Anjo Guia

Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo
 Espírito Eugênia-Aspásia.

Gilberto chegou em casa e partiu direto para o quarto, sem render conversa com a mãe, que, notou, estava à espreita de sua vinda.

A Mentora espiritual daquele lar surgiu, no centro da sala, ao exato instante em que a matriarca do pequeno grupo levantou-se do assento em que se confinara, no intuito de interceptar o caçula para “puxar” uma discussão. Irradiando poderosa luz branca, a Benfeitora do plano Sublime de Vida representava a força do amor das mães, pais e tutores em geral, pelos laços do Espírito, que, há muitos séculos, tudo fazem por seus entes amados, inclusive por aqueles que não honram com a dignidade do ministério sagrado da maternidade-paternidade, que lhes foi confiado pela Divina Providência.

Nildete, ainda intoxicada pelas insuflações da dama sombria que lhe incentivava os sentimentos de autocomiseração, aguardava, angustiada, pela chegada do filho. A Senhora-luz acorreu a envolvê-la e, chispando jatos de força renovadora para seus plexos energéticos do raciocínio mais elaborado (no neocórtex cerebral), promoveu um abalo psíquico involuntário na acompanhante invisível da encarnada. Ato contínuo, a obsessora foi precipitada para o canto da sala, como se houvera levado uma descarga elétrica violenta, que a “arrancasse” do solo, enquanto a esposa de Luís permanecia estática, após breve calafrio, tomada de outro diapasão mental, repentinamente. Sem atinar para os motivos elevadíssimos que a compeliam ao súbito estado de melhora, sentiu lágrimas começando a rolar sobre as faces abatidas, pela longa e amargurada espera à meia-luz, madrugada adentro.

O “anjo de guarda” da família, agora cintilando diversas cores de seu campo áurico, tratava a pobre genitora dos dois rapazes como se fora uma criança sofrida e, com as mãos afagando sua expressão de “bruxa”, passou a esclarecê-la, sem que fosse vista ou ouvida diretamente pela pupila. Esta, por sua vez, embora não dotada de sensibilidade mediúnica ostensiva e distanciada dos hábitos de vigilância e autocrítica, captava-lhe as sugestões pelo sem-fio do pensamento, como se um fluxo inesperado de enternecimento pelo filho lhe houvesse atingido o peito:

– Nildete, tão querida filha… Medite melhor no que pretende fazer. Se não fosse um filho, e sim uma filha de seu coração, a adentrar o reduto doméstico colocado sob sua supervisão, persegui-la-ia da forma que o faz a seu rebento, apenas por ser sensível e delicado? O que há de errado em seu caçula portar um organismo de carne que difere, nos sinais anatomofisiológicos, da psicologia feminil que lhe caracteriza o modo de ser, assim talhado no correr de tantas reencarnações? Não lhe percebe a nobreza de sentimentos e a distinção de caráter? Esquece-se de que ele-ela já lhe foi extremosa mãe n’outras existências, e de que você muito lhe deve?…

A senhora de meia-idade, ainda paralisada, de pé, à penumbra da sala, dominada por vigorosa emoção, deixou-se arriar em poltrona próxima, vencida por incoercível enxurrada de sentimentos de amor por seu filho mais novo, qual se fosse ele um anjo, a quem queria bem enormemente, e por quem se sentia em dívida de amor, cuidados e atenção.

“Oh, Céus!?” – lançou-se em solilóquio tormentoso – “Onde teria ela errado, para que seu bebê chegasse àquela situação?” Era como lhe repercutiam, intimamente, as excelsas reflexões propostas pelo ser nobilíssimo que a socorria. Cibele, espírito ligado àquele grupo há séculos infindos, emanando mais intensa luz na direção do chacra cardíaco da protegida encapsulada no vaso de matéria densa, tornou então a orientá-la, mentalmente:

– Não, Nildete! Não se trata de erro de educação! Pense bem. Não importam as inclinações sexuais de uma pessoa, mas sim seu caráter, seus propósitos de vida, suas atitudes no dia a dia… – e, depois de breve pausa, prosseguiu, com especial entonação, insuflando-lhe forte alvitre amoroso – Prezada irmã, siga até o quarto de seu pimpolho e observe-o, observe-o com amor, para que tire suas próprias conclusões…

Sob irresistível comando hipnótico – dada a ascendência moral da grande vestal do domínio extrafísico que a inspirava e à família inteira –, a mãe sensibilizada foi até o quarto do jovem que acabara de cruzar a sala e descobriu que a porta ficara entreaberta. Gilberto, ainda com as roupas e calçados que lhe trouxeram da via pública, lançara-se sobre a cama, cruzando-a obliquamente, o que lhe revelava o estado de dor íntima aguda, a ponto de lhe bloquear qualquer preocupação com a realidade externa. Chorava baixinho, sem se perceber observado, no lusco-fusco ambiente. Nildete sentiu um aperto no coração… e o Guia espiritual, aproveitando o ensejo, soprou-lhe:

– Veja, tão estimada irmã… Não se apieda de seu filho? O mundo está contra os ideais do coração de rapaz tão moço e afetuoso!… Tem o coração esfacelado por preconceitos incompreensíveis, e não merecerá sequer o amparo do ombro de mãe?…

Sem mais sopitar a comoção que lhe ia n’alma, Nildete sussurrou, aumentando aos poucos o volume da voz, para não sobressaltar o interlocutor:

– Gilberto… Gilberto… Perdoe-me, meu filho… perdoe-me… Sou uma mulher mesquinha e perversa… Perdoe-me!…

– Mãe? Você está aí?

– Desculpe, não pude evitar… Estava preocupada com você…

A mãe biológica do adolescente recém-introduzido na maioridade permanecia à porta, constrangida em invadir o espaço do menino-moço, engolfada nos sentimentos de alta envergadura da Orientadora espiritual, que continuava a influenciá-la, conquanto as palavras e muitas das conclusões articuladas fossem dela mesma e não da condutora despojada de corpo físico.

– Não tem de que se desculpar, mãe. Já a conheço. Está tudo bem.

O “já a conheço” trazia um acento de mágoa, apesar da facilidade do jovem para perdoar, sempre aberto à conciliação imediata, e a tal expressão causou um incômodo moral na mãe consanguínea.

– Meu filho, me perdoe, peço-lhe novamente. Sei que conhece esse meu jeito antipático de ser… Às vezes, não consigo sequer ouvir minha voz, repetitiva e torturante, antes para meus próprios ouvidos que para outras pessoas por perto…

– Mãe, pare com isso! – interrompeu Gilberto, ajeitando-se na cama, agora sentado, tentando ocultar que chorara. – Já lhe disse: está tudo bem. Pode ir dormir. Está tarde. O dia vai raiar a qualquer momento…

– Não gostaria de começar um ano novo dessa forma… – e prorrompeu em soluços.

– Por que você chora assim, mãe?

– Não sei o que aconteceu… Estava tão aborrecida!… Mas, quando você entrou… vi apenas meu bebê, meu bebê que cresceu… e que precisa de mim…

– Não, mãe. Não sou mais um bebê. Fique em paz. E não vou fazer nada para magoá-la… – tentou desconversar, na intenção de tranquilizar a genitora, moído de sincera piedade, contemporizando o que declarara antes de sair de casa, sobre “rapazes”.

– Meu filho – disse, voz embargada –, quero que você seja feliz… Temo pelo seu destino… Você é tão sensível… e esse mundo “cão” é muito cruel…

– Mas nós temos os entes queridos, para que sejamos compensados por isso, não é, mãe?

A matrona desatou a chorar, roída de remorsos, lembrando-se daquele pensamento que lhe ocorrera (por influência de Cibele): se realmente seu filho fosse homossexual, ela teria que ser mãe duplamente extremosa, para apoiá-lo numa cultura que ainda não aceitava gays como seres humanos dignos de respeito.

– Mãe, pare com isso! – exclamou Gilberto, com preocupação e carinho, mas sem conseguir se levantar para tocá-la ou abraçá-la… dentro da política antitoque que imperava na casa e que, naquela madrugada de tantos ressentimentos, parecia mais acentuada que nunca.

Buscando se acalmar, Nildete balbuciou, ainda sob condução da Mãe espiritual de esferas mais altas de Consciência, que viera àquele ninho familiar antes para socorrer o jovem injustiçado, do que a mulher que se sentia vítima quando se fazia algoz:

– Vou me deitar… perdoe-me, perdoe-me…

Gilberto estava perplexo com a ocorrência. Aos poucos, porém, em meio à pouca luz do quarto, foi-se-lhe delineando o vulto de luminosa dama, bem como as irradiações amorosas que lhe eram dirigidas. Embora não pudesse registrá-la com a clareza psíquica que Eleonora lograva em suas comunicações mentais, reconheceu tratar-se da geratriz de todo aquele evento, e agradeceu, em prece, à visitante angelical que convertera um pandemônio provisório em instante de calmaria e apaziguamento gerais. Pondo-se em estado de oração, elevou o tônus vibratório e pôde reparar, além da silhueta radiante, uma voz serena e extremamente aveludada de Mãe, que lhe chegou à acústica medianímica:

– Tranquilize-se, meu filho, você não está sozinho. Siga o seu coração e seja feliz…

Os primeiros raios de Sol de 1º de janeiro de 1980 filtravam-se pelas cortinas da janela do jovem rapaz, que se permitiu voltar a chorar, agora de conforto, alegria e paz… “Tudo vai acabar bem, Deus é In-fi-ni-ta Bondade” – ouviu várias vezes seguidas do Ser alcandorado… “Nada acontece fora da Autorização d’Ele-Ela.” E, assim, pegou no sono, ainda vestido como chegara da rua, rendido pelo cansaço físico, mas com a alma renovada e quase feliz…

(Psicografia de 25/02/2014.)

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