Espírito Gustavo Henrique

2 de julho de 2007
 

3 Histórias, 3 Ironias e 3 Lições.

Benjamin Teixeira
pelos espíritos
Roberto, Temístocles e Gustavo Henrique.


O sujeito se aproximou da balconista, meloso e manhoso, e soltou, entre seguro e cínico:
– “Gatchienha”, vamos dar um “rolé” por aí?
– “Se toca”, cara… não gosto de homens abusados. Com tipos como você, eu só transo.
A resposta, porém, não tardou um segundo sequer:
– E o que é que você acha que eu quero com você?

Quem responde ao que não deve, ouve o que não quer.

Roberto.

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Evilázio acumulou fortuna, sacrificando família, lazer e mesmo sua vida espiritual. Dormia pouco, comia mal, não se distraía. Contava, entretanto, tudo aproveitar, quando chegasse aos 50 anos de idade e pudesse usufruir de sua precoce aposentadoria, milimetricamente planejada, desde antes de completar 30 de vida.

De fato, chegou ao meio século de existência, com invejável patrimônio conquistado. Saiu a comemorar, com a esposa e os filhos, seu dia feliz tão esperado. Riu-se gostosamente a noite toda, mas, a certa altura da celebração lauta e desbragada, já tomado de excessos alcoólicos, num acesso maior de gargalhadas, rompeu uma artéria no cérebro, e chegou sem vida no corpo ao hospital, com um aneurisma fulminante.

Quem tudo sacrifica por algo não essencial perde o essencial, e também o não essencial.

Temístocles.

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Luíza chegava em casa, todos os dias, exaurida. Tudo fazia por trazer conforto ao seu casal de filhos, nos seus três expedientes de trabalho. Poderia ficar apenas com o emprego da manhã, mas, se o fizesse, não poderia pagar a viagem de intercâmbio, no exterior, para os dois adolescentes. Para completar, divorciada e gozando de uma pensão limitada do pai dos meninos, trabalhar dias e noites inteiros era a alternativa de que dispunha para concretizar seu sonho de torná-los “cidadãos do mundo”.

Ficava sem vê-los dias sucessivos, porque chegava ao lar, alta hora da noite, quando já dormiam; e, ao sair, mal amanhecendo o dia, ainda estavam na cama, terminando o período reservado ao sono. Teria tempo para dedicar-lhes mais atenção a vida inteira, dizia de si para consigo. Sua presença – confabulava, em solilóquio –, na vida dos rebentos, não seria assim tão necessária – concluindo, um tanto ingenuamente: “Sabem que vivo para eles; isso é o suficiente para que valorizem meu amor e ajam condignamente.”

Chegou o dia de enviá-los ao exterior. Voltou para casa, após assistir à decolagem da colossal aeronave, chorosa e exultante ao mesmo tempo, mas sem imaginar que sofreria tanto de saudades, por já estar tão acostumada com a ausência física de ambos. Ligou o rádio do veículo no percurso para o lar, e, ainda no clima de radiante felicidade, materializando o desiderato acalentado no correr de tantos anos, ouviu a notícia de que o avião que portava os dois tesouros de seu coração havia caído e espatifado sem sobreviventes, poucos minutos após o início do vôo.

Quem adia o amor adia a vida, e declara a própria morte moral, em plena existência física.

Gustavo Henrique.

(Textos psicografados em 2 de julho de 2007. Revisão de Delano Mothé.)




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