Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.


Deu-lhe este preceito: “Podes comer do fruto de todas as árvores do jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente”.

(Gênese, 2: 16-17)

O Senhor Deus disse à mulher: “Por que fizeste isso?” – “A serpente enganou-me, respondeu ela – e eu comi.”

(Gênese, 3: 13)

Porei inimizade entre ti e a mulher; entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá na cabeça e tu a ferirás no calcanhar.

(Gênese, 3: 15)

Como viesse a falta de vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse então sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser”.

(João, 2: 3-5)

Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: “Mulher, eis aí teu filho.” Depois, disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe.” E, dessa hora em diante, o discípulo a levou para a sua casa.

(João, 19: 26-27)

Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo, que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espíritos Santo (…).

(Atos dos Apóstolos, 2: 1-4)

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher vestida de sol, a lua debaixo dos seus pés (…) Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar a luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho (…). Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, Lhe devorasse o Filho. (…) O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. (…) Eu ouvi no céu uma voz forte que dizia: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza de nosso Deus, assim como a autoridade de seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos (…)”

(Apocalipse, 12: 1-10)

A transcendência é função feminina, assim como o ideal, a fé, a esperança, o amor. Tratamos aqui, para esclarecer melhor nossas intenções, não propriamente da mulher ou do homem, mas, mormente, do Feminino e do Masculino. Tudo que rasteja no chão, a horizontalidade, o “terra-a-terra”, o objetivo, o lógico, o pragmático constituem funções do masculino: a serpente que tentou Adão e Eva a comerem do fruto do conhecimento. Sem pretender demonizar o masculino, e, com isso, reverter o fluxo histórico de condenação de um pólo psicossexual, em favor da exaltação de outro, o que constituiria terrível engano, já que o ser humano transcende à dicotomização sexual; e, outrossim, por considerar a “queda” de Adão, como uma experiência capital e indispensável de crescimento interior, porque, assim, adquiriu discernimento, podemos, por outro lado, dizer, com toda segurança, que o retorno às origens, num nível mais alto de consciência, ou seja: a síntese dialética histórica, no processo evolutivo da humanidade, em que não mais seremos matriarcais, como no passado primevo de nossos ancestrais, nem submetidos aos ditames do patriarcalismo, como tem acontecido nos últimos milênios, mas em que viveremos a fusão salutar e rica de valores de ambos os lados do par de opostos, precisaremos, sim, colocar-nos sob a influência do Feminino, porque será ele, simbolizado na “Mulher”, que encontraremos a salvação desejada do desequilíbrio de forças por que enveredamos há milênios.

Se observarmos atentamente, a serpente, muito embora em diversas culturas constitua uma metáfora do feminino, aqui claramente representa o masculino, como um símbolo fálico, assim como o diálogo pérfido da serpente com Eva bem retrata a lábia sedutora do homem, cooptando o coração e o corpo femininos para seus interesses baixos, reptilianos, rastejantes como a serpente. É curioso notar, como até hoje as mulheres, além de constituírem percentual significativamente menor da população carcerária do planeta, em sua expressiva maioria aquelas que enveredam pelo crime foram aliciadas por seus pares masculinos, não lhes resistindo à sanha manipuladora e pervertida. A mulher, portanto, é a verticalidade da presença de Deus e da Espiritualidade na Terra, tanto quanto o homem, e, principalmente, o masculino, representam o perigo da excessiva horizontalidade e materialidade das perspectivas humanas que ainda impera na civilização terrícola. A guerra, a fome e toda ordem de desgraças no orbe, normalmente têm sido geradas e nutridas por iniciativa masculina. Ao passo que na mulher e, precipuamente, no feminino, residem a reserva e a fonte de todo o bem para a humanidade, desde a doçura do carinho materno até o freio que exercem as profissionais éticas e comprometidas à ganância de seus pares masculinos, no mundo profissional.

Como foi vítima da astúcia masculina, Javeh decide-se por pôr uma força oposta poderosa à ação do Mal, enfeixada na serpente, dentro da geração feminina. Aqui, podemos compreender tanto uma conclamação do Alto à responsabilidade feminina de humanizar e espiritualizar todas as relações, instituições e agrupamentos humanos, como também como uma revelação soberana sobre quem seria o maior Cristo da História, que poria fim ao império do mal em nosso planeta: aquela que foi a Mãe do “Verbo Encarnado”. Interessante notar que Javeh não diz que poria inimizade entre Adão e sua geração, já que Jesus, numa linguagem mística, esotérica, seria o “Segundo Adão”, o “Anthropos”, e sim entre a “serpente” e Eva, e sua geração, Maria, metaforicamente a “Segunda Eva”, aquela que de tal modo viveria a verdade divina em seu coração que Ele (simbolicamente, é claro), far-se-ia carne em seu ventre. Por isso, foi Ela quem, nas “Bodas de Canaã”, iniciou o Cristo em Sua missão, função sempre reservada aos mestres. Eis, inclusive, que Jesus demonstra, naquela ocasião, estar confuso e lhe fazer uma consulta (preso que estava aos parâmetros moralistas e maniqueístas de um bom e clássico paradigma patriarcal) ao que Ela, com a resposta do silêncio-ativo, esclareceu com um comando para toda a Humanidade: ouvir e viver as palavras de Jesus, Seu Emissário no mundo, já que, à época, uma mulher nunca seria ouvida.

Não por acaso, outrossim, dirige-se Jesus a Ela, nesta como em todas as passagens de Seu Evangelho, como “Mulher”, para deixar claro de que ela era “A” mulher que fora prometida por Javeh, como aquela que “feriria a cabeça da serpente”. Por isso, foi Ela quem, enquanto Jesus era supliciado na cruz e fazia o rito de se mostrar desesperado (já esclarecemos esse evento em outro capítulo de nosso estudo), mantinha-se imbatível a Seus pés, sem chorar, sem se lamentar, inalteravelmente segura e serena, a encarnação de Sophia, a Sabedoria, face feminina mística de Deus. Era esta a intenção do Cristo: enquanto demonstrava ao mundo como o aspecto Pai de Deus nos “abandona” periodicamente, Seu aspecto Mãe sempre vela por nossas dores, como fazia Maria, naquele instante sagrado. Assim, Jesus chamava a atenção dos povos para a importância de Maria, a enviada máxima de Deus para a Terra, assim confiando toda a humanidade a Seus cuidados, no momento em que, metaforicamente, na pessoa de João, todos nós fomos depositados sob a inspiração e proteção da Grande Mãe.

Não por outra razão, outrossim, foi sob a guarda d’Ela (estava morando com João, desde a crucificação de Jesus) que, quando todos os apóstolos, acovardados, escondiam-se, após os trágicos acontecimentos da “paixão”, receberam o “Espírito Santo”, no Pentecostes, ou seja: sintonizaram-se com o padrão de consciência do Cristo, assim como acontecera ao próprio Jesus, quando também sob Sua guarda augusta, no passado, de modo que, em pouco mais de quarenta dias (*) sob Sua influência, todos os Apóstolos saíram a fazer tudo que o Cristo fazia e lhes pedira fazer, sem sucesso, no correr de três anos. Porque, afinal de contas, Ela era a Mestra e iniciadora de todos.

Não à toa, bom lembrar também, é que é quando “desce” Ela dos céus, alusão à chegada de seu império direto sobre o mundo, que o Cristo tem poder de prevalecer e ocorre o advento da “salvação”, nos dizeres do Apocalipse. Ela que tinha a lua sob seus pés, outra referência alegórica à “serpente”, que lhe estava submetida, vencendo assim o Dragão do Mal, para a vitória definitiva do Bem sobre a Terra…

Maria, Nossa Mãe Maior, Maria Cristo, é o Símbolo Vivo, a “encarnação” da Feminilidade Divina entre nós, mostrando-nos como, após as tragédias e a falência do masculino na cruz, podemos encontrar Deus, por outras vias, mais suaves, mais profundas, mais amorosas: as vias do coração feminino, da confiança irrestrita, da esperança imorredoura, da fé inabalável no interminável Amor Divino.

Maria, Nossa Mãe Maior, representa, para todos, a Infinita Bondade de Deus, que nunca nos abandona, ainda que os aspectos (“masculinos”) da Verdade ou da Justiça Divinas, em alguns momentos, pareçam relegar-nos ao desamparo.

Maria, Nossa Santíssima Mestra, Preceptora de Jesus, representa o norte de silêncio e verdade na ação, a nos mostrar que devemos falar menos e viver mais o Ideal Cristão, em nossos corações e no seio de nossas vidas. Jesus era o Verbo. Ela era a Vida que gerava o Verbo. Vivamos Maria. Vivamos Deus, no amor e na paz, hoje e sempre!…

(Texto recebido em 11 de abril de 2004.)

(*) “Pentecostes”, em grego, significa “quinquagésimo”, ou seja o dia-50, após a Páscoa.

(Nota do Médium)