor. Graças à Misericórdia e Paciência infinitas de Deus, pude, no correr dos séculos, arquivar e acrisolar o sentimento de amor por toda a humanidade, de um modo que posso dizer até maternal, pelo que me foi conferida a responsabilidade de conduzir multidões, por intermédio da orientação espiritual. Todavia, dentro deste sentimento de amor maternal por todos, tenho aqueles que gozam de privilégios, no primitivo campo de minha alma revel, pelo fato de terem sido partícipes, por mais séculos, de relações de filiação comigo.

(Benjamin) – A maternidade é considerada o pináculo do sentimento humano, Eugênia, mesmo que seja direcionado a uma ou duas criaturas. Você já sente este ápice de sublimidade por todos, e ainda julga uma limitação vergonhosa o perceber algumas preferências?

(Eugênia) – Compreendo a estupefação que esta minha confidência pode gerar, mas devo reconhecer que, quando temos contato com almas verdadeiramente angelicais, que de todo expurgaram de si as nódoas das preferências, relatividades e inclinações pessoais do universo dos sentimentos, sofremos a angústia de nos sentir pouco dignos de com eles conviver.

(Benjamin) – Maria de Nazaré…

(Eugênia) – Muitos outros espíritos de escol, abaixo d´Ela, residentes nas próprias faixas espirituais de nosso globo, ostentam esta conquista rutilante da alma.

(Benjamin) – Imagino que raríssimos.

(Eugênia) – São anjos.

(Benjamin) – E por que se cobra isso, Eugênia?

(Eugênia) – Pela minha idade espiritual. Sou espírito velho o bastante para já poder manifestar, em meus arcabouços psíquicos, esta peculiaridade devida a todas as criaturas, no tempo evolucional necessário a cada qual.

(Benjamin) – Deseja algo mais falar sobre o tópico?

(Eugênia) – Não, fiz minha confidência, uma confissão pública, ao molde das antigas Igrejas do Cristianismo Primitivo, a fim de que seja julgada e perdoada por meus irmãos em ideal. Queria tornar declarada minha humanidade. Porque há os que me vêem como o anjo que não sou.

(Benjamin) – Mas sua sabedoria é ímpar, digna de um anjo-gênio.

(Eugênia) – Sabedoria devida ao tempo que tenho de existência nas faixas humanas de consciência, sem nenhum mérito especial para meu espírito.

(Benjamin) – Mas mesmo em termos de luz… de sentimentos… você é mais do que um anjo para nós, querida Eugênia.

(Eugênia) – Agradecida pela deferência, que entendo como um estímulo a que me torne uma pessoa melhor. Entretanto, gostaria de lembrar que existe uma tendência, em meios religiosos, incluindo o espírita, a se idolatrarem figuras célebres de exemplificação cristã. A rigor, nem mesmo Jesus ou Maria poderiam ser objeto de nossa veneração, mas apenas Deus. Todavia, para quem precise de uma Imagem Divina, conforme suas idiossincrasias psicológicas, preferindo uma figura de Pai ou de Mãe, escolha-se o vulto de Jesus ou de Maria, respectivamente.

(Benjamin) – Creio, porém, Eugênia, que aconteça o inverso também, com freqüência. Por julgarmos que só Deus nos merece adoração, no que estamos certos, esquecemos o respeito e a consideração pelas conquistas evolutivas de irmãos mais velhos espiritualmente, com prejuízo para nós mesmos, não é verdade? Tem gente que se sente igual a qualquer criatura na Terra…

(Eugênia) – Sim, é verdade. Muitos desperdiçam grandiosas oportunidades de crescimento, por conta da presunção que os enceguece, impedindo-os de reconhecerem o avanço dos outros. Mas o respeito da criatura por uma outra, mais amadurecida, deve estar vinculado ao sentido de reverência ao mestre, e não de idolatria ao avatar (*3).

(Benjamin) – Adorável Eugênia, quando recebi, de Gustavo Henrique, a narração da “Princesa”, estava, na primeira semana de psicografia (abril de 1994), com 23 anos, e, nas três semanas finais de trabalho mediúnico (abril de 1995), com 24 anos. Àquela altura, já a tinha visto, muito esporadicamente, desde 1988; contudo, somente a partir 1991, começaria a trabalhar tecnicamente, todas as semanas, com as faculdades medianímicas. Logo, não era, nem de longe, o médium treinado que sou hoje. Imagino, ante estas considerações, que haja muitas falhas de filtragem no texto de que agora celebramos doze anos de publicação. Gostaria de ter uma confirmação sua, nesse sentido, e saber se alguma destas distorções involuntárias de conteúdo merece ser destacada, para que se faça revisão adequada dos dados ou dos conceitos lá expendidos.

(Eugênia) – Sim, há falhas, como, de resto, em toda comunicação mediúnica. Mas não no que se poderia supor haver mais. Por exemplo, certas linhas de ocorrência receberam uma condução mais romanceada, para se imprimir uma versão mais agradável ao público contemporâneo, não se tratando, propriamente, portanto, de falhas de filtragem mediúnica. Todavia, sem dúvida, alguns dados ou colocações apareceram, no resultado final, de modo um tanto diferente do que o autor e Nossos Maiores desejavam, originalmente, fosse transmitido ao plano físico. A despeito desta revelação, entrementes, as linhas gerais do texto preservaram o foco essencial, de forma que nem sequer consideramos apropriado apontar um desses pontos em que houve interferência indevida da mente mediúnica. Cabe ao bom senso de cada leitor extrair o que há de útil na mensagem, para si, como, inclusive, deve-se fazer, ao se travar contato com qualquer fonte de informação, seja proveniente do domínio físico ou extrafísico de existência.

(Benjamin) – Não sei se é apropriado perguntar isso – visto que o tema deste diálogo é a obra que trata de sua reencarnação no início do século XV –, mas você corrobora ter sido Bernadette Soubirous?

(Eugênia) – Sim.

(Benjamin) – Às vezes, em termos de personalidade, vejo-a tão diferente dela, que senti cabível a indagação… Perdoe-me, assim, a dúvida.

(Eugênia) – Fui programada, geneticamente, pelo cérebro físico que utilizei, nesta última romagem carnal, a trabalhar, tão-somente, o campo dos meus sentimentos, já que não seria conveniente, à missão que deveria cumprir naquele período, fossem manifestados livremente meus antigos dotes de lucidez intelectual. Servir santamente Minha e Nossa Mãe, numa vida de total sacrifício e renúncia ao eu, foi-me, inclusive, de extrema valia para a depuração espiritual. Saí muito melhor do que entrei, naquela rápida encarnação de 36 anos, além de honrada pelo serviço de canalizar a Mãe Sacrossanta para o mundo.

(Benjamin) – É muito constrangedor, para você, responder-me por que foi escolhida para esse ministério grandioso?

(Eugênia) – Em considerando a qualificação “ministério grandioso”, de que fez uso, não vejo diferença substancial entre falar em nome da Mãe Santa e canalizar o Amor Divino, em gestos excelsos como parir, educar e conduzir almas para Deus, através da maternidade. Há uma diferença, tão-somente, de grau e não de espécie. E, amiúde, mães anônimas podem ter mais mérito diante de Deus, pelos esforços morais que fizeram, tendo em vista o nível evolutivo que apresentavam e as circunstâncias existenciais em que estavam inseridas, do que almas tidas como santas, que voltaram ao plano físico apenas para cumprir um mandato de trabalho que receberam antes de reencarnar.

(Benjamin) – Desculpe-me a insistência, e não me responda, se for impertinência de minha parte. Mas por que foi escolhida para este “mandato de trabalho”, como disse?

(Eugênia) – Carma com a multidão e amor maternal pelas criaturas.

(Benjamin) – Amor maternal por todos…

(Eugênia) – Com enormes limitações nesse sentido, como apontei. Mas, sim, era necessário um amor materno universal, para que pudesse canalizar o Coração Excelso de Nossa Mãe Maior, que ama a todos como se cada um fosse seu único filho…

(Benjamin) – Impressionante…

(Eugênia) – Evolução, meu filho… evolução! Todos um dia chegaremos lá… mas, conforme a ladainha da liturgia católica, após muitos “séculos de séculos”…

(Benjamin) – Poderia nos dizer quais foram os equívocos em que se sentiu incorrer, na condição de rainha-mãe, no Egito Antigo?

(Eugênia) – Sim, fui por demais ciosa de meus valores e princípios, bem como de minha casta. Eram tempos realmente difíceis, e a multidão ignorante e primitiva, com que tínhamos que conviver, constituía desafio forte demais ao coração, de modo que me retraí, como a esmagadora maioria de meus pares, no nosso círculo de superioridade psicológica e cultural – digamos assim. Éramos capelinos muito civilizados (*4), reencarnados em meio a espíritos mal-saídos das experiências pré-hominídeas, quase como se fôssemos cidadãos do mundo moderno coagidos a co-existir com primatas das savanas africanas. Mal falavam, não concebiam quaisquer laivos de abstração, nem possuíam a menor sensibilidade. Sei que não posso me cobrar ter agido de outra forma, à época, mesmo porque, de fato, ajudei meu filho governante (por isso, digo-me ter sido “rainha-mãe”, já que não detinha poder constituído nas mãos propriamente) a cometer menos erros, nos desmandos do domínio autocrático. Contudo, creio que poderia ter sido mais compassiva do que fui…

(Benjamin) – E foi, na época da Princesa?

(Eugênia) – Sim.

(Benjamin) – Ficou satisfeita com seu nível de sacrifício pessoal por lá?

(Eugênia) – Sim, mas fiquei ainda mais satisfeita com meu trabalho como Bernadette Soubirous.

(Benjamin) – Sem dúvida… transcendente…

(Eugênia) – Apenas o devido, meu filho. Quem segue a própria consciência, nada mais faz que cumprir um dever.

(Benjamin) – Você realmente não poderia ter reencarnado de novo agora, Eugênia. Esta humanidade não poderia compreendê-la. De minha parte, não suportaria vê-la, mais uma vez, pisoteada pela mesma multidão ignara, aqui por baixo…

(Eugênia) – Perdi o merecimento e concessão especiais da Divina Providência de servir aos meus inúmeros filhinhos na Terra, justamente porque eles não são tão mais “ignaros” como disse.

(Benjamin) – Pois eu acho que ainda sejam – você é muito generosa com todos nós. Por isso, porque esteja tão acima do que podemos compreender, é bom que me tenham, em vez de você.

(Eugênia) – Da minha perspectiva, acredito que estejam em boas mãos…

(Benjamin) – Falou a mãe tendenciosa (rs). Agora vejo, e deixou claro para todo mundo, realmente, que isso é um problema em você (rs).

(Eugênia) – (Risos) Salve! Que bom que concordamos em algum tópico! (risos)

(Benjamin) – Eugênia, você acabou de revelar, publicamente, ter sido uma capelina. Nunca tive oportunidade de lhe perguntar, quando me disse isso, pela primeira vez, há quase quinze anos, e vou acabar recebendo sua resposta juntamente à multidão. Apesar de o expurgo de Capela ter acontecido há alguns milhares de anos, temos ciência de que os que vieram de lá para a Terra eram, basicamente, criminosos que não estavam mais em condições de acompanhar o nível evolutivo do planeta que possui afinidades físicas com o nosso orbe, que compõe a Constelação do Cocheiro. Sabemos também que, pela distância, em várias dezenas de séculos, deste exílio em massa, os maiores criminosos deste grupo já se sublimaram quase todos, alcançando louváveis culminâncias de luz espiritual, muitos tendo voltado ao seu mundo de origem, outros tendo ficado na Terra, em missão grandiosa na condução dos povos para Deus. Você, claro, é um destes líderes espirituais de nossa população terrícola. Mas tenho curiosidade de saber, se não for indiscrição excessiva, se você veio para cá como um espírito envolvido nas malhas do crime (estranhíssimo e quase engraçado imaginar isso em você, tão santa… que incrível…). E se a resposta for afirmativa, qual teria sido a natureza de seu erro; e, se negativa, por que veio parar em nosso globo.

(Eugênia) – Nada vejo de impróprio em considerar a hipótese de haver sido criminosa. Embora nem toda entidade deva passar pelos corredores escuros da demência moral, todas provêm da sopa protéica primordial que faz a tênue fronteira entre o inorgânico e o orgânico. Embora se possa dizer, num sentido filosófico amplo, que todos tenhamos incorrido em crimes – como o de roubar o tempo alheio; assassinar, aos poucos, a saúde de entes queridos, com as contrariedades que lhes provocamos; seqüestrar a paz dos outros, em algum instante de nosso carreiro evolucional –, tive a felicidade de me não haver envolvido, em nenhum tempo, com atos tidos, pela cultura hodierna, como criminosos, quais sejam, por exemplo: o furto, o homicídio, o suicídio, nem mesmo o adultério. Não vejo esta particularidade a respeito de minha jornada espiritual como mérito à minha pessoa, mas apenas uma feliz escolha por ouvir mais a consciência, em vez da voz do desejo pessoal, desde os tempos de meu primitivismo egóico. Revelo-o de público, ferindo meus escrúpulos morais, a pedido de Nossos Maiores, para que, neste tempo de relativismo excessivo, em que uma minoria degenerada quer fazer crer que todos seriam bandidos e que não passariam de hipócritas os que não demonstrassem sê-lo, fique claro que é possível ser decente e digno em quaisquer circunstâncias, por mais difíceis, e que só se tem a ganhar com isso, espiritualmente, a começar pela própria consciência em paz.

Quanto à sua interrogação, com respeito à minha vinda de Capela, ocorreu motivada pelo mesmo problema que até hoje me prende ao plano humano de consciência: apego excessivo a meus rebentos do coração. Dois de meus filhos foram deportados de Capela. Pedi, então, autorização para acompanhá-los. Um se encontra em excelentes condições espirituais, no meu entender. Outro, entrementes, padece ainda de graves necessidades morais, e quase foi incurso na possibilidade de ser mais uma vez expurgado, para outro mundo, ainda mais primitivo que a Terra, como está para acontecer… como já está, gradativamente, acontecendo, nos dias que correm…

(Benjamin) – Wow! (uau!) Coitado! Depois de tantos milênios, de novo ser expulso de um planeta…

(Eugênia) – Mas esta possibilidade já está descartada, graças a Deus.

(Benjamin) – É que não julgava isso possível… dupla deportação planetária(!) – creio que seja novidade para muitos também –, e com um espaço de milênios, no interlúdio das duas, que poderia ter sido, sobejamente, aproveitado para a melhoria íntima…

(Eugênia) – Compreendo seu pasmo. Porém, meu filho, subjaz sempre, para todas as criaturas, o livre-arbítrio que Deus nos outorgou, com atribuição de inviolabilidade, a fim de que estejamos no universo de sentimentos, conceitos e ocorrências que nos aprazam.

(Benjamin) – Quanto sofrimento isso lhe deve ter provocado, século sobre século, querida Eugênia!…

(Eugênia) – Sim. Foi uma grande graça de Deus ter-me concedido este filho revel, que, até hoje, muito me ajuda a aprimorar meus sentimentos, em direção ao Coração Divino.

(Benjamin) – Lindo!…

(Eugênia) – Correto.

(Benjamin) – Ele está reencarnado?

(Eugênia) – Não, desencarnado, como sabe. Já teve contato com ele.

(Benjamin) – É verdade. Mas é que soube que ele estava para reencarnar, não foi isso mesmo?

(Eugênia) – Sim, mas isso ainda não aconteceu.

(Benjamin) – É o filho que você mais ama, Eugênia?

(Eugênia) – É o que mais necessita de mim.

(Benjamin) – O que mais lhe recebe atenção e amor, portanto.

(Eugênia) – Não, porque ainda não está sintonizado com essa necessidade. Não podemos, a título de amor, por mais puro e desinteressado que seja, invadir o espaço da liberdade alheia, como disse acima. Muito comum que mães (e pais, é claro) percam esse critério de respeito à individualidade dos próprios filhos, no direito, inclusive, de errarem por conta própria, para que conquistem, igualmente, sua grandeza espiritual por mérito pessoal. Quando desci, de Capela, era vinculada aos dois, de um modo que não saberia distinguir qual me causava mais arroubos de afeto. Um deles, todavia, de tal forma se apartou da minha esfera emocional e moral, que só posso, à distância, orar por ele, e, volta e meia, interceder por sua pessoa, favorecendo-lhe situações que lhe propiciem catálise evolutiva. Meu coração, atualmente, é mais vinculado ao outro, e isso já vem acontecendo, de fato, há muitos séculos, por esforço deste último, que, por sinal, me tem servido, sobejamente, às tarefas que desdobro pelo bem da multidão. Somos hoje mais colegas de trabalho que mãe e filho…

(Benjamin) – Impossível.

(Eugênia) – É a minha visão pessoal.

(Benjamin) – Eugênia, satisfaça uma curiosidade que creio geral: por que, tendo tido tão luminosas e impressionantes reencarnações – como a gloriosa rainha do Egito Antigo, a pura e santa figura de “A Princesa do Mediterrâneo”, a transcendente, mística e angelical Bernadette Soubirous –, foi você escolher, para se manifestar no plano extrafísico de vida, a aparência e indumentária de Aspásia de Mileto, a controversa hetera, que criava reboliço e escândalo, por muitos mal-vista em seu tempo?

(Eugênia) – Porque, meu filho, nenhuma encarnação foi tão importante para meu espírito, em termos de plena ativação de minhas potencialidades, como a em que me corporifiquei, no plano material de vida, na condição daquela que viria a ser esposa de Péricles. Sendo uma das entidades responsáveis pelo encaminhamento daquele povo aos círculos de luz da responsabilidade de criar as matrizes e paradigmas basilares de ordem filosófica (e, em certa medida, até moral e espiritual) para a humanidade inteira, tive que nascer no seio de outra sociedade (cidade de Mileto) e ser tratada, por meus próprios protegidos (em Athenas), como uma forasteira mal-vinda. Tive que quebrar preconceitos seculares e me apresentar quase como uma cortesã de luxo. Para estudar e, principalmente, ensinar, precisei criar polêmica, em torno de meu nome, sem, contudo, descoroçoar no intento, que acabei por realizar, de fundar uma escola, na ilustre e inesquecível pólis grega. Por conta disso e conforme determinação de Nossas Autoridades Espirituais, influenciei toda uma geração de pensadores e estadistas, e, destarte, dei o andamento que planejávamos para o progresso daquele povo admirável (disse “planejávamos”, porque faço alusão não só à minha pessoa, como aos demais componentes do Conselho Regente de Athenas, por aqueles dias, do plano espiritual – hoje, me dedico a outras tarefas). Por fim, nada mais apropriado à missão de esclarecer consciências para Deus, que nos cabe enquanto grupo espiritual, até a presente data, provocando as mesmas polêmicas ainda hoje, que envergar aquela toga de mestra grega, que sinto, por assim dizer, como uma “segunda pele”.

(Benjamin) – Mais algo deseja revelar, querida Eugênia, sobre suas passadas existências?

(Eugênia) – Não, satisfeita. Podemos encerrar nosso diálogo.

(Diálogo psíquico travado com o médium Benjamin Teixeira, em 25 de maio de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*1) Eugênia altera para o plural o uso da primeira pessoa propositalmente, indicando que não tomou a decisão sozinha, mas assistida pelo Conselho de anciães sábios que ela representa para nós.

(*2) Quem tiver a curiosidade de ler o relato impressionante de Gustavo Henrique a respeito desta reencarnação de Eugênia, procure o artigo “Quatro Mil e Quinhentos Anos Depois…”, publicado neste site, em 02/01/2007.

(*3) No hinduísmo, figura divina encarnada em forma humana. O próprio catolicismo, como se sabe, propõe esse conceito como dogma, mas exclusivamente atreito à personalidade de Jesus.

(*4) O livro “A Caminho da Luz”, psicografia de Chico Xavier, autoria de Emmanuel, alude a uma legião de espíritos que, há alguns milhares de anos, foi degredada à Terra, oriunda de um planeta com fortes afinidades físicas com o nosso orbe. À época, o tal planeta da constelação de Capela estava atravessando o clímax de uma transição de era civilizacional, semelhante ao que ora vivenciamos em nosso globo. Os que não estavam mais em consonância com o nível evolutivo médio daquela humanidade tiveram que ser exilados em um mundo primitivo (o nosso, naquele tempo), a fim de que não perturbassem a ordem e progresso reinantes, e, por meio da lancinante dor de se verem obrigados a coexistir com seres mal-adentrados na condição humana, assim como apartados de todas as benesses de uma civilização avançada, depurassem-se de seus vícios morais, para que pudessem, caso desejassem, retornar ao seu mundo de origem. Constituiu tal expediente, assim, uma espécie de internação numa UTI evolutiva, para que aquelas almas rebeldes se compensassem pelo tempo perdido, e pudessem reingressar no lar planetário d’onde vieram. Muito mais adiantados que o padrão médio dos seres humanos nativos da Terra, onde estiveram reencarnados, deixaram marcas impressionantes de sua grandeza, como foi o caso dos que compuseram a elite do Egito Antigo. Alguns desses espíritos, entretanto, acabaram por criar laços de afeto e compromisso com nossa humanidade de cá, terminando por se transferirem, definitivamente, para nossa família planetária. Eugênia, pertenceria a esta minoria de almas redimidas, que se decidiram por renunciar ao paraíso, para auxiliar na aceleração evolutiva de nosso mundinho, favorecendo a chegada de nossa plena felicidade coletiva.

(Notas do Médium)