Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Era o primeiro dia de maio de 1991. Envolvi o médium em energias pacificadoras. Ia fazer uso da tribuna pela primeira vez. Havia criado um esquema complexo (a ser exposto por retroprojetor) de confronto de diversas escolas da psicanálise, e uma analogia entre tal confronto de correntes e uma estrutura estratificada da mente humana; e esta, por sua vez, submetida a uma comparação metafórica com um foguete, conforme o sistema de propulsão engendrado para pôr o Homem na Lua em 1969. Em resumo: era um material denso e de difícil compreensão, sobretudo para uma platéia relativamente despreparada, composta de jovens (tratava-se da palestra de encerramento de um encontro de juventude espírita) e pessoas de baixa instrução. O medianeiro estava tenso – não achava que fosse “dar conta do recado”. Tentei tranqüilizá-lo, enquanto ele assistia às exposições dos demais conferencistas. Por fim, espremido num espaço de apenas uma hora, com assunto programado para duas (no mínimo), disparou a falar, ao cair da tarde daquele 1o de maio. A audiência ficou muda, por ser gentil, generosa e religiosa. Meu pupilo não foi interrompido, por misericórdia dos ouvintes, que sofreram um teste de paciência e tolerância cristã. Mas meu protegido, realmente, não tinha noção, dentro de seus confusos complexos e neuroses da época, do quanto estava sendo inadequado ao evento. Parecia estar discursando para uma plêiade de catedráticos e não para um grupo de adolescentes despretensiosos.

De nada adiantou que o tentasse acalmar, com a insuflação de idéias de serenidade. Só relaxou, efetivamente, quando terminou de despejar uma caudal interminável de palavras, numa espetacular sessão de verborréia, como há muito não via (muito embora os cotejos de conceitos e teses psicológicas fossem realmente interessantes). Eu o perdoei, de qualquer forma. Não disse quase nada do que queria que ele realmente falasse, mas tinha vinte anos. E, aos vinte anos, afora raríssimas exceções, as pessoas, na Terra, estão completamente fora do seu eixo, em busca de descobrir o próprio centro, em torno do qual possam estabelecer referenciais claros de conduta, avaliação e decisão. O fato é que ele voltou para casa angustiado, frustrado, sentindo que não tinha feito o que deveria, só não sabia o quê ou por quê. Sentiu que os amigos o tratavam de forma estranha, na volta, em comparação à ida, e também não entendia o motivo. Será que não lhe haviam notado o esforço? – pensava consigo. “Deve ser porque precisei falar rápido… Mas eu não tive alternativa: só me deram uma hora!” Não compreendia que havia falado como uma metralhadora nova e barulhenta, ferindo ou incomodando a todos.

Tinha que dar um jeito de prepará-lo para o futuro. Em poucos anos, o programa de televisão seria lançado, e não seria possível deixá-lo chegar daquela forma, em estado bruto, falando para as massas. Após alguns estudos ligeiros – que levei a curso com alguns amigos do plano em que resido – deliberamos conduzi-lo à sala de aula, como professor de Português, Redação e Literatura. De fato, um ano e meio mais tarde, tínhamos providenciado sua forma ideal de trato para o público: passar por um estágio preparatório, lidando com adolescentes do segundo grau. Um estágio que, digamos assim: quebrou-o em pedaços, a muito gosto de nós, que o acompanhávamos, de cá, nos seus dolorosos progressos em didatismo e empatia. Até lá, exercícios de psicografia, psicofonia e, principalmente, de reflexão e auto-reflexão, por leitura que lhe conduzimos, inspirativamente, fomentando-lhe diversas crises existenciais, maravilhosamente transformadoras. De modo que parecia um milagre quando o vimos sentado, em frente às câmeras, pela primeira vez, em 10 de abril de 1992, após uma tarde em lágrimas, laborando suas falhas íntimas, para falar sobre “Depressão”: estava simples, acessível e sereno. E mais ainda pareceu miraculoso, quando o vimos diante das câmeras, mais uma vez, em janeiro de 1994, agora já com a responsabilidade de um programa só seu, de periodicidade semanal – como se mantém no ar até hoje.

Meu menino queria fazer as coisas antes do tempo; e, muito embora lhe respeitássemos a iniciativa valorosa de levar adiante a mensagem libertadora da Doutrina Espírita, como podia, com garra e coragem quase delirantes, tivemos que brecar-lhe os avanços, por diversas vezes. Assim, o programa nacional, para parabólicas, entre 1996 e 1998, constituiu um mero prelúdio do que aconteceria bem mais tarde, em 2001, quando de fato o programa entraria em rede nacional. Sem entrarmos em detalhes que seriam dispensáveis e excessivos, para os fins que colimamos com esse artigo, quero apenas registrar, entre os amigos que fazem parte do Projeto Salto Quântico, ainda que “apenas” como leitores de nossas páginas modestas (estão co-operando com a força de suas consciências), que, apesar de tudo parecer contra ou a favor disso ou daquilo, em suas vidas, só acontece exatamente o que a Divina Providência permite que ocorra. Por isso, meu menino ficou com apenas uma hora, naquele fim de tarde de 91, assim como tivemos que suspender o programa por parabólica, para que fizesse mais alguns “cursos”de maturação psicológica, até que um ministério mais amplo lhe fosse confiado. Suas iniciativas, é claro, foram válidas, e todas elas endossadas pelo Plano Maior, mas também constituíam fases de experimentação e treinamento para algo maior, no futuro.

Confie em Deus, caro amigo. Quando, assim, sentir-se sendo “surpreendido” pela Divina Providência, dê-Lhe um voto de crédito, e siga em paz. É possível que a Inteligência Suprema, em vez de lhe negar a realização de um projeto, esteja capacitando-o para o momento mais oportuno de concretizá-lo. É bem verdade que talvez esteja almejando o que não é para você, motivado por vaidade ou por outros impulsos indevidos, como porventura impelido a corresponder a expectativas neuróticas de pais, grupo social ou cultura nacional, e então seu objetivo malogrará. Mas, se prestar atenção, com cuidado, aos reclamos de seu coração, dificilmente sairá do riscado de seu destino, do melhor para sua felicidade e sua paz, de sua realização completa como ser humano, de sua plenitude como ser livre e moral.

Hoje, 13 anos depois do evento de 1991, quero desejar paz e entregar todo o Projeto Salto Quântico e os que sob ele se albergam e dele participam ao Divino Senhor, que a todos nos assiste, cobrindo-nos de bênçãos de paz e de amor. Foi-se o tempo, desde início de 1988, em que o projeto se restringia a pessoas isoladas, alcançadas pela mensagem libertadora e transformacional do Espiritismo, em suas feições mais modernas. Agora, muitos milhares são, a um só tempo, atingidos por cada um dos braços do projeto, dentro e fora do Brasil, seja pelo rádio, pela televisão, pela imprensa escrita ou eletrônica, assim como através do acompanhamento pessoal, de perto, das atividades diuturnas de nosso representante encarnado. Por isso, só podemos exclamar ao Todo Poderoso, após termos vencido tantas etapas difíceis, por Sua mercê: “Obrigada, Senhor!, muito obrigada!”

(Texto recebido em 1o de maio de 2004.)


(*) Agindo de forma surpreendente e curiosamente humana, a doce e sábia Eugênia resolveu fazer uma discurso biográfico nesse 1o de maio de 2004, em que completo 13 anos de oratória espírita. Estava tranqüilamente lendo sobre mitologia e psicologia, na altura de três horas da madrugada deste sábado “diferente”, quando a orientadora espiritual me pediu que interrompesse os estudos, para grafar “umas linhas sobre nosso passado recente” (Por sinal, o assunto sobre que lia não tinha nada a ver com a temática que a mentora aborda). Bem, aí estão as “linhas” de Eugênia. Só não sei se a perdoarei, pelo desacato que me faz, em suas confidências altamente embaraçosas a meu respeito… em público! (risos) Que horror! Isso só pode ser carma!!! (risos)

Benjamin Teixeira, Aracaju, 1o de maio de 2004.

Post Scriptum: Esse texto está entrando no ar no meio da madrugada de sábado, valendo como mensagem de segunda-feira, de modo que ficará no ar até às 24 h desse dia, em respeitando a regra de só se porem mensagens novas no ar, em dias úteis da semana.