Eleonora – Uma magnífica história de amor

7 de fevereiro de 2014
 

Uma Magnífica História de Amor.

Romance mediúnico – Capítulo 9.

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Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo
 Espírito Eugênia-Aspásia.

Eleonora acordou cedo, naquela manhã de domingo. Desligava o despertador, nos dias de fim de semana ou feriado, mas os ciclos circadianos acordavam-na cedo. Gervázio conseguia permanecer no leito, dormindo por mais uma hora ou duas, o que muito a felicitava: sabia que o marido vivia exausto, e intuía graves perigos em seu sistema orgânico.

Depois de breve asseio pessoal, fez refeição frugal e se dirigiu à biblioteca, transformada, por ela, em uma espécie de estúdio particular. O marido e Bárbara raramente visitavam o cômodo. A casa não era grande. Todavia, como residiam apenas o casal e sua filha, um dos quartos foi convertido naquele confortável e sofisticado escritório. Duas paredes eram “decoradas” com livros praticamente de cima a baixo –sobretudo de psicologia, espiritualidade e assuntos paranormais, os preferidos de Eleonora. Um birô discreto e ampla poltrona ao lado constituíam toda a mobília ambiente.

A luz da manhã era filtrada confortavelmente por cortinas de bom gosto, e um aparelho de ar-refrigerado, considerado ainda um luxo à época, foi acionado pela psicóloga, para facilitar a concentração, no verão que se aproximava e que encerraria a década de 1970. A máquina barulhenta (àquele tempo) iniciou seu ruído característico e Eleonora ligou sistema de som próximo, escolhendo um disco de vinil com trecho de “As Quatro Estações” de Vivaldi – era dos seus compositores favoritos.

Octaviano de Alexandria a assistia, sugerindo inclusive o fundo musical, de acordo com o estado de espírito que poderia inspirar, em função da natureza de trabalho a que a médium conscienciosa se dedicaria: uma prece-meditação mais demorada, com o tempo livre do dia de repouso.

Supersensível, Eleonora logo percebeu a presença do Guia espiritual, solicitando-lhe auxílio direto, de molde a que melhor focasse a mente e se mantivesse receptiva às suas orientações, quanto à ordem de reflexões a fazer naquele momento. Orou por alguns minutos, com a ajuda do Espírito Otávio, que lhe acelerava o processo de mudança de padrão de consciência, até que a discípula encarnada pôde divisar a presença de outra personalidade despojada de envoltório material.

– Sou Quitéria. Seu “filho mais velho” – referindo-se ao esposo da terapeuta – está próximo de sofrer o colapso cerebral que você intui iminente, inclusive por revelações recebidas de nossa Esfera de Ação, em excursões fora do corpo. Sou médica de nosso domínio de existência e farei o possível para diligenciar-lhe a desencarnação, em vez de deixá-lo padecer uma invalidez, seja por problemas motores ou mesmo por limitações cognitivas, como sequelas de um AVC de grande extensão.

Eleonora tinha o rosto banhado em lágrimas. Mentalmente, consultou o Mestre espiritual, certificando-se de que não se atrapalhara com as informações captadas, além de verificar se a procedência dos dados era de fato confiável. Corroborando com o nobre Preceptor a legitimidade do comunicado, indagou à benevolente Mentora, então, se não haveria alternativas mais leves para o caso.

– Não, estimada irmã. Desde que você foi avisada da proximidade deste quadro, há três semanas, a situação de Gervázio piorou deveras. Ele tem se rendido a estados de profundo destempero emocional, em torvelinho de preocupações viciosas, que funcionam como tóxicos para o organismo e, principalmente, para a saúde cardiovascular. Sabemos que fez o possível para instilar-lhe a fé em Deus e em Sua Providência. Mas é inútil tentar socorrer alguém que, de forma obcecada, trata como se fossem seus os problemas da Estatal a que devota seus esforços profissionais, atribuindo a si a obrigação de resolvê-los todos, em dimensão nacional(!). O que julgávamos sucedesse dentro de dois anos aproximados, com o agravamento de sua condição orgânica, terminou por ser precipitado drasticamente, por incúria exacerbada de nosso irmão em humanidade, nestes meses e, em particular, nas últimas semanas.

Para quando seria, perguntou, pelo sem fio do pensamento, uma aflita Eleonora.

– Deveremos dar cabo da tarefa sagrada ainda hoje. Trazemos-lhe a notícia agora, para que não se assuste quando acontecer. Sobremaneira, atente-se à sua filha. Ela precisará muito de seu amparo. Não está preparada, como seria de se esperar, para a perda repentina do pai, apesar do namoro-noivado feliz que lhe foi providenciado recentemente, a fim de que tivesse mais suporte emocional a atravessar a crise.

Sim, pensou Eleonora consigo. Bárbara e ela tinham afinidades profundas. Eram amigas-irmãs, mais do que mãe e filha. Mas o amor que esta nutria pelo pai a preocupava, exatamente pelas premonições que lhe vinham com certa frequência, há pelo menos dois anos, em relação à morte precoce do cônjuge adorado.

– Devo fazer alguma coisa neste momento? – balbuciou com os lábios, sem chegar a verbalizar, exprimindo, porém, uma fala perfeitamente articulada para a perspectiva da dimensão extrafísica de existência.

– Bárbara deve acordar tarde. Contudo, você pode selecionar os livros que lhe deverá indicar, no intuito de amadurecer-lhe a convicção na imortalidade da alma, princípio que ela tem, ainda, como uma “crença de segunda mão”, a partir de suas provocações sobre o assunto, quando, pontualmente, as circunstâncias o permitem. A jovem precisa de “alimento substancioso” para alicerçar a fé viva de que carecerá, no período imediatamente posterior ao decesso paterno.

Após agradecer as orientações da médica desencarnada – que demandou a alcova conjugal, acolitada por três auxiliares, para as providências aludidas –, Eleonora continuou em prece por mais alguns minutos, entre súplicas a Maria Santíssima, a Quem muito apreciava recorrer, e solicitou instruções e apoio a Otávio, que a confortou durante um quarto de hora.

Findo o intervalo encurtado de orações e meditações, que nas manhãs de domingo chegavam a bem mais de uma hora, a psicóloga-mãe condoída, debulhando-se em lágrimas, deslizou os olhos pelas estantes acopladas às duas paredes, levando, certeira, as mãos aos pontos exatos (muito organizada que era) onde estavam os títulos mais apropriados aos fins a que se prestariam, conforme as diretrizes que acabara de receber. Octaviano a acompanhava de perto, inspirando-lhe ideias, que ora ela escutava mais claramente, ora percebia à guisa de intuição, aturdida por fortes emoções, naturais para a conjuntura.

Quando Bárbara despertou, antes do pai – o que não era habitual –, encontrou a mãe ainda na biblioteca, visivelmente consternada. Apesar da forte convicção na imortalidade d’alma, Eleonora sofria com a ideia de separação do consorte tão amado, com quem dividira a existência, desde os primeiros tempos da vida adulta. A perspectiva de passarem longos anos, quiçá decênios, afastados, fisicamente, torturava-a, porquanto sentia que, de sua parte, seria longeva. Ademais, havia-lhe um motivo maior de conturbação: a filha e seu problema de apego acentuado à figura do genitor.

– Mãe, que cara é essa?

– Teremos momentos difíceis em casa, minha filha… – respondeu, em tom profético, quase sussurrando, uma pálida Eleonora.

– O quê? Como assim, mãe? ‘Tou ficando assustada! – exclamou, levando a mão ao peito.

– Creio que precisaremos levar seu pai ao hospital hoje.

– Hospital? Como assim? Meu pai é uma rocha de saúde…

– Engana-se, Bárbara… – redarguiu, com inflexão diferente, uma Eleonora em semitranse, psicofonando quase que diretamente o Orientador espiritual que a ladeava. – Organismos que nunca enfermam costumam entrar em colapso mais severo, repentinamente… A saúde é fenômeno complexo, que demanda análises mais cuidadosas. Seu pai não está bem. As condições clínicas dele estão por um fio…

Bárbara, que já testemunhara fenômenos do gênero com a mãe, embora não fossem frequentes, pressentiu, no olhar fixo e no timbre de voz suavemente alterado, os ecos do Infinito… Um calafrio percorreu-lhe a coluna vertebral. Recostou-se na porta de entrada da biblioteca, em silêncio respeitoso, aguardando a continuidade da fala dos Benfeitores espirituais, com dois grossos fios de lágrimas escorrendo pelas faces joviais.

– Não tema, filha amada. Está tudo bem. E o que não parecer bem, por ora, ficará a posteriori. Estamos fazendo o possível por cuidar de seu pai da melhor maneira. Mas a necessidade de ele ser trasladado a uma “casa hospitalar” é urgente. Assim, gostaria que nos ajudasse, com sua mãezinha – referindo-se à médium como uma terceira pessoa –, a levarmo-lo ao melhor centro médico da cidade.

– Sem dúvida – anuiu enfática, voz embargada. – Eu não gosto de dirigir, mas vou ligar agora para Carlos. Ele virá p’ra cá, prontamente.

– Não há motivo para pressa: apenas para atenção e prudência. Sua mãe lhe separou alguns livros. Gostaríamos que, à noite, levasse-os consigo, para seu quarto, e não só os lesse, mas também os estudasse nos próximos dias.

Com os olhos baixos e segurando a boca, para abafar os soluços, Bara meneou a cabeça afirmativamente.

– Posso telefonar p’ra Carlos agora?

– Sim. Quando voltar, sua mãe já poderá falar com você, normalmente.

“Como uma flecha”, Bárbara partiu na direção do telefone mais próximo e ligou, com o corpo todo trêmulo, o número da casa do noivo. Eleonora, em transe semiconsciente, acompanhara parcialmente o diálogo entre Otávio e a filha, guardando uma ideia geral do conteúdo das recomendações do Guia espiritual, sem segurança sobre detalhes.

Minutos depois, a moça, em prantos, retornou à presença da mãe, que, voltando ainda a si, perguntou-lhe:

– Foi a Carlos que você telefonou?

– Carlos já está vindo, mãe.

– Eles lhe disseram tudo?

– Tudo o quê, mãe?

– Ele talvez não passe de hoje, minha filha.

– Deus! Como assim, mãe? Eu posso ir ao quarto de vocês? – pediu licença, respeitosa, cheia de receio de encontrar uma cena que a chocasse.

– Vamos nós duas… Você me dá o braço, Bara?… Ainda estou um pouco tonta.

Apoiando Eleonora, Bárbara abriu a porta do quarto do casal, em segundos que pareciam uma eternidade, e percebeu algo de estranho no semblante do pai. A explosão de choro foi inevitável. Gervázio havia sofrido um “derrame” de larga expressão. E, enquanto a jovem abraçava-se ao corpo inerte do pai, a psicóloga, mais senhora de si, tomou o rumo do aparelho telefônico, para contatar o médico de confiança da família e pedir-lhe que os acompanhasse ao hospital.

Um dia-pesadelo – se assim podemos dizer –, ao final do qual, junto à primeira cortina de estrelas, o soma de Gervázio descansava do forte tormento dos estertores da morte. De fato, o desenlace ocorreu naquela mesma noite, por seus créditos espirituais de homem de bem, que não merecia a provação de invalidez ou demência. Para a ótica de muitos, a desgraça maior acontecera. Eleonora e seus Mestres espirituais, entretanto, sabiam tratar-se de uma especial dádiva do Plano Sublime de Vida. Agora, para a extremosa mãe, seria a ocasião de conceder suporte psicológico à filha, em luto profundo, além de facear sua própria dor, pela viuvez súbita e precoce, aos apenas 45 anos, duas semanas antes do Natal de 1979.

(Psicografia de 06/02/2014.)

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