Benjamin Teixeira de Aguiar

27 de dezembro de 2007
 

Golpe Alto.

(Cinco dimensões possíveis para a origem de um mal-estar.)


por Benjamin Teixeira.


Cheguei em casa esgotado, no início da noite, neste sábado 22 de dezembro (dia oficial de início do verão), após a realização do programa de TV ao vivo e da condução do culto do Evangelho na distribuição de um dos “sopões” da semana realizados por nosso grupo. Havia dormido muito pouco na noite anterior. Tinha um compromisso mais tarde. Jantei rapidamente e consultei o relógio: haveria tempo para um repouso de 30 a 45min. Ainda que não chegasse a ressonar, daria para descansar um pouco. Tomei um banho célere (não consigo ir para a cama sem tomar banho – risos) e, feliz da vida, precipitei-me na cama. Breves lapsos de sono já me fazem um enorme bem. Mal fechei os olhos, “afofando” a cabeça no travesseiro, a voz doce, mas firme, de Eugênia reverberou na caixa de ossos:

– Meu filho, não seria bom que dormisse agora. Você tem ido se deitar apenas ao amanhecer do dia. Melhor que suportasse um pouco o esgotamento para ter condições de adormecer um pouco mais cedo…

Sem querer ouvir e dando pouco crédito ao que a sábia mentora espiritual dizia, só interessado em resolver meu estado de exaustão, respondi, um tanto contrariado, através do sem-fio do pensamento:

– Ah, é? E o que seria mais cedo?

– Umas 3h…

– ‘Tá certo. Mas eu tenho livre-arbítrio e prefiro descansar agora.

A mãe extremosa e mestra resoluta tornou:

– Não está certo, meu bem. Você tem repousado muito pouco. Desde que chegou dos Estados Unidos, não conseguiu dormir uma única noite, por mais de 6h. Na maior parte dos dias, tem deixado seu corpo ressonar por volta de 4h. Temos muitos anos de trabalho pela frente. A saúde vai-lhe periclitar logo mais, se continuar neste regímen de automartírio.

– Ok. Concordo. Vou tentar resolver isso depois. Mas eu quero dormir agora.

A contra-argumentação não tardou:

– Você chegou há mais de duas semanas dos EUA e todo dia se diz isso, sem resolver este seu “deficit” de sono.

Inamovível em minha decisão, retruquei:

– É verdade. Mas quero dormir agora…

A grande mestra em psicologia redargüiu, ato contínuo:

– Posso conversar um pouco, enquanto você tenta pegar no sono?

– Sim, sem dúvida – respondi.

A voz doce de Eugênia, impregnada de amor, ajuda-me, deveras, a cair no sono, quando estou estressado, com problemas de dezenas, centenas de pessoas que me procuram, sem contar os da Organização inteira, que, pela televisão, atinge muitos milhares, virtualmente milhões, de corações e consciências, em todo o território nacional. Não estava me sentindo com a necessidade deste terno concurso eugeniano, mas não fazia sentido rejeitar uma oferta de amor da mãe santa de todas as horas.

– Interessante o funcionamento da mente humana, não é, meu filho?

Estranhei um pouco. Em vez de ela criar e verbalizar mantras de conforto emocional e confiança espiritual – como costuma ocorrer nestas ocasiões –, a fim de me tranqüilizar em meio ao turbilhão dos problemas, estava iniciando uma aula. Mas não tive tempo de lhe deduzir o quase óbvio intento, porque o assunto me interessa por demais. Continuei espragatado no colchão e em meio às colchas (com o ar condicionado no máximo – o verão nordestino é tórrido), inteiramente empenhado, diante de meu próprio sentimento de dignidade pessoal, a não dar a menor trela a qualquer argumento – ainda que os da preclara orientadora desencarnada – que me levasse a me levantar naquele momento. Vivo para fazer o bem – cogitei de mim para comigo –, tenho dormido já quase nada – como ela mesma asseverara –; logo, poderia, perfeitamente, me dar ao luxo de ressonar por poucos minutos entre um compromisso e outro de um dia prenhe de atividades construtivas no campo da ação benemérita. A professora espiritual, à distância, com sua voz dúlcida ressoando em meu crânio, qual se houvesse uma pequena caixa de som, em volume confortável, dentro de minha cabeça, prosseguiu:

– Um indivíduo pode chegar a uma festa, e começar a se sentir mal, supondo tratar-se de influência espiritual de uma entidade sofredora, viciosa ou malevolente… Entretanto, é possível que esteja, tão-somente, padecendo de um distúrbio provisório de sua neurofisiologia, na produção de certos neurotransmissores – entre eles, a serotonina e noradrenalina. Neste caso, sofre de uma perturbação da bioquímica cerebral.

Excitei-me um pouco com a idéia. Continuou Eugênia, como se palestrasse para pequena platéia:

– A mesma pessoa pode adentrar outro ambiente e, notando-se envolvida por mal-estar inexplicável, concluir, mais uma vez, que algum espírito, com mau diapasão vibratório, repercutiu suas forças destrutivas em seu psiquismo. Todavia, em vez disso, pode ter ouvido uma referência a episódio ocorrido consigo, que a tenha remetido, inconscientemente, a traumas de infância, recalcados no fosso fundo da memória, sem que ela possa identificar, destarte, a origem verdadeira do desconforto psíquico. Assim, a genuína etiologia deste fenômeno de angústia repentina é psicológica, e não espiritual.

A esta altura já tinha “sacado qual era a de Eugênia”, mas não consegui articular reação. O assunto era interessantíssimo, mantendo-me expectante e atento ao desdobramento do raciocínio da grande preceptora.

– Numa terceira ocasião, a mesma personalidade chega em seu local de trabalho e, imediatamente, é assaltada por amargura irreprimível, deduzindo, “com seus botões”: “Sem dúvida, fui acometida por interferência indevida de alguma alma tenebrosa da outra dimensão de vida”. Em verdade, foi ela permeável, por uma questão de sintonia, às energias de baixa freqüência de um colega de profissão, sentado ao seu lado, deixando-se, involuntariamente, impregnar de seu padrão autodestrutivo de emoções. Tratou-se, portanto, de um fenômeno psíquico (ou paranormal), e não, ainda, espiritual, por não haver envolvido uma inteligência desprovida de corpo físico.

Sem que pudesse esboçar resposta, concluiu Eugênia:

– Somente numa quarta situação, quando alguém entra em contato com determinado grupo de pessoas, um acompanhante espiritual de uma delas – temeroso de que as idéias espíritas, libertadoras, de que o recém-chegado se faz portador, alcançassem os ouvidos e a consciência de sua “presa” humana – lança dardos mentais venenosos, na direção do primeiro, aturdindo-o significativamente. Desta vez, e tão-só desta feita, constituiu-se, legitimamente, uma ocorrência que se poderia chamar de “espiritual”; mas que preferimos denominar “mediúnica”, já que resultante de um processo de comunicação entre uma mente encarnada e outra, desencarnada. A rigor, seria espiritual uma angústia da alma, das profundezas da própria psique, se, digamos, nossa personagem se visse tomada por uma indefinível tristeza, decorrente do não-atendimento aos apelos mais sagrados de seu espírito, no sentido da realização de sua vocação, da concretização do propósito de sua estada na Terra, da obediência aos reclamos evolutivos específicos ao seu estágio de aprendizado presente.

Dei um pulo da cama e, no humor descontraído dos íntimos, tive a audácia de verbalizar para o vazio escuro e frio do quarto:

– Golpe baixo, Eugênia! Você sabia que eu iria me excitar com esta conversa e acabaria por me levantar para tomar nota!…

Não ouvi réplica da imperturbável serenidade da mentora espiritual, mas pude sentir (pela nossa união psíquica sinérgica) um risinho de compreensão fraterna e indulgente com meu repente de adolescência tardia e de masculinidade incomodada com o controle de uma mulher “invisível”, a me vigiar e conduzir em todas as circunstâncias.

Registrei linhas gerais dos conceitos apresentados pelo guia espiritual, e, no encontro com os amigos (o tal compromisso posterior para que pretendia descansar), relatei-lhes o episódio. Foi quando, ainda um tanto aborrecido (“de mentirinha” – rio-me muito, nestes eventos hilários com Eugênia e os bons espíritos), ouvi de um deles, em tom de protesto mimoso, após o vocativo-apelido que usam para se dirigir a mim, na intimidade:

– Ah… Mamin… não foi um “golpe baixo”… e sim… um “golpe alto”!…

Que dro-ga! – pensei comigo – fui desabafar, mas, para variar, todo mundo achou lindo o que disse a sem-pre in-su-por-ta-vel-men-te cer-ta e sá-bia Eugênia (risos), e a mentora saiu, de no-vo, com a melhor! Do médium, nin-guém tem pena (risos)… e, também para variar, fica ele feito um pateta, no-va-men-te, com a cara rodando de otário… (risos)

Para os curiosos, não consegui, naquela noite, me pôr para dormir às 3h, como ela me sugeriu, mas sim, às 8h (kkkk: a minha vingança!) – por volta da mesma hora aproximada em que vinha conseguindo me recolher, provavelmente para “não dar o braço a torcer” à orientadora espiritual, in-va-ri-a-vel-men-te com razão (ughrr! – risos) e, pior: no controle (aghrr! – risos). Mas, depois da primeira noite, sim, estou conseguindo me deitar entre 3 e 4h, e tenho, também, logrado dormir um pouco mais que 6h por noite… (risos) A aula de Eugênia, porém, cá entre nós – para variar novamente –, foi ma-ra-vi-lho-sa, não foi? Ela, como sempre, é o má-xi-mo, não é?

(Texto redigido em 26 de dezembro de 2007. Revisão de Delano Mothé.)




Cadastre-se e receba mensagens por e-mail: