Benjamin Teixeira de Aguiar

12 de janeiro de 2018
 

Passar pela vida em vão ou com correta atenção

Sobre a necessidade do lazer e a contrapartida de perigos sutis a ele relacionados

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Marcou-me muito quando li, próximo à virada do século, “O Ócio Criativo”, de Domenico De Masi. O sociólogo italiano do trabalho cunhou o conceito, que deu título à obra, para designar ocupações em que nos sentimos trabalhando, aprendendo e nos divertindo ao mesmo tempo, junção essa que constituiria uma função relevante para a competitividade nas lides profissionais, já que nos propiciaria mais vigor para nos dedicar, longa e produtivamente, às obrigações de estudo e trabalho.

De visceral importância, porém, compreendermos que o lazer (o repouso para a mente, considerado isoladamente, e não como ferramenta de potencialização do rendimento profissional ou estudantil) é indispensável para o bem-estar, para a sanidade mental e, inclusive, a médio e longo (quando não a curto) prazos, para a produtividade do ser humano.

Exercido em padrão de excelência, o lazer se faz um “ócio” não só lúdico, mas igualmente terapêutico, educativo, socializante, renovador e criativo, com efeitos curativos e transformadores, em diversas áreas da vida de um indivíduo, e com resultados cumulativos, no correr do tempo, em termos de saúde, felicidade e realização pessoal profunda.

Os dias de folga não devem ser preenchidos (como tão comumente acontece em nossa cultura de histeria da ocupação profissional, acadêmica e/ou econômica) com tarefas que não puderam ser executadas nos demais dias da semana – dedicados quase sempre, e nos melhores horários de nossa disposição física e psicológica, aos deveres de subsistência. Somos mais que seres de sobrevivência: somos seres de consciência.

Além do descanso psíquico semanal, há a necessidade humana natural de “reiniciar a máquina” do sistema pensamento-emoção, diariamente. Desde 1999, a Mestra Espiritual Eugênia-Aspásia, em nome da Espiritualidade Maior, sugere que reservemos de 1h a 1h30min por dia ao lazer, apresentando-nos um espectro de opções de fazer (ou não fazer) extremamente vasto, que vai de uma conversação fraterna (sem o sentido de obrigação) a um programa de TV, cinema, joguinhos eletrônicos, entre outras atividades que parecem, para o ego-controlador e para a cultura de produção e consumo, mera “perda de tempo”.

Imprescindível ponderarmos, no entanto, que também existem evidentes formas de ludicidade e relaxamento altamente prejudiciais, como a intoxicação do organismo com drogas lícitas ou ilícitas, a viciação em games ou seriados de TV, o comportamento sexual promíscuo, a maledicência e a zombaria em encontros familiares ou sociais etc. No modo como se sente repousar, a pessoa revela seu nível de maturidade psicoespiritual, devendo, dessarte, estar atenta para não baixar a guarda para o pior, dentro e fora de si, em tais ocasiões de redução do senso crítico e autocrítico, da queda de atenção ou, em termos crísticos, da boa “vigilância”.

Entretanto, não sejamos moralistas ou convencionais nesse particular, mesmo porque devemos nos permitir o controverso mas indiscutivelmente necessário, e notadamente salutar, “trabalho com a sombra psicológica”, preconizado pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Alguém pode, por exemplo, “descarregar” seus excessos de agressividade em atividades desportivas, em jogos eletrônicos ou assistindo a filmes mais violentos, no intuito de não canalizá-los indevidamente para seu cotidiano. A despeito disso, todavia, faz-se essencial um certo critério moral ou espiritual, nos momentos de lazer, para que não se dê vazão ao destrambelhamento da psique, em atitudes viciosas, nocivas (a si e a terceiros) ou, em última instância, até criminosas.

Arte, cultura, esportes, família (biológica ou espiritual), amigos(as), hobbies vocacionais, viagens (recreacionais ou educativas), espiritualidade, voluntariado solidário… há muito a fazer com o tempo livre de que dispomos, a fim de que não passemos a existência em vão… e então, chegando à inescapável hora da morte do corpo material, quando facearemos a indagação capital: “O que fiz da minha vida?”, não venhamos a responder, para nós mesmos(as), com uma trágica e irreparável sentença, semelhante a: “Acho que paguei minhas contas e… ocupei-me, basicamente, do que a isso se relacionava”.

Benjamin Teixeira de Aguiar e Amigos(as) Espirituais
New Fairfield (CT, EUA), 6 de dezembro de 2017




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