Assuntos polêmicos

29 de outubro de 2008
 

Diálogo sobre Poligamia, Promiscuidade, Infidelidade Consentida, Sexo Casual, Erotismo Doméstico e no Ambiente Profissional.

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

(Benjamin Teixeira) – Eugênia, há aproximadamente 10 anos, recebi, em consultório, um homem muito decente, no meu ponto de vista, que revelou a estranha fraqueza de manter vínculos com mais de uma mulher ao mesmo tempo. Isso me fez, pela primeira vez, provocá-la quanto ao assunto, embora você haja se mantido à época enigmática, em certa medida, e não me tenha autorizado manifestar nada em público.

A posteriori, tive contato com a autobiografia de Jung, em que o mestre se declarava polígamo. Interpreto Jung como um dos maiores gênios do século XX, e um mestre da Espiritualidade Sublime que reencarnou em importante missão em nosso orbe. Este era o ponto fraco dele? ou foi corajoso, de sua parte, admitir publicamente algo que não é propriamente uma falha psicológica ou moral? O que você teria a dizer sobre isso?

(Espírito Eugênia) – Primeiramente, gostaria que se fizesse uma distinção muito clara entre promiscuidade e poligamia, entre “sexo livre” e “infidelidade consentida”, entre o sexo casual assumido (que é um vício como qualquer outro) e a experiência-tendência da poligamia. Segundo, a vivência da poligamia sempre existiu na espécie humana e sempre existirá, enquanto houver vínculos sexuais entre pessoas. Explicando-me: as regras de relacionamento sexual foram cunhadas em função da reprodução humana e da constituição de família, para o zelo com a prole. Na medida em que a espécie humana adentra uma era civilizatória em que os aspectos meramente reprodutivos da sexualidade perdem progressivamente importância, elementos antes considerados heréticos, na conduta sexual – como a emancipação feminina (que fazia o homem se sentir desobrigado de prover seus rebentos), a homossexualidade (porque, em tese, impediria a reprodução: asseverei “em tese”, visto que muitos gays se casaram e deixaram descendência), a virgindade obrigatória antes do casamento (que garantia a não-fertilização por outro homem, antes que alguém assumisse uma parceira como consorte), o divórcio (que podia lançar toda uma família na penúria extrema) –, vão se tornando situações sociais aceitáveis e mesmo indicativas de modernidade aprofundada, aplicada e vivida, em diversos segmentos das comunidades humanas, sobremaneira as mais cultas e desenvolvidas tecnologicamente, conforme se pode observar nitidamente – notem-se, em especial, os índices de prosperidade econômica e política, que conferem, nas democracias pós-industriais, um coeficiente de liberdade ao indivíduo sem precedentes, na História da Humanidade.

A religião e seus estatutos, em verdade, tão-só exaravam, dando-lhes uma aura de obrigatoriedade inquestionável, as necessidades de interesse coletivo, que, por isso mesmo, foram bem-vindas ao tempo certo, nas sociedades apropriadas. Não mais hoje, todavia.

(BT) – Nossa, Eugênia, isso é extremamente polêmico…

(EE) – Não tanto. Observe que André Luiz, no clássico Nosso Lar, de autoria mediúnica do inolvidável Chico Xavier, referiu-se a um caso curioso em que um homem coabitava com duas esposas de sua pregressa existência. Deixou claro que não aludia, ali, à bigamia, nos dizeres terrenos, mas lembrava a constituição das famílias do orbe, em que antigos relacionamentos sexuais de ambos os pais renascem como filhos do casal, para darem continuidade ao aprendizado reciprocamente partilhado, século sobre século.

(BT) – Então, não havia sexo, como você mesma disse.

(EE) – Nunca há, meu filho, mesmo com a esposa com quem a personagem entretecia laços mais profundos de afinidade, e que ocupava, com mais “legitimidade”, a função de consorte espiritual. Na Espiritualidade Sublime, como se sabe, não há a fricção de corpos, na cópula animal indispensável à procriação. A mera aproximação psíquica, com permuta de forças mentais, é suficiente para que a satisfação profunda de alma a alma possa acontecer.

(BT) – Você quer dizer, portanto, que pode existir, no plano físico, a necessidade de sexo com mais de uma pessoa, em laços dessa natureza?

(EE) – Sim. Mas não se trata de algo imperioso. Pode ocorrer ou não. É muito comum, nas relações humanas, percebermos vínculos esponsalícios entre pessoas que não mantêm intimidade física, de caráter sexual. Por exemplo, sócios de um empreendimento profissional, parceiros de trabalho muito harmônicos, amigos bastante afinados, familiares sinérgicos: vivem formas dissimuladas de poligamia, em que o consórcio dos espíritos envolvidos favorece a troca de elementos fertilizadores entre os psiquismos, a fim de que a produtividade, a criatividade, a motivação, a fraternidade, a felicidade possam se estabelecer de múltiplas, concomitantes, progressivas formas de satisfação partilhada. Todos sempre ganham com isso… É o egoísmo humano, em seu exclusivismo possessivo e controlador que urde as teias mefistofélicas da castração a dois, em que, amiúde, inimigos se intoxicam mutuamente, adoecendo corpo e espírito, em antipatia correspondida e retroalimentada, década sobre década. Muitos matrimônios de fachada, assim, são mantidos por mero interesse patrimonial ou social, na preservação das aparências, quando não existe mesmo, a motivar a perpetuidade dos laços corrompidos, o mero medo da solidão, do abandono, da rejeição.

(BT) – Nossa!… Eugênia… Tem certeza de que você quer que eu publique isso?

(EE) – Sim.

(BT) – Muitos se chocarão.

(EE) – Sei disso. Mas nos agradecerão no futuro. Atualmente, os polígamos vivem na clandestinidade, quais os homossexuais de outro tempo e de hoje mesmo, em vários rincões retrógrados do planeta. Por sinal, quantos homossexuais se declaram, no presente, mesmo em ambientes ultracivilizados? Ainda constituem uma minoria. Estarão, tanto homossexuais como polígamos, liberados, nas sociedades do futuro, a viverem seus elos de felicidade e criação, sem vulgaridade, promiscuidade ou apego a viciações de ordem sexual, que nada têm a ver com o que aqui estudamos.

(BT) – Curiosamente, quando fez referência à não-obrigatoriedade do conúbio sexual, lembrei-me de que, há poucos meses, acordei-me muito grave, para conversar com meu companheiro, Delano Mothé, revelando-lhe que me encontrava numa relação a três e lhe perguntando se não se incomodaria com isso. Meu pobre consorte fez uma expressão de espanto e angústia, a princípio, mas abriu enorme sorriso quando lhe esclareci que estava me sentindo casado com você, adorável Eugênia…

(EE) – Exatamente. A sinergia psíquica profunda é o que caracteriza a relação esponsalícia. Observe que isso deixa espaço a múltiplas interpretações, e muitos discordarão, provavelmente com razão em vários aspectos, desta nossa conceituação de poligamia. Mas cada qual, na câmara secreta da própria consciência, pode averiguar se se sente casado com alguém que não seja seu parceiro sexual. A identificação desses laços facilita a administração da própria existência, porque os “cordões de bronze” (leia-se, neste mesmo sítio eletrônico, estudo de Eugênia a respeito) que se estabelecem entre esses “esposos do espírito” são profundamente poderosos, e devem ser considerados em toda ordem de tomada de decisão séria na vida de um indivíduo, para que as compensações ou descompensações energéticas, oriundas da contemplação ou negligência dessa realidade psíquica subjacente, não venham a favorecer o que não se queira ou frustrar o que se pretenda materializar no próprio caminho de vida. Há pais de família casados com uma filha ou um filho(!), e nenhuma decisão é sustentada sem a anuência do consorte da alma, não importando o quanto o cônjuge do corpo se oponha ou não. CEO’s de grandes corporações entretecem visíveis elos eróticos (sem sexo) com determinados assessores, ainda que do mesmo sexo (sendo ambos heterossexuais), e a fermentação recíproca de idéias é óbvia para qualquer observador que se permita estudar, com mais cuidado, o profundo processo de “fertilização” psíquica que realizam, para promover as obras por que são responsáveis.

Vemos aqui, inequivocamente, a “libido” da terminologia freudiana, que não é outra coisa senão isto: a energia para a vida, que o bebê projeta no seio materno, sugando-lhe a linfa salvadora, necessidade esta que, mais tarde, a criatura redimida volta para a Transcendência, nutrindo-se das Vibrações Sublimes que dimanam dos Representantes de Deus, num fenômeno bem denominado de “teotropismo”, por um mestre de nosso Plano, quando encarnado (*).

Lembremo-nos de como os preconceitos são cancros persistentes na psique humana, tanto de indivíduos, quanto de coletividades inteiras, e de que somente pela libertação de atavismos primários lograr-se-á ascender para as excelsitudes da vida angelical, em que o sexo terá sido de todo abolido, da perspectiva humana (que o entende como encontro físico-afetivo íntimo entre criaturas), mas em que o amor, pujante, livre de peias ou qualquer tipo de castração aviltante, manifesta-se de toda forma e em todas as direções possíveis, sem distinção de pessoas, situação ou classe social. Medite-se nisso.

Na dúvida, prezado amigo – e isso gostaria de explicitar ao leitor que se sinta um pouco mais confuso (o que é natural) –, siga cada um a bússola infalível da própria consciência, fazendo uso da ferramenta básica para a solução de pendências complexas, proposta por Nosso Senhor Jesus: “Conhece-se a árvore pelos frutos.”

(BT) – Eugênia, posso fazer uma última provocação sobre a temática?

(EE) – À vontade.

(BT) – Allan Kardec, abordando o assunto, obteve dos Espíritos de Escol que o inspiravam a resposta de que a monogamia e o casamento constituíam índices de progresso e de afastamento da selvageria animal. Isso não entra em contradição com suas assertivas?

(EE) – Não. O próprio Kardec asseverou que as contradições havidas em ditados do Plano Superior são mais aparentes do que profundas. Primeiramente, a época era outra. Assuntos desta envergadura de delicadeza e complexidade não poderiam ser abertamente ventilados por aqueles dias. Os próprios Orientadores Desencarnados do Codificador disseram-lhe que ao futuro estariam reservados relevantes esclarecimentos sobre tópicos ainda proibitivos para aquele momento, asseverando, como base principiológica das mais importantes do Espiritismo, que nossa escola de pensamento cresceria e seria reformulada, à medida que novos conhecimentos e costumes, com a natural evolução dos povos, tivessem oportunidade de acontecer.

Tratava-se sexo, à época, como uma mera necessidade fisiológica. E quem ainda vir a sagrada função desta forma deverá sofrer a regra geral da contenção disciplinar dos impulsos. Todavia, quando um indivíduo adentrou patamares mais altos de sofisticação psicológica, refinamento emocional e complexidade psíquica, terá necessidades correlatamente mais complexas, profundas e – para uma ótica mais estreita, superficial e preconcebida – ambíguas, questionáveis, mas que preferimos dizer, numa linguagem mais filosófica: paradoxais.

Há quem ainda precise compreender Deus como um ministrador de castigos eternos, para abster-se de praticar maldades. Também há quem necessite entender que será punido com o carma, se não ouvir a voz de sua consciência (como se fosse necessário maior punição que o mal-estar consigo mesmo, com a perda da paz). E, muito embora conseqüências desastrosas realmente advenham de má conduta, que podem ser compreendidas como provenientes de um Deus-Justiça ou da Lei-do-Carma, o fato é que cada um deve buscar o quadro de valores de que carece, para seu adiantamento e melhoria das condições de felicidade e paz partilhadas com seus semelhantes.

Importante considerar, entrementes, que, assim como existem os que vivem na linha rasa da moralidade comum, há os que trafegam nos Altiplanos do Poder percebido e utilizado, conscientemente, para o bem comum, e que nunca fraudam, não por medo de ser descobertos ou punidos, e sim porque têm aversão ao mal e atração natural pelo bem. Para estes, a era da obediência findou-se, e vivem um reinado absoluto da consciência, a um ponto tal que, ainda que sofressem amargos resultados por suas escolhas não-convencionais (conquanto não necessariamente contra-convencionais), prosseguiriam, impertérritos, em suas opções extraordinárias, fomentado o progresso das coletividades e favorecendo a aceleração da chegada da era da felicidade comum e da concórdia universal que um dia se estabelecerá sobre o orbe, para nunca mais ter fim. Lembre-se de Joanna d’Arc, queimada viva por não renegar a Voz dos Imortais e por rejeitar roupas femininas; ou de João Huss ou Giordano Bruno, permitindo-se imolar pela fidelidade às suas convicções científico-filosóficas. Há-os ainda hoje, como também as fogueiras, da mesma sorte. As piras ardentes, em que crepita o fogo da intolerância e do ódio a minorias, são mais subjetivas e metafóricas, mas continuam fazendo suas vítimas, com dores provavelmente maiores que as de uma mera morte por combustão viva, porque, amiúde, mais sorrateiras, sutis e demoradas, consumindo, aos poucos, seus mártires, ano sobre ano, década sobre década, para só serem aplacadas quando os ventos da História soprarem sobre comunidades reacionárias, compelindo-as a páramos mais altos de civilidade.

(Diálogo travado em 24 de outubro de 2008. Revisão de Delano Mothé.)

(*) Huberto Rohden. Tem sido citado por outros autores, inclusive co-autores mediúnicos, sem a devida referência ao autor original.

(Nota do Médium)




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