Benjamin Teixeira

pelo espírito Eugênia.

Vamos falar sobre amizade e felicidade.

Eugênia, o que a amizade pode fazer pela felicidade dos indivíduos?

Tudo, praticamente. O arquétipo do fraterno, vivido em sua excelência, é a base para a plenitude da condição humana. Se prestarmos atenção, Jesus disse isso: que o amigo verdadeiro dá a vida por seus amigos, ou seja, colocando-se na posição de O Amigo (*). Por outro lado, ao propormos “fraternidade”, é exatamente isso que, em tese, está sendo propugnado: uma relação de igual para igual, de troca, de interdependência e não de dependência ou co-dependência, como sói acontecer em outras ordens de relação. Toda relação que implica subordinação necessariamente é incompleta, quando não doentia. Até mesmo a relação de mãe-filho peca por esse, digamos, tecnicamente, “distúrbio”: a mãe sempre dá mais do que recebe. É ótimo, para a mãe, que se “angeliza”; é péssimo, para o filho, que perde o senso das proporções e permanece endividado ante as Leis da Vida, só tornando ao equilíbrio quando, por sua vez, também se torna pai, seja pelas vias biológicas ou não, literal ou simbolicamente.

A relação de amigo a amigo exige, por outro lado, a constelação fundamental de virtudes que mais engrandecem o ser humano, tais como: lealdade, generosidade, zelo, devotamento, dedicação, espírito de renúncia, carinho, ternura. E, por ser uma relação de espírito a espírito, de coordenação, sem os liames da vinculação obrigatória, seja pelo desejo ou pelas paixões egóicas, estabelece ou oportuniza o tipo mais harmônico de relação interpessoal que se pode ter. Sem cobranças, sem pagamentos, sem idéia de posse, de poder, ou seja: não se está pretendendo usar, nem manipular, nem possuir o outro, mas, tão-somente, partilhar.

É por isso que, paradoxalmente, as pessoas tão dificilmente, na Terra, desenvolvem e preservam boas amizades: porque, simplesmente, não sabem fazê-lo, são imaturas demais para consegui-lo, presas que estão às teias das paixões medonhas do sexo ou da parentela consangüínea, em outras palavras: atreladas às ligações afetivas ditadas pelos instintos.

Sei que aludo à relação entre amigos que seja ideal, mas a relação entre pai e filho ou entre guru e pupilo, ainda que ideal, nunca será completa, porque o filho ou o pupilo estará sempre em desvantagem emocional e evolutiva (embora, ironicamente, a imaturidade e a mesquinhez humana na Terra faça ver o contrário), num estado, digamos assim, de sub-desenvolvimento psicológico, que só pode ser contra-balançado em outros relacionamentos, com outras pessoas. A não ser que imaginemos que pai e filho se vejam como pai e filho um do outro, o que, todavia, será ainda imperfeito, quando não patológico, já que a inversão de papéis pode indicar severas formas de manipulação inconsciente, como a de pais imaturos que transferem, sutilmente, a função de adultos, para filhos pequenos, a fim de descansarem da tensão criativa e necessária, dever moral seu, de serem responsáveis pela relação, o que está em sua incumbência e não de crianças e adolescentes, sem preparo emocional para essa ordem de compromisso, altamente complexo.

Muito interessante, Eugênia. Algo mais a dizer?

Sim, que a amizade é uma célula fundamental de relação humana, que pode ser ativada em toda ordem de ligação que estabeleçamos uns com os outros. Respeitados certos limites, até mesmo entre pais e filhos pode haver um certo nível de camaradagem, partilha e compromisso de lealdade, ainda que preservados os limites da autoridade paterna e materna, principalmente quando os filhos são menores de idade. Por outro lado, como vamos entender uma boa relação entre cônjuges, senão quando assentada nas bases do companheirismo, da confiança mutuamente estabelecida e da lealdade um ao outro? Ou como vamos compreender uma relação guru-discípulo ou terapeuta-consulente, sem que haja, n’algum nível, uma relação de compromisso de alma a alma, sem a idéia de maior-menor, sempre mórbida em seus fundamentos? Que o professor mantenha um certo distanciamento do aluno, assim como o pai do filho e o terapeuta do cliente, como um parâmetro mínimo de autoridade moral, na exata e mínima medida para o exercício de suas funções, é óbvio ser necessário, mas que isso não implique na perda da humanidade, do sentido de identidade basilar que une todos à mesma condição de pertencentes à espécie humana, navegando num mesmo barco evolutivo, rumo a Deus e à plenitude. Esquecer-se, ainda que mui sutilmente, como costuma acontecer, desse valor axial, leva o indivíduo a exagerar a própria importância na relação e a comprometer, amiúde de modo perigoso, o serviço que presta à parte considerada “inferior” da relação.

(Diálogo travado em 19 de outubro de 2004.)

(*) “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (João, 14:13)

(Nota do Médium)