Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Era uma vez uma jovem que nascera sem pernas. Linda, inteligentíssima, mas sem pernas.

Tinha pouco mais de 20 anos quando encontrou o homem de sua vida. Louro como ela, só que robusto e alto, com porte atlético e ágil. Lorena estava devidamente acomodada em sua carruagem refinada. Só que não era a senhora, e sim a acompanhante. O garbo João não percebera isso e sua senhora, mulher muito bondosa, permitiu que ele assim permanecesse iludido, estimulando-lhe a fantasia, a contragosto de Lorena.

– É sua avó, bela senhorita?
– Sim – adiantou-se Rosina, a duquesa que tomara Lorena para criar, desde que sua mãe, uma camareira muito querida, morrera em seu parto.
– Vai para o castelo?
– Sim – respondeu a jovem, timidamente.
– Quem sabe um dia não a desposarei.
– Creio que não desejaria isso, senhor…
– Como é modesta! Tão linda, tão rica…
– Será que amaria pelo que sou?
– Soube que é grande poetisa, mas que guardava grande segredo.
– Quem lhe disse isso?
– O dono da estalagem. Ele tinha duas cópias de suas poesias. Apaixonei-me, então, por sua alma, retratada em seus textos e sabendo que cruzaria esse caminho no dia de hoje, por essa hora, postei-me aqui para cortejá-la.
– Tem certeza do que diz? – Lorena cintilava os olhos azuis gigantes, entre belíssimos e longos cílios escuros. Não conseguia acreditar na idéia de que o rapaz se apaixonara por ela de verdade.
– Há muito vinha procurando pelo meu grande amor, e uma bruxa me disse que teria que ser submetido a um grande teste, a fim de ao seu lado ser feliz, uma grande tentação para não querê-la, e vejo que a bruxa realmente errou redondamente. Estou completamente escravo de seus encantos. Não a imaginava tão bela!…
– Uma bruxa?
– Uma cigana ou qualquer coisa assim…
– Não sou tão bela assim… E se fosse feia e pobre? Você ainda assim me quereria?
– Claro, minha alma gêmea encantada!
– Tem disso a mais absoluta certeza?
– Sim, meu grande amor. Mas por que isso importaria agora? Você é linda e rica! Quis apenas conhecer a poetisa misteriosa do castelo, que, segundo o estalajadeiro, guardava enigmático segredo… que percebo agora é apenas o coração nobre e humilde que guarda por detrás de tão faustosa condição social…
– O estalajadeiro foi gentil. Moro no castelo, mas não sou sua senhora. Serviria grata por cem anos aos meus amos gentis, se pudesse, mas vivo por lá de caridade, pela deficiência congênita que porto…

E Lorena, com olhos melancólicos, abriu a porta da carruagem, levantando o vestido a ponto de ficar óbvio, para o rapaz falastrão, não ter ela membros inferiores.

João, perdendo a expressão feliz, ficou com olhos vítreos e a boca entreaberta, em estado de choque, fitando o vazio onde deveria haver pernas lindas, como aqueles olhos encantadores. Olhou, então, em seguida, para a carruagem, que “deveria” ser dela, e não da senhora idosa e obesa que tinha ao seu lado, e partiu entristecido, sem dizer palavra…

Nunca mais naquela vida se reencontrariam. Lorena morreu de tristeza poucos anos depois. E quanto a João, casou-se com uma camponesa bonita, tendo com ela muitos filhos, até morrer de cirrose hepática, antes de completar 50 anos.

João e Lorena se encontrariam de novo, em encarnação seguinte. Eram de fato almas gêmeas, mas João deveria superar a barreira de primitivismo psicológico que o impedia de se aproximar de Lorena apenas por amor. Por diversas existências haviam estado juntos, mas João sempre tudo estragava, com seu temperamento impetuoso e caprichoso.

Estão hoje encarnados. E Lorena, desta vez, pôde nascer linda novamente… e com pernas. Diferentemente da encarnação precedente, nasceu na alta sociedade. E João, na pobreza, mais uma vez. Um problema ainda surgiu, todavia, como provação para ambos, como desafio à sua evolução: Lorena nasceu no mesmo sexo de João. Lorena, embora doce e feminina como sempre, hoje enverga corpo masculino e não foi reconhecida por João, apesar da circunstância bem favorável a que se aproximassem, quando agora se conheceram… João afastou-se daquele rapaz “efeminado” com repugnância, e não quis nem mesmo tecer com ele uma amizade… com a alma gêmea de sua alma, alma à sua enlaçada há séculos de séculos… Ignorou os avisos de seu coração, que o deixava amargurado, sempre que se afastava do rapaz amistoso, e hoje vive sua miséria de alma plenamente, mais uma vez, e cada vez mais fundo, vida após vida…

Pobre João. Além da desgraça da alma, está em péssimas condições financeiras. Não tem o tipo atlético de antes. Muito pelo contrário: é hoje frágil e enfermiço e com aspecto francamente desagradável para os padrões estéticos dominantes.

Lorena superou sua preocupação com encontrar o príncipe encantado, que, por tantas vidas sucessivas, desencantou-a para tudo. Agora, é serva do Cristo e labora em atividade evangélica com todo ardor d’alma, além de desenvolver brilhante carreira como advogado. Não se casou mas vive feliz…. muito feliz… com sua profissão, seu ideal religioso e com um parceiro afetivo que divide a vida e alma com seu coração sereno e equilibrado.

* * * * *

Almas gêmeas se encontram e se desencontram, séculos sobre séculos. Almas gêmeas costumam ter desgraças gêmeas. Algumas, porém, quando transcendem o padrão grosseiro do egoísmo animal, seguem adiante, e se fazem independentes do ente gemelar de seus espíritos, seguindo à sua frente, como farol de inspiração para o pobre par que fica para trás, órfão de seu amor e de tudo mais.

Não espere encontrar o gêmeo de seu coração. Seja você o ideal de si próprio, bem como de todos quantos se aproximarem de seu caminho. Jamais cobre que sejam o que supõe ideal, nem sequer espere que apareça assim alguém. A libertação é o ser: seja você mesmo, plenamente, e o resto virá por conseqüência, inclusive fantásticas parcerias de destino…

(Texto recebido em 4 de novembro de 2002.)