A Desatenção que Parecia Desimportante.

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[O mais célebre e sábio entre os centauros (símbolo da integração completa do ser humano – seu sub-eu animal e sua consciência espiritual), Quirão, mestre do herói Aquiles.]

(Correspondência do Padre Rafael – 26.)

Benjamin Teixeira
pelo
Espírito Gustavo Henrique.

Cada vez mais explícito, em sua definição como espírita, e assumidíssimo como médium, diante de seus paroquianos, o padre Rafael se dirigiu a jovem colaborador da igreja sob sua responsabilidade, que lhe não respondera a um SMS de repreensão, por falta cometida em relação ao andamento da atividade que se daria à noite, na missa daquele domingo. O rapaz era um dos responsáveis pela parafernália eletrônica, nos bastidores da moderníssima missa, e, em vez de dar um retorno imediato ao velhinho simpático, tratou de correr a resolver a questão, supondo-se acertadíssimo em sua postura. Vejamos os dizeres elucidativos do ancião sábio:


Onório:

Deixei a nossa fala em meio, ontem, dando a entender houvesse concluído a conversa, pois que era dia de realização de nossa missa, e não convinha estender a discussão, quando misteres mais altos relacionados a Nosso Senhor nos solicitavam a atenção e o respeito. Mas os Espíritos me pedem que volte à temática agora, em momento propício.

Ante a minha cobrança pela inexistência de sua resposta, em assunto tão sério como a operacionalidade do serviço a Nosso Senhor Jesus, você argumentou que ma teria enviado logo, mas que não o fizera porque havia motivos para tanto. Ao colocar na condicional a sua postura negligente, transferindo a responsabilidade para terceiros e situações externas, apresentando razões para não ter feito o que, simplesmente, se faz, quase que automaticamente, em situações como esta, parando tudo, sem pestanejar, você estava, na verdade, desculpando-se, criando justificativas para não se ver incurso num erro grave de comunicação, como responder a uma “bronca” do chefe, numa questão urgente.

Quando a gente quer fazer alguma coisa, consciente de que uma certa atitude é primária e dela não se pode evadir, naturalmente a faz, Onório. Se estamos, por exemplo, em meio a outras pessoas, pedimos-lhes licença para atender a uma ligação, trancamo-nos no banheiro para responder, paramos o carro para digitar ou telefonar, etc. – só para iniciar as hipóteses de reações plausíveis do adulto respeitoso, que não deixa o “interlocutor” com a resposta do silêncio, principalmente se, do outro lado, está o chefe ou o professor, ou o seu Canal da Espiritualidade, a lhe fazer uma reprimenda.

Você pôde estar em família, na casa de seus pais, pôde dirigir o veículo para casa, pôde atender à ligação de seu companheiro de condução de eletrônicos, mas não encontrou meios de providenciar uma resposta curta a seu líder, ainda que fosse um simples: “Vou resolver isso, Padre”. Em suas explicações, a posteriori, como nas ocasiões em que tivemos problemas nos últimos dois anos, seu ego lutava para tentar se convencer (e me convencer) de que você estava certo, de que, mesmo em se tratando de algo tão obviamente errado, era eu quem lhe cobrava injustamente, ou seja: de que cabia a mim, e não a você, pedir desculpas. Provavelmente, portanto, todos os episódios desse período vêm sendo romanceados por sua mente, do mesmo modo que este, em alguma medida, com desperdício das lições que poderiam ser aproveitadas para seu crescimento, para nosso crescimento. Conseguiu compreender agora, amigo?

Por favor, tente colocar fora o sentimento de ego em processo de competição com outro, porque não estou com ego aqui, Onório. Não tenho idade nem disposição para competir com ninguém. Meu Self e o sentimento de dever a cumprir é que me motivam. Competir com os que vão me ouvir, na condição de Representante de Deus… isso não faz sentido algum para mim, para meu emocional, mesmo nos aspectos mais primitivos de minha mente. Você não é meu rival, em nada. Procure não me ver assim, porquanto estaremos desperdiçando grandes oportunidades de conviver mais próximos, como tem acontecido ultimamente, tão distanciados que estamos um do outro, por este seu problema de se colocar em constante litígio com todas as figuras de homem com quem convive, incluindo a minha pessoa.

Tornei, então, ao tema, já que este tipo de padrão de avaliação das coisas se estende a tudo e prejudica muito quem a ele se agarra. Lembre-se de que sua situação de vida (rapaz bonito, heterossexual, rico e inteligente), de certa maneira, adoeceu-o (o que é muito compreensível), favorecendo-lhe o desenvolvimento de um muito incrustado senso de excelência pessoal, que não lhe permite enxergar-se cometendo erros – e isso é muito grave, perigosíssimo, podendo nos fazer perder existências inteiras, o que ocorre com muita frequência, na condição humana, ainda mais neste planeta tão pouco espiritual em que estamos encarnados. Mais uma vez, vemos o padrão do ego, do orgulho e da fuga à responsabilidade pelos próprios atos – a culpa é sempre dos outros, das circunstâncias –, diapasão este cujas implicações são devastadoras e profundas, em vários sentidos.

Tranquilo (embora surpreso com sua recidiva), precisando alertá-lo novamente, por você não ter demonstrado compreender ainda o ponto essencial da questão, pela natural cegueira a que o ego induz (levando o incauto a observar com suspeita quem lhe flagra em erro, e a especular motivos escusos neste, para o estar criticando),

Esperando possa me ter compreendido agora,

Confiando-nos a Nosso Mestre e Senhor Jesus,

Rafael.

(Texto recebido em 2 de março de 2010.)


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