Assuntos polêmicos

15 de fevereiro de 2008
 

Diálogo sobre o Apaixonar-se.

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Temístocles.

(Benjamin) – Temístocles, o que é o apaixonar-se? As pessoas procuram tanto esta experiência, como um equivalente da felicidade ou mesmo um símbolo do ápice da realização humana.

(Temístocles) – Apaixonar-se, no sentido de enamorar-se intensamente de alguém, constitui um processo neurofisiológico de desativação parcial das funções de certas regiões nobres das circunvoluções cerebrais, de modo que o senso crítico fica eclipsado e a criatura sob seu efeito faz-se sem condições de perceber fidedignamente fatos e de avaliá-los com clareza. É por isso que, freqüentemente, quando alguém se vê subjugado por seus tentáculos, não logra enxergar obviedades a respeito do objeto de seu interesse maior, ao passo que todos mais (ou quase todos), de seu círculo de amigos e familiares, observam-nas com nitidez. O apaixonar-se tem, como escopo original, gerar um ofuscamento da razão, para que os fins de procriação sejam atendidos, até por intelectos lapidados (então empanados). Por conta desta vinculação intrínseca ao processo reprodutivo, a duração da paixão chegou a ser estimada entre 1 e meio a três anos e meio – tempo suficiente a que o casal venha a copular, parir e cuidar dos primeiros momentos de vida da cria. Todavia, dada a complexidade do ser humano – em particular, no seu nível atual de civilização, no orbe –, o fenômeno do apaixonar-se pode acontecer em situações intrincadas, que não correspondem mais ao seu projeto biológico-evolutivo primordial, como a paixão por pessoas do mesmo sexo ou mais velhas (não mais férteis), que naturalmente não podem atender aos apelos da reprodução, como resultado deste encantamento de base neurofisiológica.

(B) – Mas a paixão não pode ser boa?

(T) – Sem dúvida, mas, quando você assim se refere à paixão, está aludindo ao entusiasmo, à automotivação em empreender certa tarefa, em desempenhar determinada função. Isso não é a paixão no campo afetivo-sexual a que me reportei acima. A confusão decorre de uma questão de semântica. O vocábulo é aplicado para especificar dois estados psicológicos inteiramente distintos.

(B) – A paixão, como este surto romântico, pode, em alguma circunstância, ser considerada saudável?

(T) – Pode ser natural no transcurso da adolescência, mas não na fase adulta, indicando, nesta hipótese, um traço de imaturidade para a vida relacional, que comprometerá severamente o sentimento de completude do indivíduo. Os adolescentes, entre 14 e 19 anos, desmontam (e remontam) praticamente 50% de suas ligações sinápticas. Ou seja, quase desconstroem (e reconstroem) o cérebro, enquanto sofrem, concomitantemente, a mais aguda explosão de hormônios de suas existências. Não é de estranhar que padeçam delírios acordados, volta e meia. Contudo, a idolatria ao padrão jovem de conduta, em vigor na cultura ocidental contemporânea, fez com que surgisse a ocorrência que recentemente se convencionou denominar “monogamia serial”, aquela que tipifica os que são fiéis a seus parceiros, mas que os trocam, a cada período de dois ou três anos, ao bel-prazer dos “humores” da paixão. São intensos e inteiros em seus relacionamentos; no entanto, quando o calor da novidade se esvai, imediatamente perdem o interesse no parceiro e concluem por romper a relação. E, destarte, apaixonam-se novamente por outra pessoa, repetindo todo o ciclo de descarga extravagante de endorfinas na corrente sangüínea e de desarranjo no funcionamento encefálico. Os anos passam, dobrando sobre si, consecutiva, implacavelmente, e estes indivíduos não logram atingir profundidade afetiva com ninguém, em nenhum relacionamento. Vivem, ano sobre ano, década sobre década, na superfície da garimpagem do amor e da bem-aventurança, sem nunca, com isso, poderem alcançar a gema preciosa da completa realização íntima.

(B) – Temístocles, e o que fazer para ajudá-las?

(T) – Falar com elas, quando houver oportunidade, em tom esclarecedor – quanto possível, com calma –, e orar, à distância.

(B) – Às vezes, na minha opinião, parecem desenvolver comportamento similar aos vitimados pela “Síndrome de Estocolmo”…

(T) – Sim, quando se sentem dependentes financeira ou emocionalmente da personalidade que é foco da atenção erótica. Nestas circunstâncias, é tão assustador, para o indivíduo, enxergar a verdade, que ele prefere aceitar as teses confeccionadas por racionalizações bem forçadas, às vezes bizarras ou estapafúrdias, que lhe servem de alimento para a relativa sanidade mental, em meio a conflitos muito fortes de temperamento com o companheiro.

(B) – Como detectar que um relacionamento romântico não é muito sadio?

(T) – Quando há brigas constantes, quando há desrespeito a princípios ou valores do outro, quando o casal só fica bem ao fazer sexo, quando um dos dois ou ambos se colocam contra evidências factuais, ignorando a opinião de familiares e/ou amigos que o(s) conheçam bem, e acompanhem o que se passa com ele(s).

(B) – Algum desses itens é mais grave?

(T) – Talvez pudéssemos destacar os atritos constantes entre os amantes. Discussões amiudadas costumam sinalizar o início do fim de uma união romântico-sexual de qualquer nível. Se não há respeito e harmonia, se os conflitos se intensificam, eclodindo em confrontos freqüentes, o relacionamento não é saudável, como também está com os dias contados; e, quando não acaba de modo humanamente razoável, pode chegar a terminar por meio de uma tragédia passional. Os casais não devem banalizar seus embates, e, sim, se empenhar sinceramente por dissipá-los, para viverem, quão possível, em regímen de paz e de felicidade.

(B) – Mas podemos generalizar, dizendo que, por haver paixão, um relacionamento necessariamente está fadado ao fracasso?

(T) – Claro que não. Há inúmeros casos de pessoas que iniciaram suas vidas amorosas de forma intensa (nos dois sentidos) – às vezes oscilando entre um extremo e outro, na gangorra da depressão/elação, ou do êxtase/desesperança –, mas que, paulatinamente, souberam burilar suas diferenças, construindo relações maduras, lastreadas no interesse genuíno de estar com o companheiro, em afinidades profundas de valores e metas existenciais, tanto quanto alicerçadas em respeito mútuo, no desejo sincero de fazer o parceiro feliz, além de contarem com a indispensável admiração recíproca. O grande teste, porém, é o da superação do tédio, do desânimo que se segue ao vulcão inicial de sensações e empolgações; de atravessar a fase da desilusão, que vem após a quebra do encanto típico dos primeiros momentos da dança romântica do psiquismo de ambos. Esta transcendência do fastio romântico, digamos, vem com a edificação de pontes emocionais (e conceituais) entre os consortes, em níveis mais profundos de sentimento e empatia, à medida que os incentivos de comunhão mais rasteiros e meramente emocional-sensoriais naturalmente se diluem com o tempo.

(B) – Para os menos experientes, estas suas últimas assertivas – creio eu – podem soar como apologia a uma vida afetiva monótona, quase entre irmãos, com sexo sem graça e semi-incestuoso.

(T) – Sim. Para mentes menos amadurecidas, isso realmente pode acontecer (e ocorre muito). Para clarear um pouco este patamar do raciocínio, que torna a temática abstrata ou subjetiva demais, vou utilizar uma metáfora que facilite a tradução do, em tese, intraduzível em linguagem humana (só os que já viveram o que estou afirmando podem, de fato, compreender o que assevero). Imaginemos uma produtora cinematográfica que opte pela inclusão de maior quantidade de cenas de sexo e violência, com o intuito de aumentar a bilheteria de seus filmes, em vez de aprimorar roteiros, o desempenho dos atores, a tessitura de iluminação, fotografia e efeitos visuais, bem como a qualidade das trilhas sonoras. Podemos dizer que filme mais prazeroso e satisfatório é o que contém mais cenas obscenas e de pancadaria? Há quem prefira (e se satisfaça) apenas com emoções intensas e primitivas. Para psiques mais complexas, entretanto, isso jamais será o bastante. É por este motivo que a maturidade, quando realmente galgada, acarreta um vazio indefinível (e impreenchível), a envolver e pervagar toda vivência meramente sensorial-passional, levando o indivíduo a se cansar delas, para que, então, busque, em seus relacionamentos interpessoais, mais conteúdo, consistência, coerência, propósito, sentido para viver…

(B) – O que mais pode ajudar o casal a se conduzir nesta crise de transição?

(T) – Terapia de casal, atividades religiosas ou espirituais partilhadas, manutenção dos laços afetivos com amigos e familiares (para não sufocar o parceiro e desgastar a relação, com exigências concernentes aos outros âmbitos de necessidade afetiva), além de porfiado trabalho de autoconhecimento, autodomínio, com muito amor pelo companheiro, mas amor mesmo: que implica responsabilidade por seu bem-estar geral e contínuo desejo de fomentar seu progresso, a fim de que ambos cresçam em equilíbrio dinâmico – se não é exeqüível o estático (já que os ritmos e os sentidos de crescimento dos dois dificilmente acontecem paralelamente) –, na magnífica coreografia do amadurecimento psicológico de cada um, em particular, e do casal, como um todo. Assim, não precisarão apartar-se da relação, para reiniciar a vida amorosa com terceiros, porque terminarão o relacionamento várias vezes e o recomeçarão novamente, com o mesmo cônjuge, não carecendo buscar alhures o que está dentro do próprio coração, projetado, refratado e distorcido, no espelho que constitui a presença do próximo mais próximo: o parceiro de alcova.

(Diálogo mediúnico travado em 15 de fevereiro de 2008. Revisão de Delano Mothé.)




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