Alice – Uma História de Amor, Além da Morte.

(Capítulo 4)

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Gustavo Henrique.

Alice se deitou exaurida. Conversou longamente com Anastácia, sobre a fala perturbadora que desdobrara a respeito da eventual proximidade de sua morte física. Renovar o ânimo da velha amada, de fato, não foi fácil. Sentiu-se, assim, extenuada, após tantas emoções, numa tarde e noite que se fizeram sombrias para vários personagens de nossa história, inclusive para ela mesma, que se atormentava, ainda, com a idéia de deixar para trás a pessoa de seu filho espiritual, esposo do espírito, alma gêmea de sua alma – tudo a um só tempo.

Entregou-se, em preces fervorosas, ao sono reparador, rosto lavado pelas lágrimas, que lhe refrigeravam o coração dorido, transbordando as dores infinitas de seus sentimentos profundos… Poucos minutos depois, via-se-lhe a figura diáfana, ainda mais bela que a ostentada no plano físico, completamente lúcida fora do corpo, reconhecendo, de imediato, amigos desencarnados que velavam pelo seu sono fisiológico.

– Nobre Alice, o Conselho de Anciães dos povos lusofônicos deseja falar com você.

– Muito me apraz sabê-lo, querida Melinda – respondeu, presta. – Eu mesma gostaria de ter uma audiência com eles.

Instantes depois, o grupo de autoridades angélicas – que dirigiam os mais de 200 milhões de encarnados e os 450 milhões de desencarnados jungidos às nações de língua portuguesa – recebia a visita da grande dama. De uma forma pouco traduzível em vernáculo terreno, Alice aparentava o dobro, talvez o triplo, de sua idade no organismo físico, embora, conforme dissemos, não só mantivesse a mesma beleza, como a apresentasse ainda superior à ostentada no aparelho biológico. O frescor dos traços era o mesmo, mas a majestade de sua alma velha e a maturidade de seu espírito luminífero toldavam-na de uma ancianidade indefinível.

Numa estrutura colossal de pedra, que lembraria um monumental castelo de tempos idos, deslizando à guisa de uma musa incomensuravelmente bela e etérea, os olhos a cintilarem um azul que não se revelava no corpo (cor de mel nas íris do maquinário físico, como os leitores deverão se lembrar), estacou numa sala de proporções mastodônticas, ao centro de um semicírculo de senhores e senhoras envoltos em túnicas alvíssimas e cabelos igualmente nevados, que se mantinham sentados atrás de uma mesa também em forma de meia-lua, a esconder os convivas daquele banquete espiritual de Luz Sublime, da altura do estômago para baixo. Era visível que a recém-chegada renovava-se na atmosfera de êxtase celeste que permeava cada milímetro daquela psicosfera. Retornara à sua freqüência habitual de existência, fora do corpo material: voltava ao lar… finalmente estava em casa… Os vultos estavam cercados de tal iridescência espiritual, que mal se lhes podiam divisar as silhuetas, quanto mais os semblantes, que se mostravam, destarte, como que cobertos de uma indescritível névoa… digamos… de amor… Uma voz masculina poderosa e aveludada, parecendo vir de um ancião paternal e forte, ribombou no ambiente ciclópico, como se um sistema de amplificação de som a tornasse audível por dentro das próprias entranhas dos presentes, sem, porém, a ninguém incomodar:

– Nobre Alice, autorizamos sua descida à ribalta da reencarnação, com o fito precípuo de sustentar tremenda peleja redentora, em benefício de milhões de almas, no século e milênio da era cristã que ora têm seu início. Sabíamos que portaria probabilidade maior de recambiar-se mais cedo ao nosso Plano de ação; e esta data, como é de seu conhecimento, está muito próxima. Todavia, não estamos surdos aos apelos de seu coração acendrado em séculos de martírio e devotamento à causa do bem, prenhe como é, por conta disso, de grandes méritos e concessões especialíssimas de natureza cármica. Por isso, cabe-nos dizer-lhe que, apesar de termos menos de um ano, a partir do presente momento, para o fim do prazo estipulado para o seu retorno a estes sítios, numa primeira hipótese programática, goza você de recursos potenciais, no sentido de reverter este planejamento original, de molde a ficar no domínio material de existência por mais 60 ou 70 anos, quando o veículo orgânico que atualmente utiliza, para se manifestar na crosta do orbe, estiver nas proximidades dos 100 janeiros de vida.

Lágrimas em flux deslizavam, sobre as faces nacaradas e angelicais da visitante embevecida, que preservava, respeitosa e reverente, ininterrupto silêncio, ante as Figuras Ilustres.

– Para isso, no entanto, terá você que obter, de seu consorte espiritual, uma inequívoca prova de devotamento e amor integrais à nossa causa transcendente de conduzir milhões às veredas da Espiritualidade genuína, aplicada no dia-a-dia. Como, entrementes, ainda traz ele o coração crivado de limitações medonhas à receptividade excelsa de que se precisa fazer portador, como líder – em que se deve converter, por desígnio divino – de legiões de sofredores e ignaros na matéria espiritual, ofertamos-lhe o prazo de nove meses e nove dias, para que lhe toque as fibras íntimas e o faça tão alinhado com nosso diapasão de ideal, que possa ser premiado com sua estada permanente ao seu lado, no tempo que durar sua romagem existencial no domínio da matéria.

Pequenos e discretos soluços de gratidão e bem-aventurança sacudiam o tórax mimoso de Alice, enquanto os filetes de lágrimas avolumavam-se, sobre a escultura viva de seu rosto incomparável.

– Sabemos, digníssima Alice, que abandonaria as delícias do mais alto dos Céus, e desceria às profundezas mais abissais das zonas purgatoriais que se denominam infernais, para estar ao lado do escolhido de sua alma, desde sempre, para sempre… Por isso, e em função das elevadas insígnias de louvor e glória, em quatro milênios e meio de serviços prestados ao nosso planeta, nos últimos séculos vinculada aos povos de língua portuguesa, outorgamos-lhe esta chance bendita de converter, definitivamente, a alma mui amada de seu coração extremoso, com a ardência, desconhecida no plano físico de vida, de seu amor redimido.

O olhar de Alice, neste ponto, escorregou para baixo, fazendo-lhe pender a cabeça, como que arrastada, insopitavelmente, por uma lembrança menos feliz. Respondendo-lhe, contudo, ao monólogo íntimo, prosseguiu a Voz da Verdade:

– Entretanto, adorável princesa de pureza inefável, por conta de portar o estandarte de uma luz ainda incompreensível para os olhos humanos, terá seu amor, a partir desta data, o condão de descer aos chacras basais de seu corpo, e, portanto, pela primeira vez no transcurso desta vida física, poderá sentir os desejos carnais habituais aos seres humanos médios do globo, os mesmos desejos de que, há milênios, jaz libertada. Assim, com esta concessão bizarra, mas necessária, em função do nível de consciência de seu cônjuge espiritual – uma operação extraordinária em seu psicossoma (*), de efeitos transitórios (que durarão apenas o espaço desta estada no mundo físico) –, poderá a companheira de ideal impoluto experimentar as premências sexuais peculiares aos humanos, a fim de que esteja apta a unir-se em consórcio matrimonial com aquele que ainda muito a vê como mulher, conquanto já a possa intuir como o anjo que é.

Alice, agora misturando às lágrimas um luminoso e intraduzível sorriso, levantou os olhos novamente para os anciães e disse a primeira e última, única palavra que proferiria, diante da plêiade de autoridades excelsas, com meigo e tocante timbre de voz, como se arrancasse um canto inaudível de sua alma amadurecida, nos milênios sem-fim:

– Obrigada!

Em questão de segundos breves, em um incômodo surto de tosse, como se houvesse sido ressuscitada de um estado de morte clínica, Alice despertou no organismo de carne, sentindo estranhas reações emocionais no corpo, qual se estivesse febril e adoentada.

Dois dias e duas noites passaram-se deste modo, com Alice novamente chumbada ao leito, rememorando um sem-número de vezes, entre preces de gratidão e louvor a Deus, a graça ímpar com que fora honrada. Vinham-lhe já, todavia, aflições diferentes, que nunca vivenciara antes naquela sua curta experiência na matéria, a entrecortarem, com conflito e eclipse da lucidez espiritual, suas meditações. E o anjo que tudo fizera para estar ao lado de seu protegido, a ponto de descer ao plano físico de vida, deu-se conta de que se concretizara, em si, o último nível de seu sacrifício: o animal de seu veículo biológico, em seus impulsos naturais à reprodução e à conjugação carnal, apelava para o que ela, até a presente data, lograva neutralizar com as vibrações elevadíssimas de sua alma liberta, há séculos, do lodaçal das reencarnações terrenas. Alice, então, começava a recordar-se de Matheus, com “estranhos” impulsos, que há mais de mil anos não sentia: o ímpeto – bem conhecido da espécie – de lançar-se na direção do ser desejado e jungir-se ao seu corpo, como metáfora da sede de conjunção dos espíritos.

* * * * *

O sábado amanheceu chuvoso, e o telefone tocava com insistência, mais uma vez, na casa de Anastácia e Alice. Foi a enfermeira aposentada quem atendeu:

– Não sei se isso seria apropriado, senhor Matheus… Está muito cedo, Alice sequer acordou. Creio que o senhor não deva estar se sentindo muito bem… Mas… Ah…

Alice apareceu à sala, de camisola longa, até os pés, em modelo semelhante ao de sua tia-avó, que lhe respondeu ao olhar interrogativo, em meio a uma expressão de pasmo e desorientação, ainda segurando o fone:

– Matheus afirmou, categoricamente, que precisa vê-la… e que está vindo para cá… a-go-ra?!?!… E… antes que eu pudesse apresentar qualquer objeção, simplesmente desligou o telefone!…

Como se estivesse sendo retirada de um estado sonambúlico, desfez a carantonha de perplexidade e exclamou, qual se falasse mais consigo mesma do que com a sobrinha-neta:

– Resolvo isso agora mesmo. Vou retornar e tentar detê-lo em casa, ou pedir a Guilherminda que intervenha, sustendo-lhe o passo desgovernado…

– Tia!

Anastácia sentiu os dedos paralisarem. Voltou-se para Alice, como se houvesse se convertido numa criança e ouvisse a reprimenda de uma anciã venerável.

– Não faça isso, por favor – articulou, serenamente, a menina-moça.

Como acontecia em situações críticas, em que Alice fazia pedidos de forma firme e direta, Anastácia se via compelida a atendê-los, sem nem sequer questionar. A intimidade extrema, no entanto, dava largo espaço ao comentário que se fez irresistível:

– Não sei o que faço, menina, quando você me dá estes comandos. Não consigo agir como sua responsável, a protetora que a guarda dos lobos deste mundo!… – protestou, terna, mas sinceramente.

– Querida tia Anastácia – respondeu, maternalmente –, não preciso de proteções. Matheus não é um animal; por sinal, já atingi a maioridade e não sou tão inocente ou inexperiente como a senhora imagina.

Anastácia sentiu um comichão estranho, à altura do estômago, e, pela primeira vez na vida, fitou a sobrinha-neta vendo-a como uma mulher e não um anjo, qual sempre e apenas a percebia. Balançou a cabeça como se afugentasse maus pensamentos e disse, ajeitando as vestes e fingindo não ter entendido o que Alice insinuara, nas entrelinhas de sua fala:

– Vou ver se Arlinda já preparou o café. Precisamos ter alguma coisa para servir a esse moço, quando ele aparecer. Terei que ajudá-la nos preparativos do desjejum, porque, certamente, pouco passando das 6h, a velha serva não lhe pode ter concluído a feitura.

Alice sorriu consigo mesma, apercebendo-se de toda a confusão que se lançara sobre a mente da tia, impregnada de idéias e valores puritanos, enquanto já antevia as implicações numerosas que se lhe delineariam, dali por diante, com o despertar de sua sexualidade milenarmente adormecida. Apesar de ter ciência da própria condição de alma lúcida e contida, sem dúvida haveria de se deparar com injunções com que não se defrontava, há mais de dez séculos: desde a conturbação íntima na presença do homem desejado, que precisava ser dissimulada, até as manobras sutis para contornar a agressividade sub-reptícia de outras mulheres sexualmente ativas, com o mesmo interesse no eleito de sua alma. Em suma: tudo que um ser humano adulto normal vive tão naturalmente, que nem se dá conta do quanto é extremamente difícil, nos primeiros momentos do despertar sexual, por volta da pré-adolescência. A “puberdade” de Alice, para completar, não surtia efeitos só em seu corpo, mas constituía um mergulho de seu espírito sublimado, nas águas turvas da necessidade instintual de sexo. Até então, vivera apenas pruridos emocionais de encantamento – que se poderiam dizer “românticos” –, como os que a convulsionaram no primeiro encontro com Matheus, no saguão do cinema, mas nada que nem de longe se avizinhasse dos ímpetos de fome afetiva da premência sexual.

O executivo garboso chegou em vinte minutos. A esta altura, sob a batuta enérgica de Anastácia e contando com sua ajuda, Arlinda dispusera já a mesa da sala principal, com café fumegante, leite morno, pães variados (sobras do jantar do dia anterior), queijo coalho e alguns biscoitos finos. A campainha tocou.

– Arlinda, prepare um suco de laranja, enquanto eu mesma atendo – disse Anastácia, retirando o avental de sobre o vestido simples, que vestira velozmente, e limpando as pontas dos dedos de migalhas de pão.

Não teve tempo, porém, de alcançar a porta de entrada, para recepcionar o visitante. Para sua enorme surpresa, quando se aproximou do hall de entrada, encontrou Alice num casto, mas cálido, abraço ofertado ao visitante, após os convencionais dois beijos nas faces.

– Não fuja mais de mim, Matheus. Não me deixe nunca mais… – sussurrou Alice, com voz entrecortada de emoção, na sinceridade crua e nua das almas muito nobres.

O recém-chegado sentiu um calor subir-lhe pela espinha, disparando calafrios pelo corpo inteiro, e se notou com as pernas trêmulas. Todo o turbilhão de angústias que o trouxera, atormentado, até ali, cessara, completamente, com o toque e a voz de sua adorada.

Anastácia, assustada com a cena de tom erótico (apesar de afetuosa e civilizada) que nunca conseguira imaginar em relação a seu anjo adorado, esforçou-se para parecer natural, gaguejando, nervosa:

– Se-se-nhor Matheus… Pu-pusemos a mesa, às pressas, em função de haver-se decidido vir aqui, tão cedo. Ficaríamos felizes se tomasse o café da manhã conosco.

A destra de Matheus, naturalmente, como que tragada por um ímã irresistível, deslizou na direção da mão esquerda de Alice, e os dois, como se já se conhecessem de há muito e namorassem há vários meses, seguiram, trocando sorrisos e olhares de cumplicidade tépida, para a mesa atrativa, de aromas provocantes, sob o olhar atônito da senhora aturdida, que não conseguiu frear a queda do queixo, ficando, assim, boquiaberta, por pelo menos cinco segundos, a observar, lívida, os quadros de naturalidade humana que nunca suporia possíveis, até aquele momento, com sua amadíssima menina, mas que sempre almejara para ela, não obstante, agora, acontecendo tão repentina e plenamente, causarem-lhe um certo estupor de receio e preocupação.


(Texto recebido em 14 de março de 2008. Revisão de Delano Mothé.)

(*) Em terminologia espírita clássica: perispírito, o corpo do espírito.
(Nota do Médium)


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