Benjamin Teixeira de Aguiar

10 de abril de 2008
 

Lembranças e Visitas de um Ente Querido Desencarnado.

Aline Rangel entrevistando
Benjamin Teixeira.


Aline – Benjamin, você costuma fazer referências carinhosas aos seus parentes desencarnados, em especial ao seu avô Clóvis. Poderia falar um pouco sobre eles?

Benjamin – Sim, meu avô materno, Clóvis Mozart Teixeira, foi um modelo de homem culto e sereno, paternal e amoroso, ao modo um tanto distante dos “machões” do Nordeste brasileiro. Sabia-se abstrair do ambiente, e mergulhar em seu mundo íntimo, não importando o que acontecesse em torno de si. Impressionava-me muito, quando, na provinciana Aracaju dos anos 1970, ele lia, semanalmente, a famigeradíssima revista norte-americana “Time”. Para uma criança de um país monoglota, numa época em que aulas de Inglês não existiam no ensino fundamental, soava-me uma façanha e tanto. Ainda hoje, avaliando em retrospecto, continuo julgando uma proeza, em considerando que as pessoas realmente instruídas, naquele tempo, numa capital nordestina de pequena expressão, eram pouquíssimas, o que torna difícil compreender onde ele encontrava motivação para manter-se atualizado, de forma tão vanguardista.

Eu gostava de ir à sua casa, para comer as guloseimas que minha avó Ildete preparava (grande ás da culinária que ela era, chegando a ter um programa de rádio, na primeira estação de Sergipe, sobre o assunto) e, depois de pedir um papel em branco a vovô Clóvis – como o chamávamos na intimidade –, rabiscar os meus “projetos científicos” (não riam, por favor: era meu sonho, à época, tornar-me um grande cientista, a fim de gerar superpoderes nas pessoas – Claro!… Para que mais uma criança desejaria ser “cientista”?), enquanto ele mergulhava em suas leituras.

Vovô tinha-me em alta conta, e era quem me respondia a todas as perguntas, esclarecendo-me acerca dos mais variados temas, desde como se dá a cicatrização de um ferimento (não entendi na ocasião, mas omiti revelar-lho, para que ele não ficasse frustrado, por tanta consideração que demonstrava ter por mim), até a análise séria de meus “projetos”, explicando-me por que seriam inviáveis. Era frustrante ouvir, atentamente, seus remoques, mas apreciava muito que ele me respeitasse a dignidade humana e fosse sincero comigo, mesmo sendo eu uma criança (vovô desencarnou quando eu acabara de completar 9 anos). Lembro-me de como fiquei abatido, uma certa vez, quando iniciou, com uma surda e complacente risadinha, seu parecer sobre um material que submeti à sua avaliação. Tratava-se de um dispositivo estrambótico, acoplado a um cinturão masculino, para captar energia solar e transmiti-la, diretamente, ao sistema nervoso de seu usuário. Foi o dia em que ouvi, pela primeira vez, e aprendi o significado desta nova palavra… “Meu filho…” – falou, com sua voz pausada e gutural, após terminar o risinho indulgente – “se isso funcionar, o sujeito vai ser ‘carbonizado’”. Apesar de sentir um bolo na garganta, a sede de aprender era maior, fazendo-me desfechar, em seguida à sua sentença: “O que é ‘carbonizado’, vovô?” E vovô respondeu, sempre paciente: “Torrado como um pedacinho de carvão.”

Eu era um perguntador incansável, e vovô inalteravelmente se esforçava por me responder a todas as indagações, com a didática possível a um garoto de minha idade, para algumas questões complexas que lhe apresentava. Ele não tirava da manga fórmulas prontas – que os adultos costumavam utilizar, diante de algum embaraço –, humilhantes para meu ego de adulto em corpo de criança, naqueles dias, como: “Isso você não pode entender ainda. Você é ‘apenas’ uma criança.” Talvez vovô devesse ter aplicado um pouco este princípio comigo (risos). Muitas vezes, ouvi-o discorrer, com grande esforço professoral, sobre matérias que tive dificuldade de entender, ou realmente não entendi, como a que apresentei acima, a respeito do processo de cicatrização.

Vovô era um homem de conhecimento enciclopédico. Por formação, engenheiro – do tempo em que alguém se formava em Engenharia, sem especificações (hoje, são mais de 50 especialidades na área) –, abordava, com desembaraço, temas espinhosos relacionados a outras disciplinas do conhecimento humano. Um homem sábio, em meio a um oceano de ignorância em torno de si. Talvez por isso lhe fosse possível tentar empreender a iniciativa ousadíssima de falar, com simplicidade, de assuntos complexos, a uma criança. Recordo-me de quando me inclinava sobre ele, em tranqüilo estado de leitura, sentado na mesma cadeira que hoje utilizo em meu consultório, a interrogar-lhe, curiosíssimo: “Vovô, o que você está lendo e em que língua você está lendo?” E as respostas dele variavam, nos dois tópicos, deixando-me eufórico: adorava imaginar que ele poderia entender tudo, e que era capaz de ler em vários idiomas.

Uso o “Teixeira” que foi dele, já que, ao iniciar minha carreira como articulista, na imprensa sergipana, aos 19 anos, não quis comprometer meu pai (acadêmico desde o meu nascimento), publicando textos sobre uma religião minoritária e combatida, subscritos com os sobrenomes que nós dois tínhamos em comum (“Aguiar” e “Machado”). Só que, quando lancei o programa de televisão, quatro anos depois, já era conhecido, na cidade, por “Benjamin Teixeira”, tarde demais para que pudesse voltar atrás na idéia. Todavia, muito me orgulho de ostentar, no próprio nome, um legado de meu avô-pai Clóvis – é assim que o considero, bem mais que um avô –, porque, sem dúvida, amo-o enormemente, sendo agraciado, volta e meia, com sua voz grave e suave, que sussurra aos meus ouvidos, quando muito cansado ou triste: “Benjaminzinho… vim ver você…” Nesses momentos, me sinto de novo um garotinho de 7 ou 8 anos, não mais agora visitando, mas sendo visitado pelo “vovô” sábio e sereno. Então, respondo, às vezes já em lágrimas: “Oi, vovô!… Que bom que você está aqui!…”

(Trecho extraído de uma entrevista mais ampla, no dia 9 de abril de 2008.)




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