Sobre o Carnaval.

por Aline Rangel.

Com a passagem do Carnaval, urge fazer uma reflexão acurada acerca do contato que temos estabelecido com os aspectos instintuais que portamos, manifestados coletivamente nos chamados “gritos carnavalescos”. Gritos da alma, podemos dizer, a clamar por atenção cuidadosa com os mais diversos elementos que compõem o humano em sua complexa e absolutamente fascinante conformação. Não se trata aqui de julgar o gosto pela dita festa popular, nem tampouco de demonizá-la, o que seria um tanto superficial e improdutivo. O que se pretende é discutir em torno de sua importância, na compreensão de nós mesmos, de nossas necessidades, do quanto atendemos às diferentes dimensões que nos constituem.

Interessantíssimo observar os variados traços característicos deste ritual coletivo de busca do prazer: fantasias, máscaras, cores vibrantes, música alta e agitada, coreografias, álcool e outras drogas, sexo fácil e sem compromisso, euforia… Máxima descontração… Verdadeiros transes coletivos, em que tudo é permitido… Será mesmo? As pessoas se escondem e se mostram, numa dança psicológica de contato com diferentes faces de si… Neste processo intenso e ao mesmo tempo fugaz, encontros e desencontros, alegria e vazio, liberdade e ilusão se misturam com os risos, os toques, as brincadeiras, os sustos… As fronteiras tornam-se frouxas e o que está reprimido tem um “lugar ao sol”, finalmente. Então, é preciso comemorar, viver como se não houvesse amanhã, conhecer no outro e em si o que não se mostraria, aquilo que, proibido, aparece no disfarce à tristeza e à solidão.

O fim a que nos propomos, nestas despretensiosas linhas, é destacar que o ser humano está em busca de significado, sempre… E o encontro com significados mais profundos se dá à medida que integramos os mais diferentes componentes psíquicos, dos menos desenvolvidos aos mais elaborados e complexos. A castração dos impulsos, a negação dos desejos, o preconceito com o prazer, a demonização do sexo, o desrespeito com a necessidade de experimentarmos estados alterados de consciência, a fuga do divino, do transcendente, fazem com que nos escondamos em meio à multidão e nos mostremos, para nós mesmos, tão distantes do que somos. Vale, portanto, aproveitarmos o momento e nos perguntarmos o quanto temos permitido de brincadeira, de liberdade, de leveza, de prazer no dia-a-dia, sozinhos ou com quem amamos… Temos ouvido cuidadosa e respeitosamente nosso lado animal em suas necessidades, sem preconceitos e castrações, mas sim com bom senso e maturidade? Como estamos buscando o sagrado, o divino, interna e externamente? Temos alimentado nossa alma e expressado nosso amor? Se não… Por que não agora?


(Revisão de Delano Mothé)


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