Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eustáquio.

Desânimo profundo tolda-te a alma de servidor fiel, de temente servo do Cristo. Acordas-te com o corpo como que jazendo colado à cama, que mais se assemelha a catre de tua alma que a leito de teu repouso. Sentes-te envolto na mais profunda tristeza…

Os teus caprichos não foram atendidos. Mas recorda, em tempo, que também não os da criança que quis guloseimas em hora inadequada, e foi repreendida pela mãe, até que possa entender por conta própria, a necessidade da disciplina do tempo.

Teus olhos buscam, em vão, o conforto de um par de outros olhos que lhe retribuam a atenção dispensada. Por mais que sejas um idealista, teu coração também sofre com a falta de compensação pelo que dá. Isso é natural: és humano. Não desanimes, porém, no ministério que te foi confiado. Outros vieram antes de ti e padeceram sofrimentos atrozes, semelhantes aos teus, alguns muito piores. Se souberes resistir à borrasca, serás exalçado ao paraíso de um padrão de consciência mais alto, onde o assalto das trevas – em particular a tristeza a que aludimos – não terá acesso à tua alma.

Sim, dize-me que não queres o céu; que queres apenas a paz da Terra; que estás tão-somente cansado; que queres repouso para tua alma exaurida. Todavia, amigo, não há outra forma de progredir que não pela escalada escarpada do monte da redenção. Aqui ou ali, o caminho do progresso se faz menos sinuoso e íngreme. Entrementes, sempre existirão trechos difíceis, pedregosos e quase intransitáveis. A adversidade faz parte do aprendizado, como forma de estimular o crescimento do educando.

Entre todas as dores, nenhuma é mais difícil que aquelas que afetam o coração. A maior das tentações não é contornar uma paixão, mas passar, às vezes, sem ela, sem descoroçoar, nas atividades do ideal.

Retempera, agora, amigo, nos recessos da consciência, teu espírito acanhado pelos embates da dor, no refrigério salutar da prece. Nela, encontrarás toda a força que te parece faltar e a luz para teus caminhos toldados de treva.

E, por mais triste seja hoje tua senda, recorda-te: se segues teu coração, se segues teu ideal, no que há de mais puro e nobre, cedo ou tarde, toda amargura será convertida em ventura, e todo o vazio em plenitude.

Não consideres natural a tristeza sistemática. Porém, será doentio, da mesma sorte, supores possível passar toda uma vida sem crises de embotamento da alegria e do ímpeto por viver. É na complexa gama da variação dos sentimentos e das emoções que a psique se educa e se depura, no rumo da integração psicológica completa e da transcendência espiritual.


(Texto recebido em 6 de janeiro de 2002.)