Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Não lhe perceberam a expressão macerada de esgotamento, oculta por detrás da máscara de sorriso, que havia posto no próprio rosto, a fim de não ferir ninguém e poder dar continuidade a seu serviço de amor e de sabedoria. Não lhe perceberam a visão longa, a enxergar o que não lhes podia revelar abertamente. Mas, mesmo assim, julgaram-no e apedrejaram-no, no primeiro instante em que não compreenderam seu comportamento, sem, também, perguntar-lhe antes o que estava motivando sua conduta provisoriamente severa. Esqueceram que é você o professor treinado que nota sutilezas fora do seu alcance. Mas, como discípulos presunçosos, condenaram-no, sem consultá-lo do móvel invisível de suas atitudes mais duras, apesar de você lhes ter ofertado algumas pistas sutis, que não se atinaram em notar. Querem-no uma ama-seca, que lhes passe a mão na cabeça, a todo tempo, e quando age como um pai consciencioso e disciplinador, assustam-se, correndo espavoridos, albergando-se na cidadela perigosa do capricho ferido.

Tem somente palavras de estímulo para todos; agradece, quando presta serviços, para não ferir orgulho dos beneficiados; pede desculpas até quando não cometeu erros, para se mostrar sempre pronto a aprender e fomentar o mesmo em seus alunos; coloca-se como errado quando mais acerta, para que consigam se sentir iguais seus e o ouçam melhor e, no momento em que agiu como o mestre disciplinador, chocam-se, demagógicos em sua pseudo-bonomia, na verdade ocultando o desejo inconsciente de controlá-lo e tê-lo conforme seu modo de ser – infantil. Ofereceu, generoso, uma proximidade maior do fulcro de inspiração que lhe caracteriza o trabalho, e eles o trataram como um demente vulgar, porque você não se encaixou em seus esquemas de verdade. Estavam toldados por uma nuvem escura de obsessão, que deles se apoderou para constrangê-lo publicamente, e, ironicamente, viram você próprio como um obsediado. Uma tolice, que revelou uma grande distonia de propósitos. Abriu seu coração, e encontrou egos. Deu-se, e viu a ingratidão assediar-lhe os passos.

Sendo assim… deixe passar. O tempo lhes mostrará onde erraram. Não adianta falar-lhes de pronto sobre o assunto, já que nem sequer se lembraram, na ocasião, de que você poderia estar vendo o que eles não podiam, porque, inclusive, sentir-se-ão vítimas, seduzidos pelo próprio orgulho, que lhes subverte a ordem dos valores.

Você foi generoso, e eles não perceberam que recebiam: supunham que se tratava de obrigação sua, quando constituía um gesto de liberalidade de sua parte, aprovado pelos mentores espirituais. Agora, todavia, devem aguardar momento melhor de oportunidade, quando tiverem amadurecido o suficiente para entender que, na vida, os ensejos de aprender passam, e, se não devidamente aproveitados, dificilmente retornam numa mesma encarnação. Foram avisados disso e não se deram conta de que estavam incurso no erro lamentável de foco.

Isso, meu filho, em resumo, é resultado da vaidade humana, a vã vaidade que faz os beneficiados se julgarem beneméritos e que faz alunos se considerarem mestres antes da hora. Não é de surpreender: é a Terra. Destarte, releve e siga. Crianças espirituais cercam os passos dos embaixadores do bem, por toda parte. Imaturos, vêem-se como donos do mundo, sem antes averiguarem se são donos de si mesmos.

Se está num nível de maturidade acima da média, é natural que dissensões ocorram, volta e meia, entre você e aqueles com quem convive – mas não podem compreendê-lo de todo – e, principalmente, que uma parte dos imaturos, justamente por sua ignorância, não dimensionem quão despreparados ainda são para os grandes ministérios da vida, como o de conduzir almas, povos e corações.

Um dia, havê-lo-ão compreendido, bem mais tarde. Por ora, precisam de condutores que representem ares de importância, que não sejam acessíveis e que não se mostrem amigos, descendo ao nível dos aprendizes. Néscios, não notam que você é um mestre mais amadurecido, que não se coloca num pedestal. Todavia, como preferiram o caminho mais duro e mais longo, tê-lo-ão, porque a Vida, generosa, não nega ensejos de aprendizado, ainda os mais amargos, para os que lhos pedirem.

(Texto recebido em 17 de maio de 2004.)