A Fala Incompreensível da Mestra.


(Capítulo 20 de “O Instituto Voltaire”)

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Gustavo Henrique.

Sophia, com seu espetacular poder de comunicação espiritual, projetou-se, mentalmente, na psique do médium e, induzindo-o a um transe mediúnico à distância, fê-lo psicografar, celeremente, com forte ruído da esferográfica, que deslizava sobre folhas de papel ofício, rapidamente retiradas pelo próprio medianeiro. Luz esbranquiçada-solar, em forma de tênue fio, ligava o chacra coronário do médium, em direção ao infinito, à orientadora do Plano Sublime, que se não fazia presente na sala em que se dava a escrita psíquica, vazada em estilo despretensioso e quase prosaico, em considerando a estatura evolutiva da missivista invisível:

“Minha muito querida e amada Ofélia:
Deve parar com seus dramas de culpa, aceitando-se e amando-se um pouco mais.
Assisti à sua crise mais aguda desta manhã, e gostaria de lhe dizer que se tranqüilizasse, porque, sem dúvida, tem se esforçado muito por se melhorar; respeitamos o seu processo de evolução, desdobrado em curtíssimo espaço de tempo…”

E a carta interdimensões continuava, com palavras cheias de amor e caridade espiritual, fazendo reportação, inclusive, ao passado da destinatária com o espírito guia, o que, logo mais, levaria todos os presentes no plano material de vida às lágrimas.

Ricardo, um espírito ligado à falange de Sophia, mas em padrão mais humano de consciência, e que se encontrava presente aos trabalhos, observava com uma expressão de espanto que mal disfarçava o misto de repulsa e revolta que lhe ia n’alma, com relação à destinatária, à medida que o texto era lido pelo médium dedicado, após a recepção veloz da epístola intermundos.

Irmã Bárbara, uma dulcíssima freira desencarnada, componente das hostes de Sophia, notando o estado do amigo, aproximou-se dele e, mais portadora de recursos de compreensão e indulgência, sussurrou-lhe:

– Querido Ricardo, tente debelar este fogo de ira que lhe vai n’alma. Sabe que isso é por deveras perigoso e pode fazê-lo descer em seu “tônus” vibratório, arrastando-o, quiçá, se levado às últimas conseqüências, a desalinhar-se de nosso grupo, ou favorecendo, se em proporções menores, tão-somente, a intromissão de irradiações indevidas em nossa tarefa de levantamento moral e psicológico de nossos irmãos em ideal mergulhados na existência física. Se tal postura já não é recomendável entre nossos amigos encarnados, que diremos de nós mesmos, que devemos, na condição de integrantes dos Exércitos dos Cristos Jesus e Maria, portar-nos com estrita sabedoria e serenidade?

Ricardo, visivelmente consternado com as observações, com que anuía profundamente, respondeu, de pronto, humildemente, demonstrando evidente esforço de condescendência:

– Obrigado, Irmã. Você tem razão. Mas, de fato, me é muito difícil compreender o que se passa aqui. Não entendo por que nossa mestra Sophia age deste modo, que, na minha forma de ver, estimula o comportamento displicente e injusto da colaboradora desajustada. Ela estava se sentindo culpada por estar caluniando o próprio médium, hoje pela manhã, pelas costas, apesar de tanto receber benefícios dele, em provas de confiança e de afeto. Como pode Sophia dirigir-se assim à criatura em franco delito, com tanto amor, ainda mais lhe sugerindo debele uma culpa que imagino poderia lhe favorecer reflexão necessária sobre seu comportamento indevido e fomentar uma transformação inadiável de sua conduta?

– Sim, meu filho; a abordagem da problemática, nestas circunstâncias, poderia ser outra, se estivéssemos tratando com orientadores comuns de nosso plano. Entrementes, estamos falando de Sophia. As técnicas psicológicas dela são avançadas, e nem sempre podemos abarcar toda a extensão de implicações, por ela visadas, em suas iniciativas sublimes…

– Não nego que deva existir um propósito maior, porque, como vi, o médium canalizou apropriadamente os dizeres da grande sábia; logo, ela deve ter objetivos muito claros em mente, para agir deste modo, que me soa surreal – visão esta que, sinceramente, atribuo às minhas deficiências de interpretação do que acontece. Por isso mesmo estou aqui a desabafar os motivos de meu mal-estar, para que possa removê-los e, então, estar mais sintonizado com a grandeza moral de nossa função de esclarecedores desencarnados.

– Vou lhe fazer um arremedo de explicação das razões profundas de nossa orientadora, por conhecê-la há mais tempo que você e já haver privado de inúmeras experiências com ela, muitas que, no meu ver também, a princípio, pareciam-me bizarras ou mesmo injustas. O propósito de Sophia, pelo que intuo, é favorecer o acolhimento profundo da companheira em erro, para que, em se sentindo recebida com amor e indulgência, cesse a ação da geratriz de energia psíquica para a motivação ao ataque difamatório a um amigo a quem deve tanto, que pode ser justamente o sentir-se desamada, mesmo que sem respaldo real…

– Mas não é esse resultado que estou notando, nas reações dela à leitura da mensagem. Está se sentindo justificada em sua atitude, supondo receber a anuência da Mentora para suas falas irresponsáveis.

– Sim, meu filho, percebo isso também. Entretanto, seres da altura de Sophia agem no campo das finalidades a longo prazo. A meta dela é investir na probabilidade de transformação profunda da amiga encarnada, a partir das estruturas de seu inconsciente, impregnado por idéias de autojustificação e autocondenação, que ela projeta em quem ama. Pode lhe parecer irônico isso: mas ela ataca muito o companheiro, por detrás, por fazer o mesmo consigo, no nível subterrâneo de sua própria inconsciência. Esta situação, por exemplo, a que você assiste, é insustentável. O médium percebe que ela não tem agido de acordo com o nível de dignidade e confiança dele para com ela, embora não tenha acesso, na íntegra, aos detalhes sobre o comportamento impróprio da colaboradora, com relação a ele, na sua ausência. Em pouco tempo, independentemente de Sophia tomar providências, ele mesmo sentir-se-á (com autorização nossa) impulsionado a afastá-la de seu convívio e intimidade, para proteger-se, bem como a obra que realiza em nosso nome e, principalmente, no da própria Sophia.

Ricardo observava com um olhar enigmático, inteligente mas difuso, como a esquadrinhar, dentro de si, outros motivos para a cisma com a cooperadora de ideal reencarnada; em vão, porém.

– É… querido Ricardo, sua antipatia para com a moça, apesar de ter bases na conduta inapropriada dela, no presente, remonta-se a existências passadas, em que, encarnado ao lado do médium, foram ambos atraiçoados por ela, em trama odiosa. Isso, todavia, é assunto para estudos mais profundos, que não cabem, aqui e agora, ser desenovelados.

Ricardo cravou olhos percucientes nos pequenos olhos de Irmã Bárbara, e esta, ouvindo-lhe, telepaticamente, a interrogação íntima, respondeu:

– Sim, Ricardo, a informação está vindo agora da própria Sophia: sua intuição está certa. Ela é quem tem acesso integral e imediato a nossos arquivos reencarnatórios, quando se faz isso necessário, para nossa instrução e crescimento. Nossa mestra me diz, pela psicoaudiência (*), que você deve, conforme lhe pedi, fazer o esforço de perdoar e compreender, lembrando que todos, no presente estado limitado de evolução, carecemos, gritantemente, da caridade do perdão uns dos outros.

Ricardo entreabriu os lábios, contemplando a cena que agora se dava no plano material de existência: a caluniadora, que se sentia momentaneamente justificada, abraçava, efusivamente, o médium amoroso e lhe dizia o quanto lhe queria bem. Notava, perplexo, por meio da leitura das energias, que, apesar da postura desleal da jovem, ela realmente queria bem ao medianeiro, como se sofresse de irresistível compulsão ao mexerico, e não tivesse intenção de prejudicá-lo, conscientemente.

– Percebe, meu filho, como a mente humana e as situações da vida são complexas? – disparou Bárbara, visivelmente teleguiada por Sophia, num semitranse de incorporação, semelhante ao que o próprio médium encarnado fazia. – A nossa amiga não tem o desejo consciente de fazer mal, embora seja indiscutível que o faça, em termos objetivos. Temos que dar tempo a que cada criatura se reforme e faça a escolha de outros rumos de comportamento. Enquanto isso, aproveitamos-lhes os esforços e a boa vontade, no desdobramento das boas obras, a seu próprio, bem como a benefício de todos que estejam em seu círculo direto ou indireto de influência pessoal.

Comovido, Ricardo divisou uma luz que nimbava Irmã Bárbara, no alto do coração e em torno da cabeça veneranda, e, outrossim, um pequeno fio de luz que a conectava às alturas, do mesmo padrão que costuma ver no médium encarnado, e que percebera há pouco inclusive, em menor luminosidade, quando da canalização de Sophia, para os companheiros do domínio físico de vida. Vertendo discretas lágrimas, tomou da mão de Bárbara e, sentindo beijar a de Sophia, disse, com voz embargada, olhar para baixo, fundamente contrito:

– Não desista de nós, querida e veneranda Sophia! Perdoe-me a terrível limitação humana e ajude-me a me tornar uma pessoa melhor!…

Bárbara, quase completamente tomada pelo influxo mental de Sophia, com expressão mudada e entonação vocal nitidamente diferenciada, avançou, amorosa, na direção do jovem orientador, e o envolveu, terna, em demorado e afetuoso amplexo, dizendo, ao seu ouvido:

– Tranqüilize-se, meu filho!… Devemos tudo a Deus! E se Ele-Ela nunca desiste de nós, persistindo sempre no investimento, em nossa precária condição evolutiva, por que eu, tão limitada mãe e mestra, desistiria de amigo tão bom e companheiro de trabalho deveras devotado como você?…

Deus abençoe a perseverança dos Anjos que, em nome do Criador, nunca desistem de nós. Cabe-nos, porém, fazer o esforço, para que nós mesmos não desistamos deles, em função de seguirmos a própria estultícia, desperdiçando sagradas e irreparáveis oportunidades de serviço…

(Texto psicografado em 21 de julho de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*) A mediunidade existe e é utilizada no domínio extrafísico de vida, como no físico, inclusive mais intensamente que neste, dada a plasticidade maior do perispírito às irradiações de freqüências mais altas de consciência. Assim, espíritos em faixas evolutivas mais elevadas comunicam-se, através de intermediários sensíveis, com os que estagiam em estratos vibratórios mais baixos, ainda que desencarnados, por se fazerem a estes inacessíveis, diretamente.

(Nota do Médium)

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