Benjamin Teixeira de Aguiar

12 de julho de 2007
 

A Perspectiva do Bebê.


por Benjamin Teixeira


Estava já há uma hora em prece, quando experimentei um estado alterado de consciência mais aprofundado, que se cambiou para uma regressão espontânea de memória. Vi-me bebê mais uma vez, na antiga casa do bairro Santo Antônio (*), onde meus pais e eu residíamos, até meus dois anos e dois meses de idade (sou o primogênito, minhas três irmãs ainda não haviam nascido). Deitado no berço, olhando para o teto, grunhindo fonemas sem sentido, feliz por estar acordado e vivo! Não havia valores ou qualquer parâmetro de discernimento, que definissem algo como bom ou mau, certo ou errado, bonito ou feio. Nenhum preconceito, nenhum elemento discriminatório… As coisas, pessoas e eventos simplesmente eram…

Saí da oração-meditada enxergando o mundo de um modo um pouco diferente. Que diferença há entre conceituar, filosofar, intuir e, tão-somente: sentir! Sentir não é especular ou conjecturar: sentir é viver, é ser… Só o coração transforma, em meio a todo caos e aparentes inconsistências da vida, revelando significado, sentido e propósito para tudo.

Na Psicologia Profunda, o arquétipo da Criança Interior – ou “Puer” – conduz ao da Totalidade – ou Self. O bebê interior contém o anjo latente em nossa intimidade. Somente quando nos permitimos nos vulnerabilizar, para sentir toda a fragilidade e ignorância que portamos, podemos estar receptivos e sintonizáveis com os padrões superiores do Espírito, que ainda não nos compõem o modo de ser.

Terminando o culto do Evangelho, que se realiza diariamente, em meu apartamento, após o almoço – desta vez, só eu e o amigo revisor destas páginas (pela sobrecarga além da habitual, que me premiu a suspender a hora da refeição com mais amigos) –, sentei-me a digitar estas rápidas linhas, por sugestão dos sábios orientadores desencarnados, e recordei-me de uma correspondência eletrônica que troquei nesta madrugada, com outro amigo, freqüentador de nossas palestras há vários anos. Enviou-me, após um e-mail afetuoso, a seguinte citação:

“É bom ter certa dificuldade em viver e não encontrar um caminho todo plano. Tenho pena dos reis, se lhes basta desejar; e os deuses, se em algum lugar existem, devem ser um pouco neurastênicos.”
Émile-Auguste Chartier

Sem dúvida, devemos desistir, definitivamente, de agir como reis ou deuses (mesmo em nossa própria vida), como a cultura racional e pragmática do Ocidente tanto nos propele a tentar fazer, ou jamais estaremos aptos a elevar o grau de nossa lucidez ao nível de, realmente, passarmos a regentes ou divindades em gérmen, na gerência do próprio destino – condição esta que estamos todos fadados a alcançar, pelo longo trajeto evolucional que começa, inexoravelmente, com o reconhecimento da pequenez e insignificância que nos são peculiares.

Ao e-mail do amigo, respondi:

Sem dúvida! Viva à incerteza, à ambigüidade, à complexidade, à imprevisibilidade! E, em contrapartida: salve a criatividade, a liberdade, o poder de transformar e se transformar, começar e recomeçar, construir, desconstruir e reconstruir!!! Em suma: viva à humanidade!!!!

(Texto redigido em 11 de julho de 2007. Revisão de Delano Mothé.)

(*) Ponto d’onde surgiu Aracaju, minha cidade natal, capital de Sergipe, em 1855, a segunda cidade projetada do mundo (depois de Berlim).
(Nota do Autor)




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