Diálogos com outros Espíritos

19 de junho de 2007
 

Diálogo com o Irmão Chico (*1).


(A controversa e curiosa conversação com um famoso médium desencarnado)


Benjamin Teixeira,
em diálogo com o espírito
Irmão Chico.

(Benjamin) – Irmão Chico, qual a maior virtude a ser desenvolvida, na sua opinião?

(Irmão Chico) – Paciência, com fé em Deus e muito serviço ao bem comum.

(Benjamin) – A qualidade que mais as pessoas supõem deva ser desdobrada, e que não é tão necessária?

(Irmão Chico) – Inteligência.

(Benjamin) – Verdade?

(Irmão Chico) – Falo de inteligência distinta de sabedoria. Os valores do intelecto são sempre respeitáveis, favorecendo as conquistas da indústria, da ciência e do progresso humano, como um todo. Mas não é tão importante para o crescimento do espírito, quanto se costuma imaginar. Muita inteligência, com pouco sentimento, conduz a vida do indivíduo e de comunidades inteiras à beira do colapso ou de lamentáveis experiências de devassidão e violência. Nunca será demais lembrar que Nosso Senhor nos recomendava amarmo-nos uns aos outros, servirmo-nos uns aos outros, perdoarmo-nos uns aos outros, a todo momento.

(Benjamin) – O que mais as pessoas deveriam pedir em prece?

(Irmão Chico) – Longas existências materiais. Quanto mais vivemos no corpo físico, com todas as abençoadas limitações que padecemos quando encarnados, mais amadurecemos para a eternidade. Geralmente, apenas quando se chega ao plano espiritual, tem-se uma noção completa do valor inapreciável de estar jungido a um corpo de carne. Reencontramos velhos companheiros de antigas existências, com quem tornamos a entretecer elos de fraternidade ou dar continuidade a tarefas inacabadas – parceiros esses com quem dificilmente lograríamos nos relacionar e, mormente, usufruir da oportunidade de conviver, na condição de desencarnados, pelas naturais diferenças vibratórias que nos definem as personalidades, do ponto de vista de adiamento espiritual alcançado por cada um.

(Benjamin) – Você conseguiu aproveitar bem o tempo que usufruiu na última encarnação?

(Irmão Chico) – Não me agradaria falar de mim.

(Benjamin) – Desculpe-me insistir, mas o exemplo e o testemunho pessoal edificam com muito mais eficácia e persuasão. Não responda, então, se julgar inconveniente a pergunta: Qual a característica de sua personalidade e conduta que, em sua visão, mais o beneficiou nesta última existência física?

(Irmão Chico) – O trabalho em prol do bem comum. A caridade, seja moral ou material, tem um poder de gerar bênçãos na vida das pessoas tão grande, que sinto ter feito muito pouco, ante o que poderia fazer, por Jesus, pela nossa amada Doutrina e pelos meus queridos confrades, tanto quanto pelos simpatizantes de nossa causa e sofredores de variada natureza, que me procuravam, na vã expectativa de encontrar uma alma que não era, nem sou ainda.

(Benjamin) – Você falava muito em ter vergonha de haver sofrido pouco. Além de anacrônico, esse discurso parecia incoerente: você foi um exemplo de resignação e humildade, em meio a provas acerbas…

(Irmão Chico) – Meus modelos, entretanto, padeceram muito mais do que eu poderia sequer esboçar conceber. Convivi com grandes mártires do Cristianismo primitivo, não só naquelas recuadas épocas de nossa era, quando fora um espírito ainda mais carente das virtudes cristãs do que hoje, como também tive a honra de contatar tais vultos santos (embora a maior parte deles toldada pelo anonimato) nos períodos entrevidas; de modo que, ao descer à última reencarnação, recebi-lhes o inestimável beneplácito. Estar sob patrocínio destas entidades de escol constituiu inapreciável favor ao meu espírito endividado, para a realização da tarefa que me foi delegada, por mercê da Misericórdia Divina, mas também um grande fardo para minha consciência em culpa, por muitas reencarnações perdidas. Recebi, para reforçar ainda mais a angústia terna que me obscurecia o coração em torno da temática em foco, a promessa de que, em saindo vitorioso da passagem terrena que desfrutava, partilharia com eles da esfera de sublimidade em que viviam. Assim, à medida que os anos passavam e sentia-me a termo da reencarnação, com uma ficha de serviço no bem que, por assistência dos benfeitores espirituais, fazia-se relativamente longa, amedrontava-me ante a perspectiva de reencontrá-los, sem as credenciais que julgava imprescindíveis a tal encontro excelso.

(Benjamin) – Reencontrou-os?

(Irmão Chico) – Sim.

(Benjamin) – Convive com eles?

(Irmão Chico) – Estabeleci um acordo com os Grandes Agentes da Luz que me supervisionaram a alma enferma, na recentemente encerrada existência orgânica: visito-os com freqüência, mas, como não me sinto à altura moral, realmente, de com eles conviver, desço sempre à Terra, em socorro dos muitos filhos do coração que deixei, tanto sobre a crosta, quanto em regiões do astral vizinhas a ela. Deste modo, sinto-me em paz. Nem deixo de ser grato à piedosa hospitalidade dos Amigos Sublimes, nem me privo de viver a labuta diária de que careço, como ser revel das Leis Divinas, por tantos séculos.

(Benjamin) – E a história da senha: por quê?

(Irmão Chico) – Por ordem de nosso severo orientador espiritual Manoel, com isso pretendendo o Amigo evitar que uma legião de oportunistas se aproveitasse de nosso nome e trabalho, para disseminar idéias apócrifas a respeito da Doutrina e de nós mesmos. Depois de uma vida de excessiva exposição pública, pretendíamos um pouco de privacidade e recato em nosso estágio no além-túmulo. Não queremos nenhuma obra literária ostentando muito claramente nossas identidades em público.

(Benjamin) – Então, há textos que não são originalmente seus.

(Irmão Chico) – Sim. Manifestações mediúnicas que são até autênticas, no sentido fenomenológico, mas não da minha pessoa.

(Benjamin) – Todos que foram publicados com seu nome, abertamente, são fraudes?

(Irmão Chico) – Não quis generalizar. Disse que pretendíamos evitar. A teimosia de alguns médiuns, porém…

(Benjamin) – Teimosia?

(Irmão Chico) – Não quero comentar mais, desculpe-me. Devemos ser discretos sobre os problemas de nossos irmãos. O importante é que são grandes trabalhadores, e que prestam relevante serviço aos sofredores do mundo. Jesus sabe aproveitar cada obreiro, no que tem de bom, e aguarda, dos séculos, o aprimoramento de suas almas, que acontecerá, malgrado todas as suas sucessivas reincidências. Há uma certa fibra de indivíduos, todavia – pede dizer, agora, o espírito Manoel (*2) –, que apenas está interessada em holofotes e escândalos: são um grande entrave ao andamento da Doutrina, e uma severa justiça os aguarda, embora possam encontrar confrades tão desatinados quanto eles, para lhes endossar a atitude raivosa, caluniadora e destrutiva. A inveja e o ódio se lhes instalaram nos corações, e seguem enlouquecidos sem disso se darem conta. Oremos por eles.

(Benjamin) – O que podemos entender de dificuldades, marchas e contramarchas de líderes do movimento e do próprio movimento espírita?

(Irmão Chico) – Os termos para esta resposta me serão ditados pelo caro amigo Manoel, que me ajudou a concluir a fala anterior, e que comigo trabalhou arduamente, pelos canais mediúnicos de que eu era portador, no plano físico de vida. O querido benfeitor julga dever fazê-lo, pois compreende que palavras mais duras serão necessárias, no trato da questão abordada pelo estimado irmão em ideal. Cada época tem seus desafios e suas virtudes, tanto quanto suas deficiências mais pronunciadas. O importante é que façamos o máximo que nos esteja ao alcance e sejamos fiéis, quanto possível, à própria consciência. Nada acontece por acaso, como o ditado popular disseminou e consagrou, na mentalidade brasileira. Às vezes, os erros parecem afigurar-se maiores (e de fato até se fazem avultados), para se demonstrar que um modelo se esgotou e que urge buscarem-se novos. Com todo respeito às nossas tradições, sobremaneira à obra intocável do mestre lionês, imprescindível a renovação de nosso movimento e de nossa Doutrina, que, conforme estatuído na própria obra kardequiana, devem acompanhar o progresso da ciência e da cultura humanos… Assim, é como se um paciente ficasse gripado, para que, indo ao hospital fazer uso de medicamento vaporoso para expectoração, descobrisse que porta moléstia mais grave, terminando por saber-se acometido de pneumonia, internando-se em tempo de evitar o falecimento. Males menores vêm, muitas vezes, para evitar males maiores. É a Sabedoria Divina, Perfeita, agindo sempre em nosso favor. Sobretudo, no meu modo de entender muito limitado, devemos combater o enrijecimento das instituições e a hipocrisia farisaica, condenada por Nosso Mestre e Senhor, tão disposta a crucificar trabalhadores do bem, que foi, em Seu tempo, responsável pelo Sublime Martírio da Crucifixão. Estes novos fariseus, nos rincões de nossa amada Doutrina, dizem-se fiéis a Jesus, mas O crucificam na pessoa de Seus continuadores, que, quanto mais humanos, mais credores deveriam se fazer de nossa compreensão e auxílio fraternos. Que o Cristo nos abençoe nesta trajetória sinuosa rumo a Deus, e que saibamos nos fazer instrumentos dóceis em Suas mãos, no serviço de redenção da humanidade terrestre.

(Benjamin) – Estou muito feliz por ouvi-lo, e, como você foi um grande médium, inevitável perguntar: Distorço muito seu pensamento, com as naturais interferências anímicas que costumam ocorrer, no intercâmbio mediúnico?

(Irmão Chico) – O resultado está me agradando.

(Benjamin) – Xi!… Sendo tão amável como sempre foi, imagino o que signifique esta resposta…

(Irmão Chico) – Disse-o sinceramente. Uma ou outra palavra ou construção fraseológica estão com o tom de sua mente – do seu modo de falar, digamos assim –, o que é natural em mediunidade, como você mesmo disse. Mas as idéias e intenções minhas estão preservadas. Você se mostra isento, na captação. Não deve se preocupar com isso.

(Benjamin) – Deseja mais algo dizer?

(Irmão Chico) – Você escolhe o tema. Ainda posso lhe responder a uma pergunta.

(Benjamin) – Quer deixar uma mensagem para os médiuns?

(Irmão Chico) – Para todos os médiuns, inclusive aqueles que não costumam ver ou ouvir, ou contactar de algum modo, claramente, o mundo espiritual, ou seja: mesmo os médiuns que chamamos, em Doutrina Espírita, de não-ostensivos. Que não se preocupem em desenvolver grandes faculdades de intercâmbio e cura. É um enorme engano entregar-se ao deslumbramento com o fenômeno, que existe apenas para apontar o caminho da Luz. Que, através da oração e da prática da caridade, sintonizem com a Bondade Divina, e se farão, em quaisquer circunstâncias, representantes da Divindade, a serviço de todas as criaturas.

(Diálogo travado em 14 de junho de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*1) Uma voz familiar, como se ecoasse de muito distante, ressoou aos meus “ouvidos psíquicos”, e fui autorizado a com ela travar o diálogo que se segue.

(*2) A mediunidade prossegue no domínio extrafísico de vida, tornando-se, inclusive, mais pujante, por ser uma potência do espírito e não do corpo (apenas manifestando-se neste último, quando o indivíduo está encarnado). Médiuns, na dimensão espiritual, tornam-se telepatas mais sensíveis e podem canalizar espíritos residentes em faixas conscienciais mais altas que aquelas em que provisoriamente se asilam.

(Notas do Médium)




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