Benjamin Teixeira
pelo espírito
Rosemarie.

Meu nome é Rosemarie. Vivi e morei em pequena cidade próxima a Paris, e comecei a dar por conta de mim no início do século XX. O que mais se poderia esperar de mim? Vivia numa das mais importantes nações do mundo. A tecnologia e a Ciência estavam em um apogeu espetacular. Eu era uma adolescente informada. Estávamos na primeira década do século e ficava assombrada e orgulhosa com os experimentos com o mais pesado que o ar. Acompanhei as manchetes chamativas do feito extraordinário de 1906, quando um brasileiro conseguiu dirigir uma geringonça aérea por alguns metros, com registro oficial no momento.

Mas eu não sabia que a vida não seria tão cor de rosa. Assisti à primeira e sangrentíssima Guerra Mundial. Meu marido não voltou para casa. Ficou nas trincheiras, para sempre. Meu filho, não sabia eu, o único que tinha e que teria, também iria para outra Guerra, a Segunda, com mais sorte que o pai, voltando perneta, porém. Eu, anciã antes do tempo, assisti aos horrores do início da Guerra Fria, e esperei, por varias vezes, os mísseis nucleares porem o mundo pelos ares, indo dormir só para não assistir acordada ao Apocalipse. Em 62, então, na Crise da Bahia dos Porcos, esperei o pior, pra valer. Tive piedade funda de meu filho, que mal havia adentrado a casa dos 40 anos e de meus netos, todos adolescentes. Eu, pelo menos, que me aproximava dos 70 anos, podia me dar por satisfeita. Mas vivi mais, bem mais. Pude assistir aos dramas da Crise do Petróleo e a ameaça de o Império Americano esbarrondar, como tanto se ouvia por então.

Era já nonagenária quando meus olhos se fecharam para o mundo físico nessa última encarnação. Pude, todavia assistir ainda em vida física, pela televisão, ao vivo, ao histórico aperto de mãos entre Reagan e Gorbachev, que selou o fim à Guerra Fria, dando início a uma nova era de paz e concórdia para a humanidade. Desencarnei esperançosa.

Mas o pior continua: a sanha assassina, criminosa, insaciável, do homem que devora o próprio homem, de mil maneiras. Eis aí o Terror, com sua face sinistra a aterrorizar toda a Humanidade.

Eu pensava que havia contemplado o final dos tempos e clímax do progresso humano, por diversas vezes. E como estava enganada, em todas elas!… Agora, da mesma forma, é hora de não nos sentirmos presos a uma situação sem saída. A Humanidade escapou de Hitler, de Stalin e Mussolini. A Humanidade se livrou da Gerra Fria e do perigo maior do Armagedon. O poder da espécie humana de superar suas limitações, transcender-se e solucionar o aparentemente insolúvel já foi provado, em incontáveis oportunidades, como capaz de realizar prodígios em primeiro exame impossíveis.

Muita coisa ainda está por vir. Bons acontecimentos e ocorrências nefastas. Mas está fora de cogitação um fato: os acontecimentos e conquistas positivos da espécie humana em muito sobrepujarão os negativos. O bem vencerá ao fim, e o mal, compreendido como mera ausência do bem, será debelado como um câncer, extirpado do organismo social, para nunca mais retornar à ativa.

Você, e cada um de nós, podemos e devemos nos posicionar como agentes catalisadores dessa nova fase, ou seremos cúmplices do atraso de sua chegada, com todos os ônus de dor, vazio e falta de sentido, na vida de tantos milhões.

(Texto recebido em 13 de novembro de 2001.)