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1 de março de 2019
 

Benjamin Teixeira de Aguiar fala sobre a atual crise envolvendo lideranças políticas, culturais e religiosas, no país e no mundo

Delano Mothé – Benjamin, você poderia nos dizer alguma coisa sobre seus sentimentos como dirigente de uma Organização com tão amplo alcance, responsável pelo maior trabalho mediúnico do mundo, considerando o número de seguidores(as) de suas 2 fanpages (inglês e português) na maior rede social da atualidade, o Facebook?

Benjamin Teixeira de Aguiar – Isso me soa muito estranho. Apesar de me sentir uma pessoa responsável e voltada ao trabalho, vem-me à mente, com relativa frequência, mesmo já tendo completado 30 anos de atividade na área mediúnica (de um modo mais técnico), que em meu posto de serviço deveria haver uma alma santificada ou iluminada, como se costumam designar esses seres superiores que estiveram entre nós, em épocas passadas, liderando a evolução de coletividades.

No entanto, alertam-nos os Guias Espirituais, a era dos(as) santos(as) e iluminados(as) acabou. Houve um tempo em que nossa humanidade engatinhava, em termos morais, e grandes espíritos reencarnaram, sequenciada e simultaneamente, por séculos sucessivos, para nos ajudarem a dar os primeiros passos, em direção à autossuficiência espiritual. Agora, mais adultos(as) na inteligência e nos sentimentos, temos que andar com as próprias pernas, por assim dizer. Então, não vemos mais grandes Mestres(as) Espirituais, no domínio físico de existência, e sim algo como monitores(as) – não mentores(as) – de sala de aula, que ajudam seus irmãos e irmãs em humanidade a ajustarem a marcha rumo à Espiritualidade autêntica.

Sinto-me, assim, um mero aluno mais experiente, em alguns aspectos, auxiliando outros(as) alunos(as) de uma mesma escola a se melhorarem, gradativamente, enquanto faço o mesmo esforço de autoaprimoramento, em paralelo.

DM – Os meios religiosos, de um modo geral, andam significativamente decepcionantes, inclusive no que tange às suas lideranças… Será que essa sua visão autocrítica não está excessiva?

BTA – Essa perspectiva, de fazer comparações com o que há em torno (embora exista obviamente muita gente de bem, dentro e fora das religiões formalmente organizadas), conforta-me um pouco no ajuste ao meu dever, por eu ter consciência de estar sendo sincero e oferecendo o meu melhor, inclusive no combate ferrenho aos preconceitos fossilizados, inconsistentes e incompreensíveis que são sustentados com máscaras de exegese religiosa e assestados contra minorias e sofredores(as) de todas as ordens.

Vivemos uma era de desmistificação que – observemos bem isso – tem um lado muito positivo: o de levar as pessoas a olharem para dentro e para Cima, em vez de buscarem modelos idealizados fora de si, no plano físico de vida. Essa onda de iconoclastia está se espraiando por diversos campos da atuação humana, concomitantemente. Vemos, dia a dia, a mídia encharcada de notícias desagradáveis sobre autoridades do mundo político, celebridades do universo artístico ou figuras de vulto do meio religioso, como você destacou.

Há, é claro, um efeito construtivo nesse movimento internacional de mudança de valores e costumes viciosos, comuns sobremaneira em nossa cultura brasileira, tão afeita à ideia do “levar vantagem sobre os(as) outros(as)”. No que concerne à Espiritualidade, realçaria que acontece uma excelente ruptura, de grandes proporções, que incita os(as) adeptos(as) de religiões, de uma maneira geral, a superarem sua inclinação altamente destrutiva de escorar o ideal da fé em personalidades encarnadas, humanas e falíveis, enquanto deveriam fundamentá-lo na devoção a Deus e Seus Anjos ou Cristos – ou como se queira denominá-l’Os(As).

O equívoco de confundir a Divindade com Seus(Suas) representantes humanos(as) encarnados(as) é chamado, em boa linguagem cristã, de idolatria, uma espécie de perversão espiritual que induz à incredulidade e descamba facilmente para a desesperança. A tendência à idolatria, ainda que a maior parte das pessoas a negue em si, é extremamente generalizada, e isso é facilmente perceptível quando atentamos para o fato de que se exige de lideranças religiosas ou espirituais nada menos que a conduta de criaturas moralmente superiores às demais, especialmente virtuosas, santas ou iluminadas. Eles(as) são seres humanos como quaisquer outros, tanto em seus traços nobres e potenciais de virtude, quanto em sua natural condição de falibilidade.

Assim como seria um absurdo alguém deixar de acreditar na Medicina, por reconhecer que há médicos(as) desonestos(as), também não faz sentido alguém questionar a existência de Deus e da Espiritualidade, apenas por descobrir que há maus(más) religiosos(as).

DM – Você mesmo afirmou que, em posição de liderança espiritual, deveria estar, não um ser humano falível, mas uma alma santa ou iluminada…

BTA – Com sua provocação, você frisa uma sutileza profundamente importante, que, em primeiro exame, pode se afigurar uma contradição. Decerto que mantermos a vigilância e a autocrítica, procurando nos tornar pessoas progressivamente melhores, é uma atitude espiritualmente não só correta, mas devida. Em contrapartida, cobrar que os(as) outros(as) sejam santos(as) ou iluminados(as) constitui comportamento moral exatamente oposto, indicativo de pouca maturidade psicológica ou mesmo de má-fé.

Há pessoas de bom e mau caráter em toda parte, e nem sempre é fácil distingui-las. Um indivíduo pode, por exemplo, ser corretamente considerado marginal, por estar abaixo da linha média evolutiva do orbe, enquanto um outro, de reversa maneira, pode ser muito mal interpretado, justamente por estar acima do padrão de desenvolvimento intelecto-moral de seu tempo, a ponto de sofrer a incompreensão e amiúde o ataque da esmagadora maioria de seus contemporâneos.

A história revela que isso aconteceu em todos os departamentos da ação humana, vitimando desde bastiões vanguardistas dos direitos humanos, como Martin Luther King e Harvey Milk, assassinados à queima-roupa no século passado, até gênios da ciência, como Giordano Bruno, e luminares da espiritualidade e da estratégia político-militar, como Joana d’Arc, ambos queimados vivos nas fogueiras da Inquisição.

DM – Então, avaliando o contexto geral do que acompanhamos na mídia, sua impressão é de que há um saldo positivo, em última instância?

BTA – Com convicção. A história de nossa humanidade terrena não se desdobra, nem jamais se poderia desdobrar, de forma linear. O ser humano e sua cultura são complexos demais, como imensuráveis são as variáveis envolvidas no avanço dos povos, de modo que não podemos esperar um fluxo contínuo de progresso, sem retrocessos momentâneos, movidos por forças reacionárias presentes e atuantes em todas as comunidades.

DM – O que você diria a pessoas de viés psicológico ou intelectual mais pessimista, que costumam julgar ingênua qualquer visão otimista da vida?

BTA – Para facilitar a percepção de um panorama mais otimista, sugiro uma perspectiva temporal mais ampla. Se pensarmos em termos de séculos ou de algumas décadas apenas, notaremos, com clareza cristalina, que nossa civilização evoluiu em diversos sentidos, embora essa evolução se mostre precária em alguns aspectos e haja sido conquistada ao custo de suor, sangue e lágrimas de multidões incontáveis…

Lembremos de que o direito ao voto, mesmo nas nações ditas mais avançadas do planeta, só foi concedido a mulheres no último século, excetuando-se a Nova Zelândia, que se antecipou nesse movimento social hoje generalizado. Na França, nossas irmãs do gênero feminino só puderam desfrutar de um direito democrático tão elementar, após a Segunda Guerra Mundial…

E o que falar do horror da escravidão, que foi abolida tão recentemente nas Américas, ou da chaga coletiva vergonhosa e purulenta do racismo, cuja cicatrização completa demandará ainda muito “chão evolutivo” a ser percorrido?…

O divórcio, pasmemos, só surgiu legalmente no Brasil em 1977! Mesmo assim, senhoras distintas, por aqueles dias, eram vistas como pessoas de caráter duvidoso, sendo tachadas de imorais, tão só por haverem decidido terminar seu matrimônio, afastando-se de cônjuges não raro abusivos e violentos. Mocinhas, em plena adolescência, casavam-se às pressas, atendendo ao ditame da obrigatoriedade da virgindade (apenas para mulheres) antes das núpcias. E LGBTs eram praticamente considerados(as) inexistentes, quando não abominados(as) ou encarados(as) como aberrações desprezíveis…

Quantas vezes, com base em interpretações deturpadas de textos sagrados e em Nome de Deus – blasfêmia inominável! –, grupos minoritários foram perseguidos e mortos, e até guerras “santas” foram deflagradas, como as Cruzadas, que se estenderam por dois séculos de uma interminável e diabólica carnificina?!…

Apresentamos, aqui, somente alguns exemplos rápidos e mais óbvios.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, podemos tranquilamente nos indagar: quanto do que se condena hoje, por razões aparentemente justas, não passa de moralismo condicionado à época e à cultura dominante da sociedade em que nos inserimos? E mais: quantas impressionantes transformações para melhor não veremos acontecer, nos próximos decênios e séculos, com o avanço dos costumes, da ciência, da tecnologia?…

Para aqueles(as) que temos consciência e um mínimo de respeito por Deus e pelas Potências da Espiritualidade Sublime, reflitamos um pouco sobre o que Seus(Suas) Verdadeiros(as) Representantes realmente pensam do que julgamos condenável e, sobretudo, sobre como Eles(as) avaliam posturas condenatórias. Recordemo-nos de que o Próprio Jesus foi categórico, em inúmeras passagens de Seus Evangelhos, ao acusar de hipócrita gente tida como decente, enquanto salvou a pecadora de ser apedrejada, com Sua famigeradíssima frase: “Quem estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.

Benjamin Teixeira de Aguiar
em entrevista concedida a Delano Mothé

New Fairfield, Connecticut, EUA
1º de março de 2019












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