Eleonora – Uma magnífica história de amor

17 de janeiro de 2014
 

Uma Magnífica História de Amor.

Romance mediúnico – Capítulo 6.

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Benjamin Teixeira de Aguiar
pelo
Espírito Eugênia-Aspásia.

Seu pai era um homem de “fibra e caráter” – pensava de si para consigo um conflitivo Carlos – e saberia como se posicionar na situação. Acreditava, porém, que era seu dever tomar alguma iniciativa. Soubera, por interferência da mãe, em conversa curta, sussurrada à cozinha, que Luís estava em maus lençóis financeiros. Como abordar o assunto? Como não percebera antes? Postou-se na sala de estar, mergulhado em solilóquios.

Pouco instruído, mas inteligente e loquaz, o pai de Carlos e Gilberto era homem de negócios que conseguira se estabelecer, sem grandes problemas, no mercado varejista de confecções. Houve momentos de certo brilho em sua carreira como comerciante. Contudo, nos últimos tempos, o primogênito notava que algo não ia muito bem nas finanças paternas, não só pela sinalização mais externa – o automóvel não mais era trocado todo ano, nem por modelos nacionais mais caros –, como também pela estranha taciturnidade do genitor. Luís costumava ostentar personalidade mais extrovertida e animada, embora toldada por um humor mordaz, dado a zombarias com presentes e ausentes, perfil que muito desagradava o temperamento de honradez e respeito peculiar a Carlos.

A família preservava a filosofia de não tocar em questões “de adulto” na frente dos filhos, e, entre elas, a mais cuidadosamente guardada longe dos olhos e ouvidos dos “meninos” era a do “dinheiro”. Carlos, todavia, tornara-se homem, e Nildete vinha de um tempo postulando, ante o esposo, que o filho mais velho poderia, sim, ser participado da situação orçamentária doméstica, mesmo que não viesse a colaborar com os custos de manutenção da casa – o que Luís “não admitiria de modo nenhum”. E dizia mais à esposa, quando ela tentava, infrutiferamente, convencê-lo de que deveriam conversar com Carlos sobre a temática: “Ele é um rapaz em início de carreira. Precisa fazer seu ‘pé de meia’, comprar casa própria, preparar-se para constituir família. Não vou atrapalhar o começo de sua vida adulta, com problemas que são meus.”

Por isso, ela própria resolvera-se por abrir o assunto com o filho, à revelia e contra a vontade do marido.

– Deveria ter-me dito antes, mãe! – foi a resposta sumária que lhe deu Carlos, após escutar, em linhas gerais, da genitora, o que se passava com a empresa do pai.

Ficou então sabendo dos escrúpulos que mantiveram, a “vida inteira”, em partilhar preocupações com os dois filhos.

– Não falar nada faz pressupor que está tudo bem, redarguiu Carlos.

Nildete disse que concordava, que ele já era homem adulto há vários anos e que, dessarte, precisava saber, e até mesmo Gilberto, o que se passava nas finanças da família, inclusive porque todos moravam juntos ainda… Soltou a matrona, reticente, na insinuação de que o filho profissional e bem-remunerado poderia colaborar.

– Vou ver o que faço, mãe – foram suas últimas palavras.

Carlos estava agora aboletado na poltrona da sala. Nildete achou por bem não acompanhá-lo, dando-lhe espaço para que pudesse mergulhar em suas reflexões. O telefone tocou, quinze minutos depois. A dona da casa correu a atender, para que o filho prosseguisse no sentido de tomar a decisão que ela esperava: participar nos custos de manutenção do lar ou mesmo assumi-lo, a fim de que o marido tivesse uma margem de manobra maior a saldar as dívidas e salvar o negócio familiar. Foi com uma expressão de desagrado óbvio no rosto que ela respondeu à pessoa no outro lado da linha:

– Olá, Bárbara, como vai?

– Bem, D. Nildete. E a senhora?

– Como Deus permite! – lamentou-se, numa inflexão de leve melodrama, sabendo-se ouvida por Carlos, há poucos metros da mesinha do telefone. – Sim, claro, vou chamá-lo.

O jovem noivo, que, ao escutar o nome da amada, fora subtraído de seus pensamentos, já estava de pé, ao lado da mãe.

– Meu amor, como você está?

– Nossa!… que voz é essa? – perguntou Bara.

– Não lhe escapa nada, não é, Bárbara? – falou, com um semissorriso, feliz por se sentir conhecido pela escolhida de seu coração e por ser objeto de suas preocupações, indícios fortes do amor dela por ele.

– Como não perceberia, Carlos? Três meses p’ra mim são um período quase fictício de tempo. P’r’o meu coração, conhecemo-nos “de sempre”… – respondeu a moça, alegrando mais ainda o noivo, sem se dar conta de que emitia um parecer real, retrocognitivo, e não metafórico.

– Probleminhas aqui em casa. Mas nada sério. Já está tudo se resolvendo.

– Liguei só p’ra saber como você estava…

– Desculpe, meu amor. Eu sempre ligo p’ra você ao chegar do trabalho, mas hoje precisei ter uma conversa com minha mãe. Iria lhe telefonar mais tarde. Como disse, está tudo bem agora.

– E como está seu tempo?

– Pode dizer. P’ra você, eu sempre tenho tempo…

– Entrou em cartaz um filme… queria saber se lhe agrada.

– Ambos gostamos de cinema e da companhia um do outro. Se você quer ver, iremos. Qual a sessão mais tardia?

– Nove da noite.

– Pego você às oito e vinte, pode ser?

– Obrigada, meu amor!

Despediram-se afetuosos. Carlos recolheu-se ao banho e aos preparativos para sair, quando Luís chegou em casa.

– Falei com ele, Luís – assestou, de chofre, como quem esgrimava com as palavras, uma amarga Nildete.

– Falou o quê, mulher?

– Você sabe. Sobre a questão financeira.

– O quê? Pelas minhas costas?

– Por que “pelas suas costas”? Tem que tudo ser apenas de acordo com sua opinião? Olhe aqui, meu “filhinho”, o tempo de nossa juventude e de nossos pais, em que mulher tinha que abaixar a cabeça p’r’o marido, já passou!…

Luís, exaltando-se, ripostou:

– Mas quem põe o dinheiro na casa e sustenta você e os meninos sou eu. Tenho, portanto, o direito de ter a última palavra!…

– Na sua cabeça, “querido”!… – refutou, ato contínuo, desdenhosa. – Ser dona de casa e cuidar dos filhos não me nega o direito de ter metade de tudo que é seu, porque não é seu: é nosso! Somos casados em “comunhão universal de bens”, esqueceu-se?

Luís se enfureceu. Olhos injetados, lábios contraídos e cenho franzido, saiu, barulhento, da cozinha, empurrando uma cadeira contra a mesa. Nildete, por sua vez, que enxugava alguns pratos – a auxiliar doméstica já tinha saído –, de costas para o marido, desenhou sarcástico e pérfido sorriso no rosto, satisfeita com o resultado de sua forma de abordar o assunto.

Viviam, como muitos casais, em “pé de guerra”, numa disputa permanente de poder, de ver quem está com a razão, quem dá a última palavra, quem vence as discussões, quem fere mais a autoestima do outro, muitas vezes na frente dos “garotos”. Não eram amorosos entre si, nem mesmo com os filhos. Não descobriam afinidades ou valores em comum, e mantinham a custo o matrimônio, em função dos “meninos” e das furtivas ameaças de “divisão de bens”, estrategicamente apresentadas por Nildete, volta e meia.

Com o chuveiro ligado, Carlos não chegou a ouvir a altercação do pai, ao final do curto e áspero diálogo com sua mãe. Saiu minutos depois, não sem antes passar pelo quarto de Gilberto, como lhe era habitual, para se despedir. Bateu à porta.

– Entre, Carlos… – disse, com voz amável, o irmão.

– Tudo bem aí?

Gilberto enxugou lágrimas nos olhos.

– Sim, sim. Sou emotivo demais.

Apoiando uma mão no alto da porta e colocando a outra na cintura, Carlos pendeu a cabeça para frente e prosseguiu com entonação firme, olhar vivaz, sem piscar:

– Não é o que estou vendo.

– Desculpe-me, Carlos. Não queria preocupá-lo. Está tudo bem, mesmo. Fui pego desprevenido.

– Você não precisa se desculpar, e sim me dizer por que chora. Acho muito bom que o tenha pegado de surpresa, para que não continue me ocultando, como ainda tenta, o motivo de seu choro.

Gilberto lançou o rosto sobre as mãos – tocado com a preocupação sincera do irmão, apesar da aparente atitude autoritária e invasiva, que era comum aos maneirismos masculinos daqueles dias e de ainda hoje, mesmo passados quarenta anos destes eventos.

Carlos avançou para o irmão, observando-o, extremamente preocupado. A mesma mania familiar de guardar segredos – ele abominava aquilo. Mas, com relação a Gilberto, não se aborrecia. Intuía o universo de constrangimentos em que ele vivia, por conta de sua sexualidade obviamente “invertida”. Tendo se aproximado do caçula, que estava sentado na cama, recostado na parede, pousou-lhe sobre o ombro a destra, intimando-o:

– Vista-se e vamos sair, comigo e Bárbara, ao cinema.

Com voz já embargada e lágrimas “pulando” dos olhos, em filetes grossos, Gilberto sobressaltou-se:

– Que ideia é essa, Carlos?! Vocês precisam de privacidade. Eu jamais sairia para estragar a noite de vocês dois!

– Se ficar aqui assim, vai realmente estragar. Inclusive porque, além de eu mesmo não ficar bem, a primeira coisa que farei ao ver Bárbara é falar do seu estado. E, pelo que conheço de Bara, ela própria tomará a iniciativa de desistir do cinema para vir aqui falar com você.

– Carlos!… – exclamou Gilberto, num suspiro sem esperança…

O irmão sabia ser incisivo e quase controlador, em situações críticas. Mas a exalação de amor e o olhar terno que lhe dirigia não permitiam que Gilberto se contrariasse. Já conhecia Carlos. Ele persistiria até o fim. Se não lhe desse uma resposta afirmativa logo, vê-lo-ia avançar para um argumento mais veemente.

– Qual o horário da sessão? – perguntou, a contragosto.

– Nove.

– Não há tempo p’ra eu me arrumar – alegou, satisfeito por encontrar um raciocínio final que o dissuadisse.

– Certo – arrematou Carlos, fazendo menção de sair do quarto. – Vou então telefonar p’ra Bárbara, dizendo que não vou sair de casa e também notificando-a de como o encontrei chorando.

– Carlos!… – protestou Gilberto com voz mais alta, levantando-se. – Não se atreva a fazer isso!

– Então, atenda-me. Você é livre p’ra não ir, mas não p’ra me impedir de agir conforme minha consciência exige.

– Tudo bem, tudo bem! Eu vou, senhor “mandachuva” (1) – acabou por anuir, malcriadamente, um tocado e enternecido Gilberto, por cujo rosto escorriam novas lágrimas. E prosseguiu:

– Mas me prometa que não vai dizer nada a Bara!

– Prometido. Espero-o na sala.

Gilberto não tinha dificuldade em arrumar-se rápido, o problema era seu estado de espírito… Enquanto velozmente trocava algumas peças de roupa, os filetes de lágrimas teimavam em verter sobre suas faces, molhando a camisa que escolhera. Estava triste, mas por quantas vezes, lembrava-se, fora retirado da beira do abismo, cogitando em suicídio, graças à postura repleta de óbvio carinho, embora enérgica, do irmão! “Você pode contar comigo para tudo” – sempre reiterava Carlos. “Nunca vou abandoná-lo” – reforçava n’outras ocasiões. Quanto respeito e afeto sentia pelo irmão!… Entretanto, isso não constituía uma solução cabal para o dilema que o aturdia: sua existência era de sua responsabilidade. Talvez sua tristeza fosse maior agora, conquanto se apresentasse construtiva. Em lugar de se sentir impelido a lastimar-se e a desistir de lutar, percebia-se mais senhor de sua situação, mais lúcido quanto ao que se passava consigo, mais disposto a enfrentar essa realidade inescapável, exatamente pela nova riquíssima fase de terapia com Eleonora…

Dentro de pouco mais de cinco minutos, os dois irmãos trafegavam para a casa de Bárbara. Gilberto fazia todo o esforço possível para não chorar e, assim, desfazer os vestígios da comoção, até reencontrar a amiga. Sinceramente, não queria preocupá-la.

– Prometa mais uma vez que não vai dizer nada a Bara, Carlos.

– Não preciso prometer duas vezes. Já me comprometi a não dizer nada. Mas isso não impede que você possa falar comigo, se quiser.

– Obrigado, Carlos. Mas pare um pouco de ser amável comigo… – suplicou, em partilha de extrema transparência – Fica mais difícil segurar as lágrimas assim.

Carlos deu um tapinha no joelho do irmão, tocado, e respondeu:

– Ok. Mas lembre-se de que estou sempre aqui, com você, seja qual for o problema. Respeito seu jeito silencioso de ser. Só quero que considere, de vez em quando, que conversar com alguém de confiança pode ajudar muito. E, por outro lado, tenho a impressão de que você teme que eu não aceitaria ouvir o que você tem a me dizer. Nada vai abalar nossa relação de amizade e confiança recíprocas.

Desistindo de segurar as lágrimas, Gilberto confidenciou indiretamente, voz embargada, olhando pela janela para o outro lado do carro, no intuito de esconder do irmão o rosto congestionado:

– Deus lhe pague, Carlos. Tenho a intuição de que não preciso lhe dizer nada. Não sou silencioso porque esconda algo de você, e sim porque é óbvio demais p’ra que precise falar. Seu amor e respeito por mim, apesar de eu ser quem sou, são mais do que o bastante para me confortar.

– “Apesar de eu ser quem sou”!? Nunca mais repita isso, Gilberto! – ribombou, em tom severo, um tenso Carlos, em sua maneira viril de demonstrar afeto e agir por amor – Você é talvez a pessoa mais sensível e de melhor coração que já conheci na vida… Do jeito que fala é como se um aspecto de sua personalidade invalidasse todo seu caráter! 

Gilberto soluçava. Não conseguia mais articular palavra. Percebendo isso, Carlos deu novo tapinha no joelho do irmão:

– Deixe disso agora, por favor. Não gosto de me emocionar. E você é a única pessoa que me tira do eixo. Quando um dia eu tiver filhos, Gilberto, não poderei sentir um amor maior do que o que sinto por você. Se você não for feliz, eu nunca poderei ser!…

Apesar de entrecortado pelos soluços, Gilberto desabafou, por fim, o que nunca houvera dito ao irmão:

– E eu… Gilberto… por mais de uma vez… só não tirei a própria vida… por sua causa!…

Carlos estacionou o carro, numa rua mais tranquila, e abraçou-se ao irmão, comovido também.

– Pelo amor de Deus, nunca mais diga isso! Você me destruirá se fizer uma “merda” dessa! Por favor, Gilberto, abra-se comigo! Quem sabe não posso fazer alguma coisa! Se não, abra-se com Bárbara ou com D. Eleonora…

Gilberto desabou nos braços do irmão. Abraços não eram comuns em sua casa, nem mesmo entre eles. E, agora, chorando sem peias, sentia-se de fato, como Carlos acabara de dizer, aconchegado no forte apoio do ombro de um pai… seu verdadeiro pai…

O Céu chorava junto, mas de alegria, com as tão puras trocas de amor espiritual que se davam entre dois de seus protegidos. E, talvez por “mera coincidência”, em poético simbolismo da Natureza, começou a garoar sobre o veículo estacionado dos irmãos não só do corpo, mas também do espírito…

(Capítulo psicografado em Danbury, Connecticut, EUA, aos 14 de dezembro de 2013.)

(1) Personagem de desenho animado frequentemente exibido pela televisão brasileira à época: um matreiro “poderoso chefão”; em verdade, um gato divertido, líder de um bando de outros gatinhos.

(Nota da Autora espiritual)

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