Benjamin Teixeira
pelo espírito
Anacleto.

Anacleto, quando a pessoa está indecisa, o que deve fazer?

Primeiramente, verificar qual a motivação – consciente, inconsciente ou de ambos os níveis psicológicos – para a indecisão. Depois, desarticular-lhe cuidadosamente os elementos, assimilando-lhe os conteúdos de aprendizado. A pressa em acelerar o processo pode abortar importantes mecanismos de auto-conhecimento.

Poderia falar isso de um modo mais claro ou mais simples para nós?

Sim. Existem razões para a indecisão como, digamos, ante o desejo de comprar uma casa nova. As dúvidas podem provir do receio quanto à validade do desejo, ao futuro financeiro e quanto ao valor do investimento. Podem também estar correlacionadas à dificuldade em abandonar e se desapegar do antigo lar, bem como estar intimamente ligadas a um profundo senso de inferioridade pessoal, que leva a pôr em xeque qualquer iniciativa que parta de um desejo próprio.

Então, um momento de indecisão revela muita coisa sobre os conteúdos psíquicos do indivíduo…

Sem dúvida. E para se tratar a indecisão deve-se atacar de modo gestáltico o problema. Somente quando a totalidade do indivíduo é considerada um problema pode ser realmente debelado.

Em termos práticos, o que se pode fazer?

A pessoa indecisa pode converter a indecisão em prudência, uma forma construtiva de aplicar uma tendência negativa. Assim, sentindo-se invadida pela indecisão, deve procurar, primeiramente, informar-se sobre o assunto, lendo, consultando especialistas, ouvindo pessoas de confiança e amigos. Depois, deve ponderar, usando a lógica, o bom senso e o espírito de pragmatismo. E aí, então, impelir-se a tomar a decisão, sem esquecer de, durante todo o processo, invocar a ajuda divina. Um pouco de tensão haverá, se o indivíduo tem inclinação à indecisão ou se sofreu algum trauma psicológico que favoreça a resistência à decisão. Mas esse pequeno nível de estresse não deve ser motivo de fuga à necessidade de se posicionar, escolher e agir.

Você falou em níveis mínimos de tensão. Então, se ela for vultosa, algo pode estar errado e a pessoa deve se precaver, talvez mesmo procrastinando a decisão até momento melhor?

Exatamente. Se o desconforto se converte em angústia, se a dor psíquica e moral atinge níveis insuportáveis, obviamente existem questões importantes em jogo que não estão sendo devidamente consideradas. A intuição, por exemplo (não importando se decorrente de percepções subliminares, afloramento de registros mnemônicos antigos ou captação de sugestões telepáticas de mentores desencarnados) pode mesmo estar entrando em cena, sugerindo prudência ante uma situação perigosa. Nesses casos de tensão extrema ante uma tomada de decisão, no mínimo, o indivíduo está sob efeito de séria perturbação neurótica, a pedir tratamento especializado de imediato.

Haveria mais algo que pudesse sugerir aos indecisos?

Que busquem fiar-se em sua própria decência, em sua dignidade de Filhos de Deus. Quando alguém se alinha com a própria consciência e, assim, age motivado por ideais sãos e elevados, não precisa temer, e deve mesmo ser ousado. Claro que não poderá abdicar da razão e do bom senso, que são aliás, os melhores crivos a proteger o indivíduo de erros graves e a lhe conferir segurança em todas as experiências de escolha. A opção sempre será mais próxima do melhor se o indivíduo pensar melhor. Mas, em última análise, deve-se, se não for possível elidir, ao mínimo colocar sem segundo plano emocional os complexos de vítima, de culpa e de inferioridade e haver a disposição para confiar no Criador, que não só tutela as idéias beneméritas, como mesmo as inspira.

Posso perguntar mais alguma coisa sobre como se vencer a indecisão?

Deve haver coragem, abertura e disposição à mudança. Deve-se estar suficientemente decidido (eis a palavra de novo, ironicamente presente) a envidar esforços em quebrar o padrão desse hábito mórbido, desse vício conceitual-psicológico. Deve-se estar disposto a trabalhar duramente, esquecendo-se os alvitres da covardia, da preguiça e da acomodação, e sair definitivamente da infância psicológica, partindo para o universo complexo, cheio de incertezas, compromissos e responsabilidades do adulto. Lamuriar-se e deitar-se em meio a desculpas chorosas não resolve o problema de ninguém e, por sinal, só o piora, gerando, ainda mais outros, talvez bem piores que o problema original.

(Diálogo travado em 13 de setembro de 2001.)