Uma Prova Dramática da Espiritualidade.


por Benjamin Teixeira.


“Iam falando um com o outro de tudo o que se tinha passado. Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o mesmo Jesus aproximou-Se deles e caminhava com eles. Mas os olhos estavam como que vendados e não O reconheceram. (…)
Jesus lhes disse: ‘Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na Sua glória?’. E começando por Moisés, percorrendo todos os profetas, explicava-lhes o que d’Ele se achava dito em todas as Escrituras.
Aproximaram-se da aldeia para onde iam e Ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-n’O a parar: ‘Fica conosco, já é tarde e já declina o dia.’ Entrou então com eles. Aconteceu que, estando sentado conjuntamente à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e serviu-lho. Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram… mas Ele desapareceu. Diziam então um para o outro: ‘Não se nos abrasava o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’”

(Lucas, 24:14-16 e 25-32)

Mais uma vez, prezado internauta, desta feita sentindo-me ainda mais resistente que na semana passada, venho fazer outro relato autobiográfico, a pedido de nossa querida mentora espiritual, Eugênia. É que já trouxe a público, noutras ocasiões, a narração deste episódio, inclusive neste sítio eletrônico, se não me falha a memória, e não me quero tornar desagradável ao prezado amigo que nos lê. Contudo, tendo a adorável mestra feito tal solicitação, obviamente há coisas a se dizerem, que ainda não foram verbalizadas, ou comentários a se expenderem, sob inspiração dela mesma, que não foram ainda articulados. Sigamos, então.

Noite de 20 de outubro de 1990. 17 anos passados… Em seis dias, completaria 20 de idade. Sofrendo uma seqüência demorada e multifacetada de decepções, veio-me forte dúvida sobre uma série de postulados de verdade adotados então, incluindo a existência do Plano Espiritual, especulando, quiçá, estar-me deludindo com fantasias escapistas. Em prece fervorosa dirigida aos bons espíritos, em particular à Nossa Mãe Maior, Maria Santíssima, resolvi-me por pedir – nestas palavras, exatamente – “uma prova dramática da existência do Mundo Espiritual”.

Amanheceu o dia 21 de outubro. Na condução de um veículo, levando comigo duas de minhas muito queridas irmãs biológicas, Marilia e Lavinia (a primeira, na iminência de completar 17 anos; a segunda, com 15), dirigíamo-nos a uma propriedade rural da família, a vinte minutos da área metropolitana de Aracaju. Muito próximos de chegar, deparamo-nos, no percurso, com um homem jovem, que trabalhava na pequena fazenda de nossos pais, carregando um saco de mantimentos nas costas, provavelmente transportando a feira da semana ou algo do gênero, a pé, sob o sol escaldante, desde a cidade mais próxima. Não resisti: tinha que oferecer carona. Ele, muito agradecido, aceitou. Só que o trabalhador morava no outro lado da propriedade, em relação ao da localização da sede, para onde nos encaminhávamos (a herdade era dividida ao meio por uma formação rochosa proeminente). Havia dois trajetos alternativos: contornar o monte ou atravessá-lo, por meio de uma estrada em péssimas condições, com duas ladeiras íngremes ao ponto do possível, sem calçamento (nem pavimentação, muito menos). Por um lampejo de sabe lá Deus o que – porque, em primeira análise, não me pareceu ter sido de boa inspiração –, decidi, após ouvir, bem mal, a opinião das duas manas, tomar a rota mais perigosa, desnecessariamente.

A subida do morro foi mais fácil. Tração nas rodas traseiras, com boa potência, a “caravan” cinza que dirigia nos colocou, rapidamente, numa espécie de pequeno platô, com ventilação farta, vegetação acolhedora (ainda nativa) e uma rota menos assustadora. Neste pequeno pedaço de chão, que vencíamos, motorizados, dentro da própria fazendinha, iniciei conversa com Marilia e Lavinia, sobre como invejava Walkiria Kaminski, a médium psicopictógrafa paranaense que vivenciara, poucos anos antes, uma “experiência de quase-morte” (EQM), tendo voltado ao corpo, para um período adicional de existência física, a fim de se dedicar à disseminação da idéia de imortalidade da alma ao decesso orgânico. “Que maravilha ter esta certeza de ter nascido para o trabalho de divulgação do Espiritismo…” – exclamei, ao final. Terminando de dizer isso, pus o pé no freio, porque principiaríamos a temerária descida… foi quando me dei conta de que… estávamos sem freio…

Para resumir, paramos o carro em meio a uma quina de terra entre três precipícios, à distância de algumas dezenas de metros (30 aproximados) até o solo. Morte certa, não fosse a pequena rocha (de no máximo 30cm de altura) que surgiu “do nada”, para enganchar-se à “saia” do automóvel (capa protetora abaixo do motor).

Descemos, marchando a pé para a sede, na base da elevação, eu e minhas duas irmãs, em estado de choque. Chorando copiosamente (mais do que elas, pelo pedido enfático que fizera na noite anterior), tomei às mãos um exemplar de “O Evangelho segundo o Espiritismo” e, como é hábito entre espíritas, abri ao acaso suas páginas, para ver o que a sincronicidade nos traria, como dádiva de reflexão, em nome de Deus e dos bons espíritos. De fato, o Fluxo nos ofertou a resposta de São Luís à pergunta de Kardec, no item 28, do capítulo V, que transcrevo, em suas primeiras linhas, conforme a tradução do texto original em francês de J. Herculano Pires:

“Mas quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode Ele conduzir um homem até a beira da sepultura, para em seguida retirá-lo, com o fim de fazê-lo examinar-se a si mesmo e modificar-lhe os pensamentos?”

Queremos, amiúde, provas doces, ternos carinhos do Alto, mimos do Céu, dádivas abundantes, presentes sucessivos de felicidade, se possível com muita facilidade!… Só que o Ser Supremo do Universo não é uma ama-seca, a nos viciar e amolentar os caracteres, submetendo-Se aos caprichos de nossas personalidades embotadas, mesquinhas e pouco lúcidas. Muito pelo contrário: deseja nosso crescimento, a expansão de nossa inteligência, maturidade e grandeza moral. Por isso, por acréscimo de Sua Infinita Bondade, concede-nos, não raro, solavancos existenciais de vulto, que nos provocam sustos salutares n’alma, a fim de que despertemos para os valores que realmente importam ao espírito eterno que somos, e abandonemos os conceitos, hábitos e princípios que nos sejam supérfluos ou prejudiciais.

Não nos faltam provas do Bem e de Deus em nossas vidas, nem lógica aos raciocínios, ainda quando ansiosos e acelerados, quanto confusos, embaralhados e desorientados. O de que carecemos é maior maturidade psicológica, para vislumbrar o abstrato e dissecar o metafórico, como toda psique realmente avançada faz, cotidiana e ininterruptamente.

Abramos os nossos olhos, porque o Cristo e Seus Representantes, como descrito no episódio bíblico dos “Discípulos de Emaús” – parcialmente reproduzido, à guisa de intróito deste artigo –, seguem ao nosso lado, e não Os reconhecemos claramente, a não ser quando nos enchem de graças dúlcidas e óbvias, qual a oferecida pelo Mestre na referida passagem, ao partir e servir o pão na hospedaria. Sejamos mais perspicazes e sábios, vejamos além das aparências, analisemos os eventos de uma perspectiva mais ampla, que nos leve a intuir-lhes significados e propósitos mais profundos, finalidades menos imediatas, e notaremos o Senhor a sussurrar, paternal e sereno, aos ouvidos de nossos corações:

“Estou com você… estou com você sempre! Não tema!”

(Texto redigido em 24 de outubro de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

Observação:
Este texto não ultrapassou o teto de dez mil caracteres previamente estipulado para eventual duplicação de tempo de exposição de um escrito como “mensagem do dia”, de modo que figurará nesta página apenas no transcurso desta sexta-feira, 26 de outubro. No sábado, já teremos publicação de novo artigo – uma curiosíssima entrevista a respeito dos vinte anos de convívio de Benjamin Teixeira com o espírito Eugênia, através do exercício mediúnico.

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