Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eustáquio


Por muitas vezes, no histórico de nossos espíritos, somos levados a cometer erros de que muito nos arrependemos. É fácil dizer que se trata de livre-arbítrio mal usado e que a responsabilidade é de quem envereda pelo erro. Todos sabemos disso. A questão é que não há ser humano no corpo físico ou fora dele que não incorra ainda em faltas de que já tem consciência de serem faltas. Temos, assim, uma espécie de coeficiente de queda, que acontece quase que involuntariamente ou em surtos de loucura emocional, em que a razão fica eclipsada e a pessoa é levada a agir de forma que contraria seus padrões mais elevados de ser.

Nossas estruturas psíquicas não são prontas. Estão em processo permanente de construção, de modo que há partes do reboco de nosso edifício mental que não estão devidamente consolidadas, assim estando sujeitas a serem desfeitas ou deformadas, por um golpe mais forte das circunstâncias.

Não deve haver angústia por causa disso. Todos padecemos desse mesmo mal. A Divina Providência, por meio dos escorregões que sofremos, ensina-nos humildade, paciência com nós mesmos e com os acontecimentos que fogem ao nosso controle, e, principalmente, indulgência para com nosso semelhante.

Assim, se tu te envergonhas de deslizes que cometeste na juventude ou que aconteceram bem mais recentemente; se tu te sentes culpado por haveres pecado francamente em áreas em que já terias condições de haver transcendido o passado sombrio; se percebes estar num nível bem aquém do em que tua consciência te pede estejas, continua envidando esforços, no sentido de superar fraquezas, mas relaxa um pouco. Perdoa-te, amigo, porque é possível que a Providência Perfeita te haja conduzido à ocasião da queda, para te propiciares importante lição de humanidade, a fim de que adejes para a angelitude, de fato após ter esgotado todo o aprendizado do nível evolutivo humano em que estagias.

Sim, não percas oportunidade de te empenhares na própria melhoria, mas, feito isso, entrega o resultado ao Divino Amigo, que saberá como colocar os pontos nos “is” de teu processo de ascese rumo à perfeição divina, sem necessariamente atender às tuas expectativas narcisistas, vaidosas, caprichosas de perfeição que não te cabe almejar, na limitada condição humana que te caracteriza o momento evolutivo.

Não temas, por outro lado, por conseqüências de teus atos insanos de outro tempo, sejam desta ou de outras encarnações. “O amor cobre a multidão dos pecados” – disse o apóstolo Pedro. A tua dívida é com Deus, e, para Ele, trata-se o débito de uma alavanca para teu progresso. Tendo-te ressarcido pelo mal cometido, com o progresso em ti, no exato departamento de tua queda, bem como no trabalho fraterno de socorro aos semelhantes, os efeitos do teu desvio poderão ser totalmente eliminados, suspensos ou mesmo revertidos em bênçãos, como um novo e expandido ensejo de serviço no campo do bem, que tanto sói acontecer com grandes tiranos do passado humano, que se transfundem, no correr dos séculos, nos maiores beneméritos da humanidade, acicatados pelo aguilhão oculto de suas consciências em culpa.

Aprende, assim, a bendizer também tuas faltas e tuas vergonhas. Elas, uma dia, por mais absurdo que isso te possa afigurar agora, poderão se transfundir nos maiores motivos de seres laureado com o galardão da vitória, cioso que te poderás tornar de tua virtude e teu denodo, pelo estímulo à vigilância, à auto-transformação e à dedicação ao bem comum que os equívocos de antanho constituirão para ti.

Deus não te quer com ego grande, mas sim com um sentido lúcido de si, em função da impessoalidade do serviço ao próximo e das causas intemporais a que te devotas. Estar cônscio dos próprios valores sem presunção e ser enérgico nas horas certas, sem violência ou qualquer tipo de abuso com os mais fracos demanda tempo e muita, muita experiência amarga no capítulo da auto-decepção, da frustração de sonhos personalistas, no sentido de ser sensível ao outro, seus limites e suas dores, sem negligenciar o dever de ser duro e justo com todos, a começar por si próprio.

Não percas tempo nos dramas da culpa e da auto-flagelação psicológica da auto-sabotagem. É isso que teus inimigos querem de ti: paralisar-te no desígnio divino que te foi assinalado, para perder-te e a todos que se podem beneficiar com teus esforços no bem.

Volta, assim, a levantar os pés feridos e os joelhos desconjuntados, como tão fortemente disse outro apóstolo do Cristo: Paulo de Tarso, e prossegue em teu posto de serviço, infatigavelmente ativo – notarás, com isso, como a tarefa humanitária te renova as forças e o ânimo, tua auto-imagem e, por conseqüência, tua auto-estima e auto-confiança. Por fim, mais cedo ou mais tarde – provavelmente mais cedo do que imaginas – chegarás talvez até a agradecer ao Criador pelas oportunidades de deslize, pelo tanto que estarás usufruindo em graças de crescimento, paz e ventura, por resultados indiretos do longo período provacional gerado por elas.

O orgulho, promotor das maiores desgraças do gênero humano, pai do despotismo, da tirania e das formas mais medonhas de fanatismo, tem sido a causa de mais sofrimento para o ser humano que a ignorância e a preguiça somadas, em todo o transcurso da História. Assim, se te sentes lapidado em teu senso exagerado de importância pessoal, consideras-te um agraciado por Deus, já que, como disse até mesmo São Paulo, foi dado a ele um “espinho na carne, mensageiro de Satanás”, para que não se “envaidecesse das revelações” que aconteciam por seu intermédio. Chorar sobre as dores da percepção da própria pequenez e insignificância pessoal, no grande concerto das coisas é não só salutar, mas sábio, desde que tal processo de auto-consciência profunda não prejudique, como dissemos, o trabalho que se opera por meio de teu concurso direto.

Esse processo depurador do orgulho constitui, em verdade, um mecanismo inexorável de maturação psicológica progressiva na personalidade. Do pré-egóico para o egóico, como acontece à criança e ao ser humano primitivo. E do egóico para o transpessoal, o que o ocorre fatalmente ao homem e à mulher mais amadurecidos, que despertam para a grandeza imensurável do universo, em todos os sentidos.

Não te entristeças por divisares tantas falhas em ti, para o nível de dignidade e nobreza da tarefa espiritual a que te devotas – isso é extremamente positivo. Ruim seria – aliás grave alerta de perigo – se te sentisses muito pronto e bom para o elevado ministério de servir em nome de Deus. Esse é o primeiro sinal da presença da arrogância e da presunção, que nunca são canais para a genuína sabedoria e libertação, que nunca manifestam bem a Divina Providência, que, com freqüência põem projetos de magnitude a se perderem completamente.

Alguns param por se acharem indignos. Outros fazem, supondo-se perfeitos para a tarefa. Errados uns e outros. Encontra o ponto de equilíbrio entre esforço e bom senso, aceitando responsabilidades à altura de suas condições reais, mas sempre auto-crítico o suficiente para estares cônscio da dimensão de tuas limitações e de tuas mazelas, sabendo que isso fará com que comprometas, aqui ou ali, agora ou mais adiante, o reto desdobrar das atividades que assumes sob tua tutela. Prever tal evento fatal – o de que incorrerás em erros, por seres humano – faz com que erres menos, paradoxalmente, já que não estarás tentando maquiar falhas de tua atuação, com racionalizações bem-elaboradas e complexas, bem típicas, por exemplo, ao fanatismo e à tirania religiosas.

Parar o esforço no bem, jamais! Meditar, refletir e relativizar a importância do eu, em função do infinito do outro e de Deus, sempre!!!

(Texto recebido em 3 de junho de 2002.)