|
||||
Portal para o Templo Vivo.
por Benjamin Teixeira.
Mergulhados na atmosfera mística da assistência dos bondosos mentores espirituais, em estado de graça e enlevo, fizemos o culto do Evangelho desta tarde, nas primícias vibratórias do show da noite – o espetáculo em homenagem aos 45 séculos de reencarnações terrenas do nobre espírito Eugênia.
Entre nós, além dos amigos mais próximos, a presença de minha querida irmã Marilia, recém-chegada de São Paulo, para especialmente participar do evento. Turbilhão de boas emoções, apreensões, mas alegria. Desta vez, para mim, mais do que nunca, porque ficarei – como é de preferência ao meu perfil psicológico – na platéia, d’onde se pode usufruir toda a beleza da apresentação, sem as tensões peculiares ao espírito de responsabilidade e realização, em nível de excelência, ante mais de 1300 pessoas, no Teatro Tobias Barreto, o mais moderno do norte-nordeste brasileiro.
Voltando ao culto, estávamos em meio à sua realização, entre os diálogos fertilíssimos e muito instrutivos que somos inspirados a entabular, uns com os outros, para edificação geral – em torno das temáticas evangélicas, espíritas e espirituais que são instigadas pela leitura das obras clássicas, utilizadas na metodologia desta prática religiosa espírita –, quando senti emanações psíquicas alienígenas (ou seja: não-minhas) convocarem-me ao serviço: eram os espíritos orientadores, interessados em se comunicar.
Concentrei-me um pouco (faço isso, normalmente, sem que as pessoas percebam), e apareceu-me o espírito Roberto, que transmitiu informes curiosos endereçados a Aline Rangel, sobre sua atividade oracional-meditativa da manhã (naturalmente, fora de meu conhecimento – e por ela confirmados). Em seguida, surgiu-me o vulto de uma freira luminosa, com hábito preto – no centro da sala, logo atrás de uma das companheiras encarnadas –, cercada de uma falange enorme de vultos iridescentes, em grande faina de movimentação produtiva. Próxima à amiga, a figura religiosa olhou para mim primeiramente e depois, voltando-se para a destinatária da mensagem (Úrsula Rangel), começou a falar. A imagem humana não me aparecia muito clara, de modo que não lhe conseguia detectar, com nitidez, os traços do rosto, para lhe identificar a personalidade. O sinal mediúnico estava gradativamente se compondo, sem se haver concluído o processo, mas a entidade já se deu por satisfeita com a qualidade do sistema de comunicação, de sorte que lhe comecei a ouvir a voz.
– Ursinha (disse, dirigindo-me a ela pelo apelido carinhoso dos mais íntimos), estou um pouco atrapalhado, creio eu. Vejo o vulto de uma freira, pelo que deduzo ser irmã Brígida (que freqüentemente a acompanha), mas a voz que ouço é a de Eugênia. Devo estar com dificuldades de psicoaudiência, e a mentora espiritual talvez esteja intervindo, para que eu possa canalizar as mensagens.
Realmente, os recados começaram a ser transmitidos, individualmente, aos presentes, naquele natural espetáculo de evidência da imortalidade da alma, com dados que eu desconhecia, concernentes à intimidade de cada um dos componentes da mesa. Enquanto isso, as percepções psíquicas iam-se-me delineando mais claramente, e, a certa altura, para surpresa minha, notei que a freira de hábito negro era ela… sim! A própria Eugênia…
– Que estranho! – verbalizei para todos – É Eugênia, trajada como Bernadette Soubirous (*1), em seu característico hábito escuro. Há mais de ano não a vejo assim… Por que será que ela está se manifestando desta forma?
Voltei a ouvi-la, respondendo-me à indagação lançada no ar:
– Estou trajada da indumentária de uma religiosa, pelo exercício simbólico que vivo hoje, de modo especial, do desapego completo à insignificância de minha personalidade, já que – apesar de constituir iniciativa generosa e bondosa – os amigos encarnados decidiram-se por homenagear minha mui desimportante pessoa. Não mereço qualquer louvor, pois que constituo mero canal dos Verdadeiros Agentes da Luz de muito, muito Mais Alto, sobremaneira Nosso Mestre Jesus e Nossa Amantíssima Mãe Maria de Nazaré.
Emocionei-me um pouco, embargando a voz, tocado por tanta humildade de ser tão elevado espiritualmente. Recompus-me emocionalmente, e tornei a canalizar-lhe a fala, chamando, inclusive, minha babazinha (*2), a vir à mesa, arrancando-a provisoriamente de suas atividades (já que se recusara a participar do culto desta tarde – e nós, obviamente, nunca forçamos sua participação). Ato contínuo, foi ela (a assistente das lides domésticas) presenteada por comunicação de sua mãezinha desencarnada, também presente, na dimensão extrafísica de nosso lar, a tratar de assuntos da intimidade de sua família, relativos a acontecimentos dos últimos dias. De imediato, vários outros entes queridos dos convivas, da minha e das famílias biológicas dos amigos reunidos, passaram informes e declarações breves de amor, a cada um dos encarnados no ambiente.
Encerramos o culto, após 45 minutos de comunicação ininterrupta da plêiade de generosas entidades do Plano Sublime de Vida – que fazem de nosso apartamento uma espécie de templo vivo de atividades socorristas contínuas, assim como ocorre no lar da dupla de irmãs fluminenses que citamos acima (mas cada moradia com funções de auxílio diferenciadas) –, e tornamos à palestra fraterna, rica de ensinamentos visivelmente inspirados pelos bons espíritos, também os demais encarnados funcionando como médiuns intuitivos à sua parte, mesmo sem o perceberem claramente.
Em determinado momento das conversações construtivas, vimo-nos comentando, com certa tristeza, a forma depreciativa e psicologicamente venenosa com que a humanidade terrena costuma fazer alusão aos órgãos sexuais, sobremaneira o feminino, a ponto de se gerar um tal mal-estar em relação a eles, que muitas mulheres chegam ao absurdo de desconhecer a anatomofisiologia de sua própria genitália. Dito isso, uma tela mental caiu-me à frente dos olhos (que nem cheguei a descrever aos partícipes do culto – não há tempo de nós, médiuns ativos, dizermos, ato contínuo, tudo que vemos e ouvimos do domínio espiritual; além do quê, nem todas as impressões são, por outro lado, permitidas ou convenientes), qual se fora uma magnífica gravura a óleo, com uma madona semi-rotunda, ao estilo renascentista, em nu artístico e, magistralmente, em gesto casto e nobre. Para completar a beleza ímpar da cena, um texto em segundo plano caiu sobre a imagem, enquanto um imediato “zoom” na pintura acontecia, em direção ao aparelho genital do vulto majestoso:
“Portal para o Templo Vivo” – ouvi-me lendo, em voz alta, ato contínuo…
A cena era revestida de uma seráfica aura de pureza e virtude, de modo que o nu não parecia ser de uma mulher, mas, tão-somente, de uma mãe santa. Imediatamente, vi-me tomado, e disse (quase incorporado):
“A vagina é o portal para o mais sagrado de todos os templos: o útero feminino – onde acontece a geração da vida, em sua mais gloriosa expressão: a humana.”
As condiscípulas à mesa tinham os olhos faiscantes de receptividade exultante, quando terminei de emitir a frase, como se fossem lançadas, repentinamente, diante de um grande achado moral (embora soasse óbvio, quão inesperado), em forma de conceito feliz que eleva a mulher à dignidade reprodutiva e espiritual que tem: a de deusa, no nível humano… De fato, o homem colabora no papel reprodutivo; mas é a mulher quem funciona como símbolo vivo da criação divina, sendo a câmara onde o Criador processa a geração da vida… E, a partir da camada física da realidade, em todos os outros estratos do ser e do existir, os componentes do gênero feminino, percebam ou não, atuem conscientemente ou não, fazem-se o núcleo visceral da maior parte dos processos criativos. Mesmo porque, quando figuras masculinas são o vértice de tais fenômenos “criacionais”, é o feminino interior deles, em forma de intuição, criatividade ou imaginação, que os gerencia, e não sua parcela psicológica cruamente masculina, como a lógica ou o pensamento objetivo-concreto.
Que as amigas mulheres aprendam a se valorizar, em todos os sentidos, nesta cultura de tanta depreciação do feminino. Somente quando o Feminino, dentro de cada um de nós (homens e mulheres), for elevado, plenamente, à altura de toda sua grandeza inerente – de acolhimento, ternura, inspiração, devoção, criação mística –, a humanidade poderá, efetivamente, sobreviver à grave crise civilizacional que atravessa, desde o confronto fratricida de culturas díspares aos ataques devastadores e sistemáticos aos ecossistemas.
Que todas se lembrem e vivam, continuamente, o espírito de que, desde a sua manifestação mais animal e primitiva (simbolizada no aparelho sexual) até as culminâncias de sua excelsitude angelical, a mulher é a linha vertical que conecta a humanidade ao Criador (nos dizeres de André Luiz/Chico Xavier), sendo mesmo capaz, quando vivencia a experiência sagrada da maternidade, de, por meio de suas orações (conforme o mesmo autor espiritual e co-autor mediúnico), arrebentar as Portas do Céu…
Salve as mulheres – do Apóstolo Madalena à Diva-Mãe Maria Santíssima!… Salve a Comunidade das Mães do Céu, que, invariavelmente, sustêm a queda de nossa espécie, na goela sanguissedenta do abismo, à beira da precipitação. Salve todos os corações femininos – encarnados ou desencarnados, biológicos ou espirituais, em corpos de homens ou de mulheres –, que nos assistem, nos inspiram, nos acolhem e nos amam, ensinando-nos o caminho para o Céu… Vocês, mulheres… Portais para o Paraíso… em meio ao pedregulho do purgatório em que todos, por ora, ainda chafurdamos…
(Texto redigido em 13 de dezembro de 2007. Revisão de Delano Mothé.)
(*1) Última existência física da ilustre orientadora desencarnada, que costuma se manifestar, normalmente, com a indumentária de uma vestal grega, em reportação à figura de Aspásia de Mileto, uma antiga reencarnação sua, do século V antes de Cristo, que muito lhe foi cara ao coração e ao processo evolucional.
(*2) Chamo minha secretária do lar de “babazinha” – a babazinha do bebezão: eu.
(Notas do Autor)
You must be logged in to post a comment. |
||||
|
Marca Registrada® 2012 Instituto Salto Quântico - Todos os Direitos Reservados |
||||