Líder de Líderes.


(Capítulo 22 de “O Instituto Voltaire”)

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Gustavo Henrique.


A conversa ia em meio, quando chegamos. Esta fala se deu neste ano em curso, de 2007, e dizia respeito à assistência dada a um certo trabalho de ordem coletiva, para disseminação do bem em massa.

– Éramos, os que compomos a falange dos seres do bem, um terço dos espíritos encarnados, conforme revelado há pouco tempo (*1). Hoje, constituímos algo próximo a metade das populações humanas no plano físico de vida de nosso planeta terráqueo. Felizmente, os contingentes do bem crescem, expressivamente. É por isso que acontece a tal transição que os espíritas denominam de fase evolutiva de “Mundo de Provas e Expiações” para “Mundo Regenerador”. Mas não se engane, Lacínio, porque há lutas encarniçadas a serem ainda travadas, entre nós e aqueles que se asilam no lado oposto ao da Luz. Recorde-se, em particular, do fato de que, destes 48%, aproximadamente, de criaturas de boa índole, poucos, talvez apenas numa proporção de um em vinte, têm disposição ao sacrifício de si mesmas, em benefício de causas coletivas. A maior parte, embora seja de boa vontade e não deseje, portanto, perpetrar o mal, não possui energia moral suficiente para enfrentar a força ingente de instituições e convenções estabelecidas contra os Desígnios Divinos do orbe.

– Impressionante… E como vamos vencer, então?

– Pelo aumento gradativo desta faixa da demografia humana a que fiz alusão. E, no que concerne àqueles 2 ou 3% dos mais nobres e avançados, alguns poucos, estrategicamente, reencarnam em diversas localidades longínquas, tanto quanto em grandes centros, para trabalhar em variados departamentos fundamentais, na logística da evolução planetária. Artistas, professores, psicólogos, magistrados, empresários, políticos, líderes religiosos, jornalistas, profissionais de saúde, ativistas pelos direitos humanos e ecológicos, etc. – eles estão por toda parte… Para acioná-los, instigando-os a agirem mais efetivamente, sem medo das retaliações da maioria (falamos principalmente dos 48% que se sentem uma minoria oprimida e insignificante, quando praticamente há um “empate técnico” entre os que estão do lado do bem e os que preferem estagiar no plano da sombra), resolvemos produzir esta iniciativa de divulgação em massa de nossos princípios. Carlinda, a tal brilhante oradora-médium que visitaremos, está sendo utilizada para levar a mensagem de caráter espiritual numa roupagem nova, a fim de que alcance a alma dos mais esclarecidos, do modo coerente à sua cosmovisão crítica, científica e pragmática. Por isso, de um rincão singelo do país, tem falado para a nação inteira, exortando todos à prática do bem, à oração, à fé nos próprios ideais, ao fazer pouco mas sempre, a respeitar a própria humanidade, porém sendo feliz, otimista e generoso, mesmo assim. Sophia a conduz, à distância, por forte processo de inspiração, a que a mente da sensível expositora é particularmente receptiva e plástica, pela longa trajetória de intimidade afetiva e familiar que existe entre ambas.

– Muito interessantes suas colocações, venerável Apuleio, mas me permito apresentar uma dúvida, para que me possa dirimi-la, com seu incrível poder de esclarecimento. Como seriam quase metade das moles humanas, os que já estão relativamente alinhados com a Luz Divina, se vemos tanta indiferença, mesquinharia e maldade, no domínio físico de existência?

– Agradecido pela admiração de que não me julgo merecedor. Quanto à sua pergunta, retorno e destaco o tópico que há pouco anunciei: estes – que constituem, hodiernamente, quase metade das populações terrenas – não têm nobreza suficiente para enfrentar e superar a influência do meio. Acovardam-se e se escondem por detrás do manto do anonimato, ocultando suas intenções altruísticas, até mesmo quando em posição de realce e poder, portando inclusive, por conseguinte, segurança bastante para fazê-lo. Temem excessivamente a crítica, são acomodados e não estão dispostos a comprometer seu bem-estar pessoal por causas coletivas, de que sabem não obterão retorno imediato para si mesmos.

– Mesquinhos demais, na minha visão, para os introduzirmos na categoria de “seres do bem”.

– Mas têm bom coração, Lacínio. Não podemos condenar a criança por sua fraqueza. Um menino assustado difere deveras de um crocodilo faminto. São preguiçosos e covardes demais para pagarem o ônus da demonstração e da mobilização de seus ímpetos benevolentes. Não são maus, não gostam da mentira, se afinam com as práticas altruísticas, mas não se dispõem a se esforçar muito ou confrontar o estabelecido por fazer o bem prevalecer. O egoísmo e a fraqueza de ideal lhes são o tom psicológico padrão. Assim, preferem se amesquinhar, retraindo-se, para não participar dos audazes, dolorosos, controversos e atacados processos decisórios mais graves, no que tange a mudanças de comportamento e valores em público. Por isso, podemos dizer que são crianças quase adolescentes – o que se chama, no plano físico, de pré-adolescência –, mas ainda não plenos adultos espirituais. Os tais 2,5% aproximados, que se expõem, diferentemente deles, são almas audazes, mais envelhecidas no carreiro evolucional, que declaram suas opiniões e articulam providências de melhoria do cenário terreno de organização social, onde vivem e com que interagem, sem cogitarem muito do que lhes custará em termos pessoais. O impulso de ideal e de dever já lhes é forte demais, para sopitarem-no, em função de conveniências passageiras. São extremamente dinâmicos e corajosos. É como se a Energia Divina se canalizasse mais facilmente por eles, porque, estruturas psíquicas mais desenvolvidas, agüentam o Fluxo da Graça de Deus, sem “torrarem os fios” dos circuitos mentais, nem acionarem os “fusíveis” do colapso psicológico, digamos assim. Geratrizes de realização, inovação e integração de grupos, fazem-se carismáticos e revolucionários, sem que para isso apliquem muita força.

– Curioso… Imagino que a tal Carlinda pertença a esta categoria…

– Mais que isso. Ela é uma condutora deles, que percebem sua condição natural de líder do grupo, pela intuição nítida que têm de sua invulgar maturidade psicológica, para os parâmetros terrestres. Vários deles se agregaram, em torno da mestra encarnada, sentindo-se aliviados de uma longa sensação de solidão e desamparo em meio à multidão, descobrindo, no colégio de almas irmãs que se formou na órbita da oradora mediúnica, um ambiente, enfim, em que se sentem “em casa”. Por isso, inúmeros deles se oferecem para ajudá-la, no ministério sagrado que desempenha (mesmo porque diversos, de fato, reencarnaram com este mister previamente delineado), sentindo-se honradíssimos de poder participar da edificação da obra que deduzem, com a lucidez que lhes é própria, ser de imensa relevância para as comunidades humanas. À distância, muitos milhares de outros, desta faixa de adultos espirituais mais velhos reencarnados, acompanham-na, sendo estimulados por suas idéias e valores, com que sentem uma poderosa afinidade. A questão é que Carlinda apresenta os princípios peculiares à faixa evolutiva que lhes é própria, com uma coerência e segurança, dentro de uma perspectiva espiritual, que até a este grupo pasma, exatamente por se tratar de espírito realmente muito envelhecido no carreiro evolucional, para os padrões limitados da Terra. Há séculos, a amiga vem sendo preparada para isso, inclusive já tendo desempenhado a função de conduzir massas populares, por mais de uma vez, a partir do plano estadista. No Egito Antigo, há mais de quatro mil anos, foi uma autoridade importante (com mão de ferro à época); e, na Idade Média, tornou à posição de comando, exercendo, com muito melhor qualidade, a função de regente de uma pequena nação européia. Desde a Grécia Antiga, todavia, na qual reencarnou ao lado de Sophia, há vinte e cinco séculos passados, vem sendo lapidada em sua visão filosófica de longo alcance, para que chegasse ao nível de hoje, em que logra trafegar, com raríssima segurança e naturalidade, em diversos domínios do saber humano, sem – eis o ponto mais importante – perder o sentido de um fio lógico, a concatenar todos eles, em função de uma finalidade maior, de ordem evolutiva, espiritual, humana!

– Nossa… Sendo assim, podemos, então, dizer tratar-se de uma alma santa… aquilo que se chama, no mundo, de “ser de Luz”.

– Desculpe surpreendê-lo com outro paradoxo, mas não! Carlinda, apesar do venerável patrimônio evolutivo que porta, arquivou, basicamente, um brilho invulgar da inteligência, com uma capacidade de integração temática e percepção aguda, madura e espiritual, que pouquíssimos lograram atingir no globo, principalmente entre os encarnados. Mas, embora dotada de coragem, espírito de serviço e persistência ímpares, dignos de grandes generais do passado (o que ela também foi, por sinal, em vidas pregressas), não tem aquela luz característica das almas sublimadas – que se desvestiram completamente do sentido do eu –, mantendo ainda sua inclinação ao desânimo, ao pessimismo, à suspeita, ao cepticismo, à agressividade e à sensualidade. É, mesmo no sentido moral, um exemplo de dedicação ao bem e amor ao próximo, no trabalho nobilíssimo a que se devota, mas não tem o brilho incomparável e inconfundível das almas santas, em que a identificação plena com o Bem faz ressoar, para quem observa de fora, o padrão excelso da Luz Divina. Assim, podemos dizer que, indubitavelmente, Carlinda é uma criatura bem humana e falível, como aqueles mesmos que a buscam, mas sem a pretensão de parecer melhor, tão típica aos que, menos amadurecidos no carreiro evolucional, deslumbram-se com o poder da posição de líderes religiosos.

– Não entendo, então; desculpe-me questionar mais uma vez, mas fazendo-o para a elucidação de minha mente embotada. Por que se escolheria alguém não completamente integrado à Luz, para um ministério tão grave como este? Não seria de se cogitar de uma personalidade inacessível ao desvio, neste posto-chave dos interesses de muitos milhões, a fim de se garantir a conclusão apropriada de obra de tão estratégica importância para o bem comum?

– Pois é, meu filho… tem você um vislumbre, agora, das complexidades dos destinos humanos e dos planejamentos divinos para nossa espécie. Primeiro, para a tarefa que Carlinda assumiu, precisávamos de alguém que transparecesse traços visíveis de humanidade, sem, contudo, arrastar-se à vulgaridade. É que era necessária uma personalidade que não provocasse, nas multidões a que veio inspirar, a veneração própria que se devota a seres quase-angelizados, como aconteceu, no século passado, com a figura de Cândida (*2), que de fato se revelava uma alma santa – o que era então apropriado, porque sua missão era outra. Mister se fazia enviar à dimensão material de vida alguém com quem o homem e mulher comuns pudessem se sentir identificados e, deste modo, mais fortemente estimulados a acreditar no próprio potencial ao bem. Muita gente é deveras mais humana que nossa companheira expositora, mas se preocupa demasiadamente em se enquadrar às convenções, para parecer melhor do que é. Carlinda, porém, não é assim. Gosta de se mostrar humana, vulnerável, quase infantil. Esta particularidade de seu perfil psicológico, inclusive, dos mais importantes para o trabalho que desempenha, constitui, ironicamente, uma das mais eficientes peneiras humanas para os que realmente devem estar perto dela, porque quem não tem um certo nível de introvisão espiritual não compreende uma orientadora que se faz criança sem o menor pudor, que faz perguntas aos orientandos, que evidencia quando está contrariada ou quando foi magoada… Carlinda não tem o menor traço de pretensão de superioridade, graças a Deus. Isso é um valor mais raro do que parece. É muito comum as pessoas, na Terra de hoje, ao ouvirem referências elogiosas a si, deslumbrarem-se com um senso de importância pessoal que não condiz com a realidade de seu estofo evolutivo atual. São até muito decentes, mas se sentem mais “luminosas”, digamos assim, do que realmente são. Carlinda, contudo, não se deixa impressionar com estas seduções baratas do amor-próprio, sendo, por sinal, extremamente dura consigo mesma. Mas, exatamente para compensar sua humanidade, apesar, reforço, de todos os traços louváveis de seu arcabouço psicológico, nitidamente superior à média planetária, é que trabalha em parceria íntima e profunda com Sophia, que, à distância, como gênio-santo que é, preenche, com luz e glória, as lacunas perfeitamente compreensíveis de nossa esforçada companheira reencarnada.

Apesar de tudo isso exposto, caro Lacínio, ela desceu ao domínio físico de existência para liderar um movimento de elite espiritual, digamos assim, porque somente os tais 2 para 3% dos mais avançados do orbe podem compreendê-la apropriadamente. Mesmo entre os 10% mais adiantados, existem problemas conceituais que dificultam a percepção de todo o brilho e vanguardismo de Carlinda e do quadro ideológico de que se faz representante viva. Ela fala aos que preparam a humanidade para o próximo grande passo evolutivo. Os 10% mais nobres, apesar da dignidade incontestável que lhes pauta a conduta e intenções, pretendem buscar, em líderes religiosos, figuras que “façam tipo” de grandes gurus ou iluminados, e que não confrontem as convenções estabelecidas para o que se entende por comportamento “elevado”, naturalmente um tanto conservadores que são, se comparados à lucidez totalmente fora de época (porque muito à frente) de Carlinda e seu grupo de amigos superesclarecidos. Volta e meia, como seria de se esperar ante o quadro que lhe pincelo, quando não a acusam de “desviada”, apupam-na como pouco popular. Mas a amiga vanguardista faz vistas grossas para os comentários e segue adiante, impertérrita em seu mandato divino, consciente de ser uma líder que fala para líderes, e não para as multidões propriamente. Paradoxalmente, entretanto, até mesmo gente muito simples, das camadas populares, a acompanha e compreende, colocando-se perto dela, inclusive, como o fazem os grandes componentes da turma dos 2,5% mais evoluídos, porque Carlinda, apesar da complexidade dos conceitos, não usa uma linguagem sibilina, hermética, de modo que também os menos instruídos, mas espiritualmente maduros, lhe apreendem a grandeza e a procuram. Não é o vernáculo ou o modo de abordagem utilizados pela amiga que são complicados; são as idéias e valores, de que se faz embaixadora encarnada, que são difíceis de serem digeridos. A linguagem e a forma de apresentação de conceitos desdobradas por Carlinda, a propósito, pautam-se pela simplicidade, espontaneidade e transparência, bem ao modo da personalidade da expositora famosa.

– Estou pasmo… Como as coisas podem ser bem mais complexas do que parecem à primeira vista…

– Pois é, meu caro. Os críticos de plantão, de gente como a irmã em foco, não se dão conta da presunção de que se revestem, porque pretendem avaliar o que está muito acima de suas condições de entendimento. Para simplificar o que fazem, numa metáfora simples, utilizada pelos orientadores de nosso plano, ligados a Sophia, assemelham-se à criança no período de alfabetização que, em observando um catedrático de matemática avançada trabalhar, grafando, para sua perspectiva pueril, garranchos incompreensíveis no quadro negro de uma escola, concluísse ser o professor um aloprado-ignorante que não soubesse escrever.

Lacínio fez uma expressão de espanto, ante a fala sábia de Apuleio, e quedou-se em silêncio, meditando sobre as graves questões implicadas na miniaula que acabara de receber do nobre instrutor, residente em Andrômeda, em circuito breve de palestras, no Instituto Voltaire, por aquela semana. Iriam juntos, dali a dois dias, conforme seu programa de estudos, observar diretamente o trabalho de Carlinda – e, dentro do possível, com ele colaborar –, num serviço de comunicação de massa a que se dedicava, ano sobre ano. Não cabia em si de ansiedade, na espera da oportunidade de vê-la, de perto, agir a serviço da Luz, sem – mérito maior ainda – pertencer, totalmente, à Luz…

(Texto recebido em 17 de agosto de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*1) Assertiva ínsita na obra “Voltei”, psicografada por Chico Xavier, pelo espírito Irmão Jacob, em 1948! Observe-se o interessante de a Espiritualidade julgar o espaço de sessenta anos “pouco tempo”.

(*2) Referência a Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, conhecido, na Espiritualidade Sublime, como Cândida, uma venerável dama de Luz que serve ao Cristo, século sobre século.

(Notas do Médium.)

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