Benjamin Teixeira,
em diálogo com o espírito
Eugênia.

(Pergunta) (*) – Por que a maior parte das mulheres sonha com príncipes encantados, mas se casa com cafajestes?

(Resposta) – Responderei de forma sumária, mas levando em conta diversas perspectivas, todas pertinentes e necessárias à melhor compreensão da temática intrincada dos relacionamentos humanos:

1) Porque não são princesas do espírito. Só almas nobres têm o condão pleno de conduzir para si personalidades de padrão similar.

2) Porque não são vassalas, em se considerando “príncipe” na acepção de homens psicologicamente altivos ou suficientemente narcisistas para agirem como aristocratas pernósticos, que julgam merecer o melhor do mundo, em detrimento de terceiros, não por realizações e méritos pessoais, mas por capricho e desejo. Estes príncipes só se casam com mulheres que se submetam ao talante de sua voluntariosidade. As caprichosas, por sua vez, deveriam procurar vassalos, para diminuir um pouco os conflitos em que se introduziriam, caso conseguissem estabelecer intimidade com um igual – o que, é claro, por lei do carma, acontece frequentemente, fazendo com que “príncipes” e “princesas”, após a quebra do encanto inicial de arroubo passional, descubram-se “traídos e enganados”, por se verem enlaçados, respectivamente, a “sapos” e “bruxas”. Todavia, nesta burlesca e trágica comédia do ego, cabe-nos indagar: Quem, realmente, enganou quem?

3) Porque não são integradas psicologicamente, de molde que projetam um ideal não condizente com sua realidade. Em linguagem junguiana, idealizam na câmara elevada do Self, mas se sentem atraídas a envolverem-se, de fato, por meio da Sombra Psicológica.

4) Porque atraem o que precisam e não o que julgam merecer. Evolutivamente o universo condiciona as relações entre parceiros por meio de paridades psíquicas, sejam especulares ou complementares. Por uma questão de equivalência vibratória, costumamos atrair os semelhantes, ainda que num nível inconsciente, bem longe do plano das obviedades superficiais. Se alguém é mesquinho, egoísta e manipulador, não pode esperar trazer a seu caminho almas de estirpe elevada.

(Pergunta) – Por que, na juventude, homens idealizam o sucesso no bem maior, mas acabam, com frequência, descambando, na maturidade e na velhice, para o fracasso, na mesquinharia do mal menor?

(Resposta) – Porque não souberam facear os desafios complexos atinentes a suportar o conflito das necessidades prementes de sobrevivência e a adversidade cruenta do domínio físico de existência na Terra, onde tudo contraria e rivaliza os verdadeiros valores do espírito, arrebentando, em pouco tempo, na maioria dos casos, a balança íntima do autogoverno, conforme os princípios e metas elevados da juventude. Raras são as criaturas, em nosso planeta, que mantêm, na senectude, a mesma altura de ideal que apresentavam na juventude. O que parece, no entanto, uma involução, em primeiro exame, constitui, antes, a revelação de inconsistência dos sonhos de juventude, seja pela concepção inadequada ou incompleta dos ideais (desconectada da realidade), seja pelo desconhecimento da própria natureza, em termos de limitações psicomorais e potenciais intelecto-emocionais legítimos – já que as primeiras tendem a ser minimizadas e os últimos, superestimados pelo entusiasmo juvenil. Quando um jovem, por exemplo, por narcisismo, motivado, pois, pelo ego, sonha em ser um grande homem, provavelmente sofrerá amargas decepções. Se um jovem no corpo material, porém, é, em verdade, um ancião do espírito reencarnado, mostrar-se-ão substanciais as suas chances de manter um elevado diapasão de constância em seu caráter e na manutenção de seus ideais, quando não de melhoria progressiva dos mesmos, assim como de respeitável percentagem de concretização do que idealizou no princípio de sua existência física.

(Pergunta) – Por que a maioria das pessoas é honesta, e o percentual maior delas mente, mesmo assim?

(Resposta) – Porque a mentira, como regra de conduta, a ser dosada com a exposição da verdade, de forma responsável e construtiva, no tecido corrompido de uma sociedade hipócrita e venal, constituída por uma maioria de personalidades de baixo padrão moral, ainda é um item obrigatório – de tal modo, que os moralistas contestadores desta necessidade, asseverando não mentirem em nenhuma circunstância, revelam ou severo distúrbio mental, ou, como amiúde se dá nestes casos, demonstram ser hipócritas cínicos e perigosos, que julgam conveniente mentir deslavadamente, sustentando mitos fantasiosos de grandeza e excelência morais sobre si mesmos, enquanto exigem sinceridade transparente e irresponsável dos outros, para melhor controlá-los, em função de seus interesses pessoais, em prejuízo do bem comum. A despeito disto, entrementes, quanto mais decente e lúcida uma pessoa, mais estreito é o uso da ferramenta suavizadora da mentira caridosa e polida, em situações delicadas, que fica confinada, portanto, a ocasiões específicas, em que o espírito de humanidade e respeito às fraquezas e limitações alheias manda ocultar uma verdade inconveniente ou inoportuna, que eventualmente possa prejudicar a si ou a terceiros, sejam entes queridos ou estranhos. Os indivíduos calculistas, oportunistas e sociopatas, é bem verdade, utilizam-se deste artifício de sobrevivência social muito além do necessário, tornando-se manipuladores contumazes, tripudiando e manobrando a boa-fé alheia, fazendo-se mendazes (passando a acreditar nas próprias mentiras) e, por fim, enlouquecendo moral e psicologicamente, na roda-viva de invencionices perigosas, que lhes conduz a trágicos destinos, não raro já na presente existência (por mais inteligentes que sejam na elaboração de fantasias persuasivas), com toda certeza padecendo amaras consequências após a desencarnação e em outras existências físicas. A punição, porém, começa com a implicação inexorável a este perfil psicológico: o não acreditarem em ninguém e desconfiarem até mesmo de si próprios.

(Pergunta) – Como encontrar o equilíbrio e a maturidade na decência e, ao mesmo tempo, ser realista e proteger-se da malícia e da maldade alheias?

(Resposta) – Sendo rigorosamente honesto consigo mesmo, em primeiro plano, conhecendo-se o bastante para não exagerar nas expectativas quanto ao próprio valor e ao destino de “grandeza” que se projete para si. E, em seguida (em termos de importância na aplicação dos princípios), não esperar muito dos outros, procurando, de reversa maneira, fazer-se fonte de solução, benefício, felicidade e paz, tanto para si, como para o próximo. Assim, sofreremos menos com uma contingência natural do orbe – encontrar gente problemática ou perversa, no percurso da própria existência – e, ainda mais, atrairemos para nossa intimidade, paulatinamente, com o correr dos anos, criaturas semelhantes, ainda que raras, por uma questão de atração vibratória (iguais atraindo iguais para perto de si), uma espécie de magnetismo moral e espiritual irresistível. Este fator magnetismo pessoal-espiritual é de tal modo dominante nas relações interpessoais, que, quando agimos com muita decência (sem ingenuidade) com os outros, ainda que não atraiamos semelhantes a todo tempo (o que é impossível na Terra), levamos os que não estão no nosso patamar de maturidade psicológica e moral a agirem em esfera mais alta de consciência e conduta para seu próprio padrão, demonstrando virtudes que, nas relações com terceiros, não denotam normalmente. Destarte, numa situação extrema, almas santas costumam inspirar atos de bravura e altruísmo em criminosos, embora isso só possa acontecer pontualmente, porque, se for forçado o convívio entre estes seres que compõem extremos opostos do espectro da dignidade humana, a psique do criminoso, em efeito contrarreativo compensatório aos momentos de nobreza que lhe não são naturais, tenderá a agir em padrão ainda mais baixo que o que lhe é peculiar, logo após o ato de grandeza, prejudicando o próprio promotor de seu crescimento, o tal ser luminoso com quem está convivendo – a hagiografia é prenhe de exemplos do gênero, nos dois sentidos.

(Pergunta) – Onde está a escada para o encontro do verdadeiro amor e da realização pessoal completa?

(Resposta) – Dentro de nós mesmos – temos que recorrer a este axioma das tradições espirituais de todas as culturas e épocas, incluindo a nossa, a cristã: “O Reino dos Céus está dentro de vós”. No entanto, para colocar em termos mais pragmáticos, digamos que existem, basicamente, três itens definidores do sucesso pleno – ou seja: aquele que inclui a vitória íntima, a felicidade, a paz, o sentimento de dever cumprido, e não apenas o êxito profissional, material, social, externo:

1) Ouvir a própria consciência-intuição-coração-vocação. Sem a escuta e o atendimento dos aspectos mais genuínos e nobres de si mesmo, sem se respeitar a própria natureza psicológica, sem consideração elevada pelos ideais que inflamam o próprio espírito, impossível lograr-se a verdadeira realização pessoal, isto é, a que seja duradoura, profunda e completa.

2) Ser persistente. Somente pela perseverança, pode o indivíduo alcançar os supinos desideratos que colima, em virtude das energias contrárias ao impulso da vida, evolutivo, que esta flama íntima de ideal representa. As crises a serem suportadas, vividas e superadas; as adversidades, ataques e quedas, a serem vivenciados e também ultrapassados, apresentam-se de tal modo numerosos, intensos e variados em sua forma de expressão, que somente grandes almas atingem o ideal de transpor todas as barreiras encontradiças em seu destino, na direção da plena realização de seus potenciais, quando reencarnadas em nosso planeta – as quais, pela psicografia de Chico Xavier, em nome do Espírito que se autocognominou André Luiz, se denominaram de “completistas”.

3) Confiança em Deus e contato sistemático com Ele-Ela, de maneira direta ou indireta, por meios convencionais ou não. Alguém poderia dizer que existem elementos do mal que jamais auferem, na inspiração divina, impulso e diretriz para suas atitudes malevolentes. E nós dizemos, entrementes, em contrapartida, remetendo-nos a um dos mais intrigantes paradoxos do universo, que somente em Deus algo pode ser feito, de molde que até os genocidas agem sob tutela divinal, tornando-se, por conseguinte (sem o saberem e também sem nenhum merecimento), agentes da punição e do estímulo à transformação – o que o mal é, em última análise, já que existe para propelir as criaturas à busca do Bem, em todas as suas multifacetadas formas de manifestação.


(Diálogo mediúnico travado em 3 de maio de 2009. Revisão de Delano Mothé.)

(*) Em função de as perguntas haverem sido propostas pela própria Autora espiritual, não me coloquei como o “indagador”, neste diálogo, como, via de regra, apresento-me, nestes ricos intercursos com a sábia Mestra desencarnada.
(Nota do Médium)