Resolvendo Problemáticas com a Figura dos Pais.

(A Correspondência do Padre Rafael – 03.)


Benjamin Teixeira
pelo espírito
Gustavo Henrique.

O Padre Rafael recebeu nova carta, provinda de jovem residente em cidade vizinha, que lhe dava continuidade a drama que ele acompanhava à distância, há alguns anos. Uma moça, adotada desde o berço, que já estivera resolvendo questões com o pai do coração, agora vinha elaborando suas dificuldades com a mãe da alma que a existência lhe confiou. Quando o sacerdote tomou prumo para digitar ao computador, em resposta à missivista, uma figura de mãe extremosa de nossa dimensão de vida, guia espiritual da destinatária do texto que seria redigido, acoplou-se-lhe ao psiquismo, enchendo-o de ternura pela moça, levando-o a grafar, quase em lágrimas, em regímen de perfeita psicografia, a epístola que se segue, imediatamente enviada, por correio eletrônico, através da rede mundial de computadores.

“Cara filha do coração:

Que Jesus nos abençoe, hoje e sempre.

Muito embora não lhe possamos antecipar resultados, no que concerne a conclusões a que você mesma deve chegar, por reflexão pessoal, no trato com a questão da crise com sua mãezinha, devo asseverar que a inspiração está acontecendo em seu favor, nos momentos em que ora ou medita, e, destarte, será ajudada, como vem sendo, a encontrar formas inteligentes, mas respeitosas (principalmente consigo própria), de preservar seu espaço individual e, ao mesmo tempo, não se adiantar a condenar quem quer que seja.

Buscar a felicidade e a paz, ainda que isso constitua, eventualmente, um afastamento provisório ou definitivo, em caráter parcial, da figura que lhe foi mãe postiça, é a regra diretriz a ser tomada como dominante, em meio ao turbilhão de emoções desencontradas. Quando outras imagens de mãe autêntica, qual a de Nossa Mãe Santa, forem entronizadas em seu íntimo (do mesmo modo que o fez, em relação à ferida da questão paterna, com a figura sacrossanta de Jesus), também logrará cicatrizar a chaga dolorosa – atinente à desinteligência com a mãe – que ainda lhe causa dispensáveis sangrias na alma, deixando-a abatida, desmotivada e com problemas na auto-estima. Projetamos, inconscientemente, em nossos pais humanos, a representação de Deus, desde os primórdios de nossa vida física. Todavia, são eles, inexoravelmente, portadores de inúmeras falhas, que nos impedem de ver refletidas neles, de forma saudável, as imagens de Pai e Mãe que Deus é para todos nós. Por conseguinte, a utilização das figuras de Jesus e Maria, para substituir nossos falíveis progenitores, no cenário de nosso panteão emocional, é um excelente recurso para nos recambiar à paz íntima e ao sentimento de conexão com o Altíssimo, além de nos solver as pendências com aqueles que cuidaram de nós, nos primeiros anos de nossa estada na Terra. Com isso, conflitos converter-se-ão em escusas, bem como raivas e frustrações recalcadas, em piedade e perdão espontâneos, pela condição de pessoas limitadas que eles são, tanto quanto nós mesmos.

Ainda sobre a temática, não tenha pressa em chegar a conclusões. Simplesmente, solte as rédeas do controle. Renuncie a determinar o fim da crise, que se trata de fenômeno complexo e subjetivo, de natureza subconsciencial, que tem seus ritmos e movimentos próprios, os quais precisam ser processados, livremente, até seu esgotamento imprescindível (para que não restem resíduos da pendência neurótica, a se asilarem no plano do inconsciente, assim recomeçando um ciclo de dor que poderia, na presente oportunidade, ser definitivamente encerrado).

Parabenizo-a, pela conduta corajosa e assertiva, de enfrentar seus demônios do passado, com firmeza e serenidade, testemunha que sou, ano sobre ano, de sua batalha íntima ardorosa, longe do alcance dos olhos do mundo, assimilando as forças malevolentes que subjazem aos impulsos de desagregação, no intrincado e riquíssimo trabalho de elaboração dos conteúdos da sombra psicológica.

Encerrando, deixo aqui registrado meu beijo amoroso de pai, pedindo-lhe precate-se contra a tendência de investir-se de culpa, já que somente forças do mal por ela adentram, na fortaleza da alma. ‘Vigiai e orai’, disse Nosso Senhor Jesus, ‘para não cairdes em tentação’.

Entretanto, estou certo de sua vitória, como a tenho visto suplantar-se, sucessivas vezes, em seus padrões viciosos de pretéritas existências e desta mesma, com galhardia ímpar.”

Curiosamente, o sacerdote católico viu-se escrever, no último parágrafo de sua carta, referência à reencarnação, que admitia como real, embora evitasse alardeá-lo, por motivos óbvios. Desta vez, como vinha ocorrendo ultimamente, deixou que a informação persistisse no documento final enviado à moça com quem se correspondia. Perto do desencarne, já não fazia muita questão de facear a fúria preconceituosa da hierarquia de sua organização religiosa, mas, sim, pugnava por se manter fiel, quanto possível, aos ditames da própria consciência. Sabia que, em tempos futuros, os dogmas da igreja seriam revistos, em função de a reencarnação ser uma realidade das leis da vida, e não uma crença particular desta ou daquela religião. Não esperaria pela autorização de seus maiores no plano físico de existência, para utilizar o conceito a fim de salvar e orientar almas. Preferia estar alinhado com seus Maiores da Dimensão Sublime da Vida.

(Texto recebido em 7 de março de 2008. Revisão de Delano Mothé.)


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