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por Benjamin Teixeira de Aguiar.

Introdução:

A velha história do drama de vítima dos que, em verdade, pretendem dobrar a vontade dos objetos de sua atenção, e não de seu amor – porquanto quem ama não deseja dominar o ser amado, mas sim libertá-lo e fazê-lo florescer. A carta abaixo foi resposta a um e-mail que recebi de uma moça na casa de 20 anos, que, muito educadamente, mas sem poder ocultar suas intenções e sentimentos, colocava-se como vitimada pela liberdade alheia. Começou, é claro, com os elogios habituais de quem tenciona obter concordância do interlocutor, presumindo-me, consciente ou inconscientemente, presa fácil para sua sanha sedutora e mesquinha, talvez esquecida de que minha função não é atender a galanteios e sim provocar, de modo transparente, processos de crescimento nos que me procuram – lembrando que, para tratar diretamente questões pessoais como esta, obtenho, antes, autorização dos Mestres Espirituais.

Afora casos de imaturidade psicológica crassa, como o que aqui tangenciamos, a correspondência (que começou sendo escrita psicograficamente, pela Mestra Espiritual Eugênia, e depois partiu para o processo de inspiração, sem direta condução da fraseologia – para que eu assinasse por mim mesmo o texto) versa sobre assunto que serve para todas as pessoas que, em algum nível, na relação com filhos, pais, cônjuges, colegas de trabalho ou amigos, etc., tentam, de alguma forma, torcer as situações em favor de seus interesses, descuidando do livre-arbítrio e das necessidades e aspirações alheias. Amiúde, tais personalidades complicadas agem de modo semiconsciente, porque acabam por se convencer de que são movidas de boas intenções (não é nada agradável ver-se como vilão de uma história, mas as atitudes revelam claramente quem é quem), ilusão esta que as leva a desenvolverem distúrbios de desconexão com a realidade, para não se enxergarem, nem às circunstâncias que vivem, como realmente são, por não lhes agradar a verdade. É exatamente esta a reação da criancinha de tenra idade que fecha os olhos para um veículo que vem em sua direção, pois, segundo a perspectiva narcísica e tosca de percepção da psicologia infantil, não querer ver ou cerrar os olhos equivale a fazer um evento deixar de existir. Cabe destacar: quem age como um bruxo ou bruxa, na vida de terceiros, é um bruxo ou bruxa, não importando quantos argumentos enfileire para justificar o injustificável, no vão intuito de se avaliar ou se declarar como alguém com muito boas intenções.

Curiosamente, os que assumem a postura “esperta” de tentar submeter e manipular, para levarem vantagem sobre os outros, além de se intoxicarem com as energias da maldade, que já os fazem infelizes, e de se consociarem a inteligências trevosas da outra dimensão de vida, que exploram suas fraquezas para mais os destruírem (em função dos interesses delas e não dos que, por sintonia, se tornam suas vítimas, como é muito justo aconteça), ainda atraem indivíduos (encarnados) que se aproveitam desse seu padrão doentio de comportamento.

Ilustrando com o caso mais simples desta jovem (embora talvez não seja precisamente o que esteja se passando com ela), no campo das ligações afetivo-sexuais: um homem que escolheu outra rota de relacionamento pode passar a utilizar-se dos favores sexuais da mulher rejeitada que insiste em subtraí-lo de sua nova companheira; com isso, ele se convence, cada vez mais, da desvalia da ex-parceira, que busca, a todo custo, reassumir o controle da situação – n’outras palavras: aumenta o grau de seu desinteresse e desprezo pela “desesperada”, que não respeita a si própria, nem ama a si mesma, não podendo, portanto, pretender amar a quem quer que seja.

Em suma, em vez de a “astuta” ganhar, como pensa, com a trapaça de agir por trás, perde o tempo inteiro, progressivamente e da pior forma, visto que poderia “partir para outra”, para uma relação mais madura, justa e saudável, onde houvesse equanimidade e afeto verdadeiros e não permuta de abusos e prejuízos. Como reza sabiamente o ditado popular: “o feitiço vira-se sempre contra o feiticeiro”.

Abaixo, extraídos os elementos que poderiam identificar a destinatária, a resposta que os Amigos Espirituais me inspiraram a lhe dirigir, solicitando fosse aqui publicada, para beneficiar um número maior de viciados em relações problemáticas, como é o caso das infortunadas e patológicas codependências que encharcam milhões de lares com dores inauditas, perfeitamente elimináveis, na medida em que aprendemos a nos amar e respeitar, para que possamos amar e respeitar os outros, e, então, exigir o mesmo de terceiros em relação a nós próprios.


A Carta Eletrônica:

Minha função, como sabe, prezada irmã em ideal, não é ser a voz acolhedora e agradável, e, no seu caso, acreditava mesmo que a Espiritualidade não tivesse interesse em me utilizar diretamente para esclarecer. Espero, assim, que me ouça quanto possível sem defesas do ego, para que aproveite melhor o que lhe posso oferecer.

Creio, primeiramente, que não existem soluções simples, para questões complexas, ainda quando nós mesmos é que as estamos complicando, porquanto tudo é simples na vida, em princípio. Dessarte, por estar envolvida num tecido de cristalizações emocionais autodestrutivas, há quase um ano, acredito que deva buscar auxílio profissional, indicando aqui a psicóloga Aline Rangel (facilmente encontrável em nossas palestras domingueiras), e procure ser fiel à terapia, numa periodicidade semanal.

Bom destacar, entretanto, de antemão, que ninguém pode estabelecer as bases de sua felicidade sobre outra pessoa ou sobre os vínculos que entreteça com alguém, muito menos os de natureza erótica. Quando isso acontece, a “perda” do relacionamento é sempre muito positiva a longo prazo, para aprendizado e amadurecimento da criatura, não importando seu nível de instrução ou idade, embora essas crises ocorram mais frequentemente na pré-adolescência e na adolescência, quando aprendemos a facear com naturalidade tal evento universal à condição humana.

Sugiro não consultar redes sociais a respeito do antigo companheiro, conforme disse fazer – isso apenas alimenta o que precisa ser sepultado e transformado, como tantas vezes devemos fazê-lo, no transcurso da existência, em vários setores de nossas vidas. O masoquismo (consciente ou inconsciente) do desprezo sofrido confirma, amiúde, crenças profundamente arraigadas de desvalia pessoal (desta e doutras vidas), e este ciclo vicioso precisa ser ferrenha e sistematicamente combatido, na luta por se firmar a estima de si mesmo. Sem autoamor, nunca poderá haver amor legítimo por ninguém, e sim jogos sutis de manipulação, ainda que acreditemos não estar fazendo jogos, ainda que as declarações (para si e para o mundo) sejam de amor puro e desinteressado, como as que costumam revestir o “amor” familiar – entre aspas, sempre que desaparecer o respeito pelo direito de o outro opinar, ser, sentir ou agir de modo diferente do que dele esperamos.

Por outro lado, alerto-a, en-fa-ti-ca-men-te, de que não haverá terapeuta, orientador espiritual ou Espírito de Luz que possa ajudar alguém, se este alguém não estiver aberto a isso, por, digamos, não querer o que se lhe oferece, mas, sim, esperar que haja um empenamento das leis da vida em seu favor e até uma subjugação da liberdade alheia de agir, ainda que erroneamente – desde que o outro seja adulto e não aja contra a lei.

A Luz do Plano Sublime vem, mas, como disse o Espírito Emmanuel, por Chico Xavier, “num cofre fechado não entra luz, nem mesmo debaixo de Sol a pino”. Portanto, quando não nos sentimos bem numa reunião de natureza espiritual séria e de boa conexão com as Faixas da Transpessoalidade, a responsabilidade é sempre nossa e demonstra um grave problema interno: de não havermos estabelecido a sintonia correta com a Esfera Superior de Consciência, que é a do coração, e não a do ego ferido ou da criança interior controladora, que desejam se curvem pessoas e situações, ao talante de sua vontade – ainda que, é claro, jamais aceitemos ou declaremos isso, até para nós próprios. Conforme asseverou Jesus, aos que foram por Ele abençoados, em Suas miraculosas e diversas curas: “Tua fé te salvou”. Assim, quanto ao fato de outra psicóloga não lhe ter inspirado simpatia, não crie a expectativa de que uma terapeuta, um Templo ou um Espírito Guia façam-se substitutos de suas decisões, nem, muito menos, caminho para submeter o livre-arbítrio alheio, porque o outro tem sempre liberdade de não estar conosco, independente do quanto lhe tenhamos feito de bem ou acreditemos amá-lo.

Essa sua experiência, a da desilusão afetiva (como todas as outras desilusões), repete-se vida afora, da adolescência à terceira idade, com todos os indivíduos: não controlamos nem somos proprietários de ninguém, por mais que adornemos nossos sentimentos possessivos com a aura de amor ou de espiritualidade, mesmo quando fazemos referência a elos ainda mais toldados de sacralidade, como os da maternidade e da paternidade. É necessário aprender a renunciar ao impulso controlador do ego, lembrando que felicidade parte de um princípio: fraternidade, solidariedade, serviço, e nunca pode começar bem, de fato, por laços romântico-sexuais – porque, quando acontece com esta feição, trata-se de uma pseudofelicidade, facilmente destruída pelos ventos das transformações existenciais, dos naturais entrechoques de personalidades e caracteres, exceção feita aos liames românticos que amadurecem para os de cunho espiritual, de compromissos de alma a alma.

Você tentou embelezar seu sofrimento incompreensível (que nada tem de trágico: é corriqueiro e assim deve ser tratado), com poesia e drama, quase culpando o criador do Facebook, após insinuar que a Espiritualidade Amiga não estava cumprindo Seu papel em confortá-la, apesar de tanto pedir ajuda, posando de vítima, quando, em verdade, está você se fazendo tirana de sua própria existência, por não conseguir exercer a tirania com os outros; está sofrendo por não lograr meios de definir um final pré-estipulado por você, para a crise que atravessa, em vez de se entregar aos sábios Fluxos da Vida. Ele já deveria estar em seus braços e não nos da outra” reclama. A outra é uma pessoa e ele também! Livres, como você! As escolhas dos outros lhes são direito inviolável. Por não estar podendo ser uma déspota na vida de quem você diz tanto amar (quanto mais queremos controlar alguém, menos amamos esse alguém – é lei psicológica inarredável), acaba você sofrendo além da medida cabível – não é de se estranhar.

É um clichê, mas acredito que, aqui, vale ser lembrado: quem ama liberta; não esperneia, nem filosofa, justificando-se e criando desculpas para uma dor sem sentido: por ver feliz o objeto de seu afeto, ainda que em circunstâncias completamente alheias ao seu ganho pessoal. Ninguém gosta de ser preterido, mas esta é uma vivência cotidiana e universal, tanto em grandes crises, quanto no dia a dia de todo ser humano. Quem sabe não seja este exatamente o motivo de você não ter, como afirmou, simpatizado com a outra terapeuta? Ela pode lhe ter recordado esta obviedade de almanaque.

Os laços conjugais ou afetivo-românticos satisfatórios podem ou não acontecer, em nossas existências físicas. Imprescindível ter em mente, todavia, que, no que concerne a contribuírem para o estado geral de nossa bem-aventurança, ocorrem eles como desdobramentos de um estado prévio de felicidade – e, inclusive, as pessoas são atraídas, em todos os espectros de interesse, por quem é completo e realizado, e não por quem está desesperado por alguém específico ou carente disto ou daquilo. Êxito afetivo-romântico não é sucedâneo para o preenchimento de vazios existenciais que somente nós mesmos podemos preencher, de múltiplas formas, mas todas elas com geratrizes em nossa própria individualidade.

Trabalhe, decididamente, para se sentir feliz, plena e realizada, numa boa relação consigo mesma, com a Espiritualidade, com Deus e com a humanidade, sem a prisão a ilusões românticas de qualquer ordem. E, então, quando irradiar esta segurança típica dos indivíduos que são senhores de seu próprio destino, não faltará quem deseje partilhar de sua intimidade, em vários níveis e espécies de ligação afetiva, mormente as não sexuais, que costumam ser mais sérias, profundas, verdadeiras, duradouras e satisfatórias – podendo, eventualmente, também redundarem em vínculos sexuais. As personalidades com maior sucesso em manter os amados ao seu lado não mendigam o amor destas pessoas. Doam-no a elas. E, se alguém se afasta, logo outrem aparece para ocupar a lacuna deixada, em melhor patamar de realização que o propiciado pelo relacionamento anterior, porque se há algo que falta na Terra é quem emane a energia sincera do amor, do autorrespeito genuíno, da autoestima legítima. Os componentes desta elite psicológico-espiritual passam pela vida requestados por todos, porque são fontes da linfa que todas as criaturas querem beber, mas que devem descobrir, primeiramente, dentro de si mesmas, já que, situando-a fora de si, nunca terão o poder pessoal de definir quando vão ou não nela dessedentar a sede fundamental de amor que está atrelada, inexoravelmente, à própria raiz da condição e essência de ser humano.

Muita paz,
Benjamin Teixeira de Aguiar.


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