(Um Caso de Projeto Ômega)

Benjamin de Aguiar,
pelo Espírito Amélia (1).

Havia acabado de chegar a casa, de um longo – porque varamos a madrugada – sarau mediúnico, digamos assim, em que recebi mensagens de caráter pessoal para 11 componentes de nossa Organização (alguns integrantes da Equipe Diretiva), além de outras orientações, de cunho coletivo. Ao todo, 103 dados (2) a que, de modo algum, eu teria como ter acesso (o que era óbvio não só para mim, que me fazia canal consciente – e é correto que assim seja – de tudo que se passava em torno e através de minha pessoa, mas, igualmente, para quem era destinatário das missivas faladas do Além-túmulo), num encantador espetáculo de evidências da imortalidade da Alma e da generosa Assistência a todas as áreas de nossas vidas, que os bondosos Guias Espirituais nos prestam, dirimindo-nos dúvidas íntimas, confortando-nos em nossos conflitos e dramas ocultos, com lúcida inteligência e espírito de caridade terna.

Terminava de lavar o rosto e as mãos, quando ouvi um ruído de chacoalhar delicado de medalha e corrente (das que se usam dependuraras ao pescoço), e então percebi, logo mais, a imagem e presença dela…

Amélia (1) apresentou-se, sorridente e radiosa, em ótimo aspecto – os anos pareciam não lhe ter passado: 20 anos desde seu desencarne, ela própria, na época, contando vinte de idade. Pediu-me para ligar o computador, porquanto fora autorizada a enviar uma “Carta Aberta aos Encarnados”, pelos Mentores desencarnados da Casa. A boníssima Mestra Espiritual Eugênia, consultada por mim, confirmou-me a informação – lamentavelmente, nós, médiuns, devemos tomar tais precauções, em lidando com a Outra Dimensão de Vida, prenhe de complexidades e perigosos meandros, não só externos, como interiores à própria psique do medianeiro, até para os mais experimentados, no intercâmbio entre os “dois mundos”.

Seguem-se as palavras da doce, graciosa e bem-humorada moça do Plano Sublime, que a todos encantou enquanto viveu neste âmbito carnal de existência, deixando uma marca de impacto e saudade impreenchíveis nos que a conheceram e amaram.

Fui uma jovem muito certinha. Bem-comportada em casa, obediente a meus pais, professores, tutores. Meu mundo era linear, mas julgava-o “perfeito”, e nele me comprazia, sentindo-me segura: eu só precisava seguir as regras, e tudo correria bem, sempre… ou, ao menos, assim eu acreditava que o mundo e as coisas funcionavam.

Intuía a preciosidade da existência física, mas como uma vaga impressão íntima, sem me dar conta, claramente, que retornaria, tão cedo, à pátria espiritual. No lar, eu era orgulho e referencial para as irmãs mais novas; na escola, igualmente, o paradigma da aluna que deveria ser copiada por todos (risos). Entre os rapazes, não fazia propriamente sucesso (o que meu temperamento muito voltado aos deveres da Vida deveria inibir), mas era cobiçada por alguns meninos que mais me idolatravam do que me desejavam como mulher, talvez também porque não fosse mulher ainda, ou porque eles, outrossim, não fossem homens completamente, por aqueles dias.

O “ginásio” (3) me traria surpresas. Alguma margem de liberdade… que, ao passo que agradava a quase todos, perturbou-me deveras – sempre preferi seguir as regras, como disse. Estava assustada com a nova realidade, embora não deixasse claro isso para ninguém, nem para mim mesma.

Foi quando, de fato, comecei a aceitar a corte de alguns pretendentes. Entre eles, lamentavelmente, meu caro Nando (1), aquele que viria, anos mais tarde, num ato de tresloucamento, subtrair-me a existência física, quanto a dele próprio, em seguida, na clássica cena do “crime passional” – homicídio seguido de suicídio. Não poderia ser “possuída” por outro, já que não continuaria como “posse” dele.

Passados vinte anos, vejo que a vida continua, para todos, inclusive para Nando, mas de forma angustiante, ainda (no caso dele). Dotado de algumas intercessões poderosas, foi retirado, após uma década de martírio indescritível, da região de sofrimento extremo em que se encontrava. E, recentemente, teve autorização, quase duas décadas depois do fatídico evento, de me entrever, sem sequer me tocar num cumprimento formal, e comigo trocar algumas palavras, por pouquíssimos minutos, ambos acompanhados de Instrutores Espirituais. Ele não teria direito a mais outro encontro, antes de partir, como acabou de fazer, para uma reencarnação dolorosa, em que terá que padecer os vexames da deficiência cerebral, em função das lesões trazidas no cérebro perispirítico, após o disparo da arma de fogo, em estado de muita culpa e desespero, contra si mesmo e contra mim, a quem tanto protestara amor eterno… Voltará à Terra, mas como uma pessoa em “condições especiais” – nada do brilho ou do carisma, da alegria (com certo toque sinistro no olhar) ou do poder de sedução que lhe eram tão típicos.

Nando era pouco mais velho que eu – na época do início de nosso relacionamento, um abismo etário para minha visão: meio decênio. Para meus pais e para mim mesma, com o tempo, porém, tornou-se evidente ser um menino birrento e voluntarioso, em corpo de homem, que deveria ser evitado… e temido. Mas, não esperava que suas ameaças (apesar de temê-las) fossem se concretizar do modo trágico, para minha família e, principalmente, para a ele próprio e seus familiares.

Acompanharei Nando de cá. Meu tempo de existência física estava programado a ser curto. Nada fora de hora. Tudo em perfeita consonância com os Desígnios de Deus. Serei uma espécie de guia espiritual para ele, um anjo de guarda, como ele, inconscientemente, queria fazer-me, quando juntos estávamos no corpo de carne. Insuflar-lhe-ei, quanto me for possível e na medida em que ele se fizer receptivo, pensamentos e sentimentos bons, os melhores ângulos de observação dos eventos, das pessoas, de si mesmo.

Não reencarnarei neste século. Ele, por sua vez, não se deverá demorar muito encapsulado no corpo-prisão que o alojará, para que aprenda respeito à própria e à vida de terceiros, de modo que, quando voltar ao Mundo Espiritual, em algumas décadas, aí, sim, poderemos conviver por alguns anos, numa cidade de nosso Plano e planejar o futuro relacionamento a dois, no domínio material de existência, em circunstâncias mais tranquilas, mais felizes.

Estou esperançosa. 1984 foi o ano que poderia ter sido o marco inicial de nossa felicidade conjunta. Era grande, porém, a probabilidade de que ele viesse a destrambelhar o juízo – ambos estávamos informados disso, antes de reencarnarmos, em torno do ano de 1970: ele antes, eu pouco depois. Todavia, ainda que Nando não houvesse desatinado como lhe ocorreu, em 1991, teria eu desencarnado inevitavelmente, num espaço de, no máximo, três meses, em um desastre aéreo ou automobilístico. Minha estada breve na superfície do globo, dessa feita, era garantida. Eu poderia ser o “anjo protetor” dele, já agora, enquanto ele desfrutasse da felicidade afetiva e familiar com outra moça. Eu não pertenceria a outro homem, realmente, mas ele julgou que tal decisão estivesse em seu poder – não estava. Por conta deste desejo enlouquecido de me possuir e controlar, sequer poderá me ver, afora o contato breve que citei, pelo espaço de praticamente 100 anos, pois que, enquanto o estiver inspirando, encarnado, não será ele dotado de mediunidade ostensiva para perceber-me a imagem ou ouvir-me de modo direto.

De minha parte, estou feliz. Aqui, no plano em que me encontro, não sinto o romantismo ou o desejo de me consorciar em casamento com ninguém, embora isso me fosse permitido. Um rapaz me fez a corte, mas eu declinei. Prefiro o convívio dos professores, em sala de aula. Continuo estudando, em parte do meu tempo, e, noutra fração dele, desço à Crosta terrena, para inspirar professores do ensino fundamental, em sala de aula também… Em suma: sou realizadíssima, como nunca imaginaria, em minha vida breve sobre a terra firme, por uma rota que nem de longe poderia conceber, quando, estudante de Engenharia Civil, supunha que consumiria longos anos edificando construções no âmbito físico. Agora, auxilio na edificação das almas, caracteres e personalidades, induzindo, aqui ou ali, profissionais da educação a pincelarem ideias e valores dignos a seus sensíveis e receptivos discípulos.

Feliz por poder me comunicar novamente, com Autorização Superior,

Amélia.
Aracaju, 29 de junho de 2011.

Antes que se fosse, perguntei à nobre visitante se desejaria deixar mais alguma mensagem, lição de vida ou sugestão aos que jaziam no domínio material de existência. Amélia apenas disse, com singeleza e didatismo:

Que vivam suas vidas com o máximo de critério possível no trato uns com os outros. A amizade, a fraternidade, o carinho que partilhamos com entes queridos e mesmo com estranhos, dos gestos mínimos aos maiores, são extremamente contados do Lado de Cá, além de nos fazerem muito bem, enquanto permanecemos na carne. Ninguém suponha, por outro lado, que possa ludibriar a Vida, com manobras astutas de levar vantagem sobre os outros, prejudicando-os, porque isso retornará, inelutavelmente, em sua direção, mais cedo do que pensa.

(1) Os nomes reais das personagens foram trocados, para lhes preservar a privacidade, bem como de seus entes queridos biológicos, ainda encarnados.

(2) Concluída a recepção desta mensagem, o dia já amanhecera de todo, e me senti à vontade para fazer um contato telefônico com Delano Mothé, meu amigo-irmão, revisor das mensagens deste site. Eis que, então, a Espiritualidade Amiga se manifestou novamente por meu intermédio, entrando em minúcias do que acontecera com o companheiro em ideal, na Cidade de Nossa Senhora da Glória, no interior do Estado (onde trabalha ele e passa parte da semana), aditando mais 3 informes que não eram de meu conhecimento aos 103 que recebera em casa de Úrsula. O cômputo total então, foi de 106 informações que eu não tinha acesso, e que os Bondosos Orientadores Espirituais se dignaram misericordiosamente transmitir por meu intermédio, confortando e esclarecendo a Delano e a todos os convivas do banquete de Luz no apartamento da irmã em ideal, no decorrer da madrugada.

(3) Período que compreendia as antigas 5ª e 8ª séries, correspondentes, hoje, aos quatro últimos anos do ensino fundamental: 6° ao 9°.

(Notas do Médium)