Diálogos com o Espírito Eugênia-Aspásia

28 de julho de 2008
 

Diálogo sobre Humildade.

(Um jovem recebe a graça da permuta positiva de um carma, isentando-se de uma deficiência física; pudores do médium sofrem o mesmo objeto de reflexão por parte da Mentora Espiritual.)


Benjamin Teixeira,
em diálogo com o espírito
Eugênia.

Introdução:

Estava dialogando com Eugênia, como o faço todos os dias, lamentando-me sobre o fato de um rapaz de boa índole e muito aplicado nos estudos e atividades espirituais ter se ausentado de nosso almoço-culto da última quinta-feira, por estar evitando sair muito de casa, em processo de recuperação de uma lesão no tornozelo, o que o levou a perder o momento ímpar em que a orientadora espiritual psicografou uma missiva mediúnica breve para cada um dos 22 convivas (23 comigo) à lauta refeição de fraternidade e Luz Espiritual – de cujo conteúdo surgiu a mensagem “Culto do Evangelho com Eugênia – 20 (Visita da Eternidade)”, artigo mediúnico publicado imediatamente antes do presente texto, neste mesmo site. A lamúria dizia respeito a como constituíra, para ele, uma “infeliz” coincidência o evitar ir a um momento de deleite, para não faltar ao seu compromisso mais sério, à noite, da reunião mediúnica de que é participante recém-ingresso. Surpreendi-me, então, com a mestra, que não só anuiu ao sentimento de injustiça aparente que me ocorrera, em relação ao episódio, como enviou ao jovem uma epístola psíquica, e ainda mais extensa que as dirigidas aos demais convivas do tal encontro, prosseguindo, depois disso, por entabular uma conversação comigo, sobre a mesma temática.

O Diálogo:

(Eugênia) – Ele priorizou o essencial, escolhendo estar na mediúnica, preterindo o instante de entretenimento, sem saber que, em verdade, não se tratava de um encontro fraterno, tão-só. Então, decidimos por lhe apresentar uma alternativa para o não haver recebido a mensagem pessoal, comunicando-lha agora, nesta circunstância especial. Primeiro, confirmamos-lhe que está sob nossa proteção. Que, no que concerne ao acidente recentemente sofrido, algo muito pior lhe poderia advir – e de fato ocorreria, sem a intervenção da Infinita Bondade de Nossa Mãe Santa. Que seu devotamento à nossa Causa, a Causa do Bem, da autotransformação para melhor, no sentido de uma maior utilidade ao bem comum, galgando-se níveis mais altos de lucidez, fê-lo merecer esta nossa interferência, de nossa Equipe, de molde a que ficasse provisoriamente aprisionado ao reduto do lar, em período de reflexão, em vez de padecer uma lesão definitiva no corpo, que lhe aconteceria, caso não estivesse sob nossa guarda – ele fez jus, dessarte, a tal intercessão. Seria um homem de muletas ou com uma prótese, carregando esta “vergonha oculta, às vezes à mostra”, pelo resto de sua atual existência física, o que sabe lhe seria muito duro, numa linha de destino já amarga, até a presente data, em vários aspectos, dentro dessa sua reencarnação.

Queremos lhe adiantar, outrossim, que, seguindo a rota que escolheu: de estudo, disciplina e esforço, por se melhorar e se capacitar profissional e academicamente, encontrará seu trajeto de felicidade e realização íntima, não sendo necessária nenhuma dúvida neste particular, porque, no que tange à outra questão – a da plana espiritual –, que lhe absorve especial atenção e em que se vem empenhando de longa data, em idade tão “tenra”, já lhe não precisamos nada mais aditar, pois que bem sabe quão essencial o é, para, inclusive, gerar-lhe caminhos e soluções novos para as pendências e problemáticas, desafios e provações que enfrenta, vida afora, em todos os setores de seu jornadear.

Mãe e mestra,
Eugênia.

Comentário:

Terminando de receber o trecho da mensagem acima, telefonei para o tal jovem e alonguei-me em mais minudências sobre seu carma (sendo autorizado a dizer-lhas), explicitando alguns outros detalhes acerca do assunto, que Eugênia me passara, não inclusos na breve correspondência mediúnica. Pressentindo que algo mais havia a ser dito quanto ao episódio, tornei à grande mestra espiritual:


(Benjamin) – Eugênia, relativamente ao que eu disse a (…), sobre ter ele programado uma lesão maior – essa a que aludiu –, você quer lhe detalhar alguma coisa?

(Eugênia) – Sim, posso falar alguma coisa, mas não propriamente no sentido de complementar, e sim de confirmar o que lhe informou. Ele havia, realmente, planejado essa vivência mais dolorosa da humilhação, no campo da incolumidade física comprometida, mas era uma pré-estipulação em aberto, considerando a possibilidade de ingressar em um trabalho de ordem espiritual, mais precisamente em nossa Organização, a que ele é ligado, desde antes do berço. Logo, está de parabéns: foi aprovado num exame muito difícil, o que indica haver tomado uma excelente rota de eventos, em sua atual existência, eis que as bênçãos tendem a se agregar, por efeito cumulativo, quais os juros compostos de um investimento bem feito. Isso nos remete ao pensamento de Nosso Senhor Jesus, quando diz: “Àquele que mais tem, dar-se-á e terá em abundância” (*1).

(Benjamin) – Engraçado… você disse que não iria complementar, só ratificar, mas acabou distendendo o assunto.

(Eugênia) – (risos) Sei que gosta de revelar minha intenção de corrigi-lo, bem como o fato de que estou bem além de você. Só que meu impulso é inverso. Não quero passar esta imagem: de que você fala inapropriadamente e apenas esclareço melhor corretamente.

(Benjamin) – Claro que fala e esclarece melhor, Eugênia! Que conversa estranha! Isso é assunto pacífico, para mim e para todos nós!

(Eugênia) – (Risos) Se houver necessidade de corrigenda, faço-o sem pudores, como sabe. Mas não me apetece, em nada, passar uma imagem do que você não é, como tanto lhe apraz fazer em público, “queimando-se”, por exercício de humildade. “Queimar-se” ante os outros, simulando deficiências ou tendências viciosas que não porta, não é algo nobre, e sim condenável, já que constitui insinceridade num sentido contrário (o de se prejudicar, ao invés de levar vantagem). É bem verdade que, ironicamente, as pessoas acreditam mais em alguém que minta, dizendo não possuir uma virtude que de fato apresente, do que em quem, no exercício da honestidade plena, assuma uma qualidade que desperte suspeita, por ser invulgar, suscitando a dúvida sobre a autenticidade da revelação, ou por passar, ainda, uma impressão de arrogância e vaidade. Além disso, é confortável esconder que se está à frente, porque a massa costuma projetar muita expectativa e pressionar com alta exigência os que seguem mais adiante, no carreiro evolucional. E você tem esta motivação íntima, um tanto egoísta e acomodatícia: a satisfação de se manter oculto, o pudor do próprio brilho, a alegria de passar despercebido, para não insuflar o ataque da inveja, do ciúme e da desconfiança, que tanto ferem corações sensíveis. Jesus recomendou: “Assim, brilhe vossa luz, diante dos homens, para que vejam as boas obras e glorifiquem o Pai que está nos Céus” (*2). Paradoxalmente, assumir virtudes é um exercício de legítima humildade, ao passo que negá-las pode indicar um ego polido, que desenvolve o que se conhece muito bem nos meios cultos: a modéstia. Sei que, no seu caso, a questão é mais intrincada, havendo o complexo de inferioridade envolvido, sobremaneira por fazer você um natural cotejo com os amigos de Nosso Plano, em melhores condições evolutivas, com quem interage cotidianamente. Mas cuidado para não confundir as pessoas, quando se apresenta desmerecedor de qualquer consideração, quando se diz muito comum – elas não têm a sua perspectiva, e supõem que você esteja fazendo um estudo comparativo com elas, ou se utilizando de referenciais terrenos, e não dos que realmente considera: os paradigmas de virtude de Nossa Dimensão de Consciência.

(Benjamin) – Nossa!… Que faço com este diálogo, Eugênia? O assunto era o de (…), a partir do texto que passei para ele, de sua autoria.

(Eugênia) – Creio que não só ele deva receber o conteúdo deste nosso diálogo, mas também a comunidade dos amigos que nos lêem e ouvem, porquanto alguns deles vão se sentir confortados e esclarecidos em acerbas contradições íntimas a que você os precipitou, involuntariamente, com essa sua postura pseudo-humilde de revelar-se abaixo do que é. Exercite a humildade, genuína e verdadeiramente, agora, e exponha esta nossa fala íntima. Por outro lado, não se sinta solitário nessa inclinação bizarra da má propaganda de si: uma expressiva legião de pessoas o faz igualmente, no domínio material de vida. Você se surpreenderia se soubesse quanta gente esconde suas reais virtudes, sob a capa de intenções de ordem pessoal ou interesses mesquinhos. Com este “escancarar” do Bem, você as estará estimulando a “saírem do armário” (risos), e deixarem claro que há pessoas sinceramente motivadas pelo desejo de servir e se colocar como canais de Deus no mundo, pelo bem-estar comum, ainda que seja de apenas algumas poucas criaturas mais próximas. Usei propositalmente a expressão “sair do armário”, utilizada nos Estados Unidos da América – significando o movimento de homossexuais, até então enrustidos, que trazem a público suas tendências sexuais (antes oclusas da vida social mais aberta, de modo a se evitar a discriminação) –, porque, tão importante quanto assumir sua instintividade genuína, sem máscaras de conveniência social, está também o declarar a boa índole legítima, o desejo santo de amar e ser amado (sem motivações secundárias), o impulso sagrado que alguns têm (e não são poucos) de tudo pretenderem colocar em função do interesse coletivo e não de seus egos pequeninos. Esta parcela da população, que disse ser de muitos, mas em termos absolutos e não relativos, ainda assim é substancial. Qual seria o efeito de 2 a 5% dos habitantes se revelarem, sem escrúpulos, quem são? Sem dúvida, um bem em efeito dominó, em proporção geométrica… exponencial… estimulando, inclusive, muitos fronteiriços do bem, de faixas menos desenvolvidas da população, a optarem pela rota do Divino. O mesmo acontece em relação a bons médiuns, em quantidade ainda maior, em termos percentuais mesmos: 10% da demografia humana de encarnados. Por ora, só os mais ousados e corajosos expõem, ante a multidão, suas virtudes espirituais e suas aptidões psíquicas. A questão é que quem está realmente à frente sente um vívido e honesto pudor em falar dos próprios valores, bem característico dos que legitimamente já são mais avançados na trajetória evolutiva. Há um certo incômodo em mostrar-se, plenamente, em público, inclusive nos aspectos mais nobres – e talvez sobretudo nestes, se excepcionalmente nobres, visto que a revelação de uma falha ou limitação, quando feita de forma apropriada e oportuna, inspira piedade e empatia, ao passo que a exteriorização de peculiaridades superiores desperta inveja e desconforto no ego de muitos, que, por se sentirem inferiorizados, tentam denegrir a imagem daquele que manifesta suas qualidades, ou desmerecem-no quanto podem, em outros aspectos de sua personalidade. Em suma: a alma mais velha (e por isso mais desenvolvida e madura) se sente perdendo em todos os sentidos, expondo-se ao ridículo e ao escárnio, o que não agrada a ninguém. Mas podemos entender que esta exposição, diante das multidões necessitadas de orientação e referenciais beneméritos, é um ato de coragem e dever cristão, por favorecer, com tal atrevimento de transparência, uma influência desencadeadora do bem em muitos mais, tornando o indivíduo que a provoca um agente multiplicador da Luz, onde estiver, com quem estiver. As figuras humanas que mostram o que têm de melhor, heroicamente, sofrem uma experiência de sacrifício, muito meritória, louvabilíssima, porque, com isso, padecem o peso psíquico da resistência coletiva à sua natureza mais acendrada, mas, em contrapartida, promovem uma aceleração do desenvolvimento nas massas populares, que portam, em gérmen, as mesmas virtudes que eles trazem ativas, as quais passam a ser galvanizadas, paulatinamente, e trazidas à tona, mais cedo ou mais tarde.

(Benjamin) – Nossa… Eugênia! Agora percebo a importância da publicação deste nosso diálogo. Muito obrigado por me propor publicá-lo. Jamais o faria, de iniciativa pessoal…

(Eugênia) – (risos) Sem dúvida… eu sei (risos).

(Diálogo mediúnico travado em 25 de julho de 2008. Revisão de Delano Mothé.)

(*1) Mateus, 25:29.

(*2) Mateus, 5:16.




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