Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.


(Antes de iniciar a leitura deste texto-diálogo, por obséquio leia o aviso abaixo do artigo, sobremaneira se você reside em Aracaju)

Eugênia, há pessoas que entram em verdadeiros surtos de culpa, quando se flagram em erro. Um tratamento menos amável com alguém, uma explosão de raiva inesperada, uma crise de depressão ou desânimo mais acentuada e eis que se desatinam em delírios de autoflagelação psicológica e moral. Que dizer a estas pessoas?

Que, primeiramente, estão de parabéns, pela sensibilidade mais acentuada. Há um certo tom de crítica corrosiva, na atual cultura consumista do prazer irresponsável, em torno do fenômeno da culpa, invalidando-o totalmente. É imprescindível nos lembrarmos, para denunciar quão infeliz é esta postura de política existencial e psicológica, que os psicopatas se caracterizam, fundamentalmente, pela dificuldade em enxergar distinções claras entre o certo e o errado e pela incapacidade de sentir culpa. É verdade que se deve converter, quanto possível, a voragem destrutiva do remorso, em impulso construtivo de arrependimento: o de se responsabilizar pelo próprio erro, com o ímpeto correlato em se ressarcir pela falta cometida. De qualquer forma, é certo dizer que pessoas psicologicamente mais amadurecidas têm um maior sentido ético-moral, maior senso de responsabilidade, mas também maior potencial a se sentirem culpadas.

Dito isto, proponho que transformem a queda numa oportunidade de redenção. Existe uma função mística no mal, como uma função prática no erro – o primeiro leva o homem a saturar-se da treva do ego e buscar a Luz Divina; o segundo propicia experiência que, por consequência, leva ao acerto. Portanto, sem relaxamentos que favoreçam novas quedas, deve transfundir-se cada deslize numa oportunidade de crescimento. Por exemplo: se houve um instante de menor amabilidade com alguém, que se seja mais afável e cordato da próxima vez em que se vir esta mesma pessoa; ou, na falta de oportunidade de se agir bem com ela, que se o faça com outras pessoas. Se alguém teve um surto de raiva, deve verificar as causas gerais e profundas do resvalamento emocional. Digamos: diminuir uma eventual carga excessiva de trabalho, ou dar mais atenção ao coração – seja nos aspectos afetivos, como nos de ideal.

Sempre é possível transformar situações aparentemente desesperadoras em ensejos de exercitar a humildade e de experimentar o princípio do recomeço. Tudo na natureza é cíclico. A noite antecede o dia, que, por sua vez, será seguido de outra noite. Amiúde acontecem eclipses psicológicos ou morais, que fazem o indivíduo agir em um nível abaixo do seu padrão habitual. Faça-se todo esforço possível, no sentido de evitar tais “descidas” de nível. Que haja empenho em viver-se a disciplina e o rigor, sem fanatismo ou radicalismo – que se refletem (entre outros efeitos) em amargura ou crítica exacerbada em relação aos outros. Mas que, feito o possível, confie-se em Deus e entenda-se que, se a Divina Providência permite existir o erro e o mal é porque há uma lição implicada nisto e um dádiva oculta de felicidade e paz a serem conquistadas.

Recordemo-nos, por fim, da presença de grandes endividados morais, ao lado de Jesus, que preferia estar cercado de pessoas com problemas espirituais sérios, mas que os assumiam com autenticidade e autocrítica lúcida, a se fazer acompanhar de gente que se sentia especial demais (alienada da própria condição humana de profunda falibilidade) e que se esquecia do essencial: a humildade e a reverência ante Deus e a complexidade e grandeza infinitas de Sua Criação. Deste modo, que o momento de queda seja transmudado em um instante de geração de impulso a um salto mais ousado para frente e para cima, em qualidade de vida e de espiritualidade.

Há pessoas que têm medo de serem castigadas por equívocos que hajam cometido. Parece que a cultura judaico-cristã trouxe-nos uma série de medonhos sistemas de culpa-punição que nos aturdem, até hoje, mesmo quando informados ou esclarecidos.

Sim, é verdade. Entendamos, porém, que em vez de castigos divinos, existem consequências, e que este processo de causa e efeito está subordinado a um princípio mais amplo e profundo: o de finalidade construtiva, porque este é um universo de significado, de propósito, de transcendência para todos os seres. Assim, se alguém se antecipa a extrair a lição que subjaz em certo deslize e assimila a proposta evolutiva que lhe está implicada, não há necessidade de que venha a sofrer repercussões maiores por esta falta sua.

Isto realmente funciona assim? Não há um certo automatismo na lei de causa e efeito?

A frequência com que a Misericórdia Divina intervém, amenizando ou mesmo suspendendo carmas (porque transmutados), é de tão modo impressionante que, a rigor, poderíamos dizer que sempre há um certo arrefecimento de carma, que varia de grau, conforme características, circunstâncias, e, mormente (porque acima de tudo:) as necessidades evolutivas de cada caso em foco. Se, mesmo já tendo absorvido a lição subjacente ao carma de um certo momento, uma pessoa sofre os resultados negativos por um erro em que incorreu, de forma mais crua, direta e “matemática”, digamos assim, trata-se já de um estímulo a galgar nível mais alto de consciência, por estar preparada a receber este estímulo superior à expansão do próprio psiquismo, e não propriamente como uma retaliação cósmica pelo mal perpetrado.

Em resumo, quer dizer que ela pode temer os resultados do que haja feito de ruim, ou esperar pelo “castigo”?

O medo é sempre péssimo conselheiro e uma faixa mental de sintonia com o pior. Quero dizer que, se o indivíduo estiver com Deus, estará capacitado a enfrentar qualquer desafio que lhe sobrevenha, e que estes testes da Vida só lhe advirão na medida exata de suas premências evolutivas, respeitando-se suas reais condições psicológicas do momento. Assim, deve haver confiança integral no Criador. Há muito pouca fé, no ser humano da atualidade. Com excesso de senso crítico e de conhecimento científico, olvidam o homem e a mulher modernos que a vida em si mesma dispensa explicações, como um fenômeno autoevidente, e que deve ser vivida plenamente, e que não se pode alcançar a plenitude da existência, sem espírito de fé, de religiosidade, de contato com o numinoso, o divino, o espiritual. Portanto, urge se desenvolva um sentido de comunhão e de entrega ao Ser Supremo Todo Amor, para que, pois que, se houver resistência em aprender e mudar, as dores da Vida precisarão se fazer maiores, até que o ego do rebelde se canse e, rendido, permita-se abrir ao Divino.

(Diálogo travado na madrugada de 17 de fevereiro de 2006.)

Aviso:

No dia de hoje, 17 de fevereiro de 2006, o Projeto Salto Quântico completa 18 anos de existência. Depois de amanhã, domingo, 19 de fevereiro, haverá uma celebração especial por esta “maioridade” do projeto, que há dez anos se estende para Europa e EUA, crescendo no Brasil, ano a ano. A comemoração acontecerá em nossa habitual palestra de domingo, no Espaço Emes, às 19 h e 30 min, e incluirá, literalmente, comemoração (com um coquetel não alcoólico servido ao fim do evento), tendo a participação da Academia Sergipana de Ballet, com três números tocantes, o canto lírico de Marilia Teixeira, acompanhada do pianista Plínio Marcos, com também três interpretações, como sempre maviosas, e, por fim, surpresas especiais em ilustrações em vídeo, projetadas em nosso telão. Jácome Góes, como em todo domingo, dará começo à reunião festiva, com uma leitura de reflexão. Quanto à incorporação do espírito da sábia e amorosa Eugênia, acontecerá normalmente, mesmo e talvez com mais razão neste dia “diferente”, por intermédio de minhas limitadas faculdades mediúnicas, já que ela prometeu, no domingo passado, que isto se daria todas as semanas, nesta nova fase do projeto. Sejam todos bem-vindos. A entrada, obviamente, será gratuita.

Benjamin Teixeira.
Aracaju, madrugada de 17 de fevereiro de 2006.