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Curiosíssima Visita.(Capítulo 15 de “O Instituto Voltaire”) Benjamin Teixeira
Como eram protegidos do Voltaire, lá estávamos, mais uma vez, acompanhando atividades instrutivas. O diálogo ia em meio, quando adentramos o ambiente: – ‘Cê ‘tá louco, querido! A gente tem mais é que curtir! A vida passa muito depressa, e nunca se sabe por quanto tempo se vai gozar… E é isso que se leva da vida: o quanto se tem de prazer… Sou jovem demais, não faz sentido ficar assim, me preocupando com bobagens… – Amiga, o que falo não são bobagens… Procure examinar de outro ângulo de observação, tente se esforçar por quebrar esses preconceitos… Você não acha que está apegada demais aos prazeres materiais?
– Que papo chato e falso!… Sai dessa, malandro! Que conversa mais careta!!! Tu és muito cafona, cara!… Com paciência renovada, tornou o paternal conselheiro: – Minha amiga, empenhe-se por adotar outra perspectiva… Não se sente cansada desta ladainha interminável de argumentações materialistas? – Ladainha? Pois é, amigo, você acertou em cheio(!): é exatamente isso que estou vendo em você! Um porre tedioso(!), recitando um monte de ladainhas… Você é padre, não é? Diga logo! – Não, não sou. Sou apenas um irmão em Cristo… – Um pastor evangélico! Como é que não me dei conta disso antes??? – Não, amiga. Também não sou um pastor evangélico… O que importa é que saiba que sou um seu irmão. – Olha aqui(!): sabe o que eu acho disso tudo???? – começou a se exaltar a moça, esquisitamente elevando o nível do vocabulário e das conceituações. – Parece-me de uma deslavada tirania… Como é que você se diz irmão em Cristo e me põe nesta situação vexatória, de me interrogar à força, sobre o que não quero falar? – Porque lhe pode fazer bem, muito bem… – Me tiram o baseado, arrancam-me de minha turma, roubam-me a presença do namorado… qual é o problema em ser hippie?… – Nenhum… se eles ainda existissem… – Como assim, amigo? Que “lero” bobo é esse?… – Você nasceu em que ano? – Não entendi que relação pode haver entre uma coisa e outra… – Confie em mim. Vai entender logo. Em que ano você nasceu? – ’52. – 1952? – Não, pamonha!… 1752… – e caiu na gargalhada. – Claro, palerma, que é 1952… – Uhm… e quantos anos você disse mesmo que tem? – Ai-ai-ai! Acho que quem ‘tá com problemas aqui não sou eu… Já sou de maior, amigo, se é o que quer saber… Completei 21 em maio… – Sabe que a atual legislação brasileira dá maioridade civil já aos 18? – Como assim atual? Eu ‘tou por dentro de tudo que é atual… – Muito bem… Você disse que completou 21 anos no último mês de maio? – Foi o que falei… – 1973? – Nossa(!), que “Pedro Bó” (*1)! Não, amigo… 2073!!!!… Claro que é 1-9-7-3!!! ‘Cê mora em Marte ou não sabe fazer as quatro operações da Matemática? – Você não está estranhando nada no ambiente? – Como assim? – Sua voz, por exemplo… não lhe soa estranha? – Minha voz… É… agora que falou… caramba, cara! Que aconteceu com minha voz? Parece de outra pessoa… – Consegue se ver? Não está vendo nada de estranho em sua aparência também? A mulher abriu os olhos e esgazeou-os enormemente! – Cruz-credo!!!! O que ‘tá acontecendo, meu Deus???? – Você não pode ter 21 anos, se nasceu em 1952, amiga… Estamos no ano de 2007, e você teria, então, 55 anos de idade. – So-cor-ro! Deus… Desculpe por usar baseado! Prometo não usar mais!!! ‘Tou ficando louca, meu Deus! – Acalme-se, irmã! Está tudo bem. Você não está perdendo o juízo, mas, muito pelo contrário: está-o recuperando. Só não se encontra mais entre os vivos na matéria… – ‘Tá maluco, oh, Zé! Não ‘tá vendo que eu ‘tou falando contigo! Como é que eu poderia estar morta???? – Volte a observar o corpo que você está utilizando para falar comigo e torne a notar a voz que emite… A mulher caiu em pranto convulso, dizendo, baratinada: – Deus! Deus! ‘Tou ficando maluca!!!… – Você está fazendo uso de um aparelho mediúnico. A senhora que lhe oferece sua sensibilidade para que fale conosco está lhe permitindo a comunicação comigo, através do corpo dela, a fim de que possamos ajudá-la a se encontrar… – Como assim? Como assim????? – debulhando-se em lágrimas. – Médium??? Eu não acredito nestas coisas!!!! – Então, como explica o que está acontecendo com você agora? – Ai, meu Deus… eu devo estar num sanatório, não é isso? Fiquei doida e me internaram num hospício! O senhor é o médico, não é? O baseado arruinou o meu cérebro, e eu estou alucinando – é isso, não é, doutor? – Não sou médico, cara irmã, e você não está alucinada. De reversa maneira, como lhe disse há pouco: está dando mostras claras de me compreender bem, apenas se mantendo um tanto resistente a aceitar sua nova realidade. Dois enfermeiros espirituais aproximaram-se da médium em transe. O espírito da viciada em drogas, que morrera tragicamente, num acidente automobilístico, em meados de 1973, encontrava-se sentado, quase que de todo “colado” ao corpo da medianeira (*2). Afastaram um pouco o braço da entidade, para que descoincidisse do braço perispirítico da médium que, consciente, continuava acoplada ao próprio corpo, também, interpenetrada ao espírito comunicante. Distanciado o braço, aplicaram poderoso sedativo que, em espaço de poucos segundos, “apagou” a “garota de 21 anos”. A médium de incorporação, muito sensível e plástica, pendeu a cabeça para frente, acompanhando todos os movimentos da personalidade desencarnada, como vinha manifestando cada fala e gesto seu, até o momento. – Vá em paz, irmã. Você receberá tratamento adequado, e logo descobrirá que há, sem dúvida, uma juventude eterna… a do espírito, pela valorização do essencial: os princípios da sabedoria e da bondade… Laércio, o responsável e lúcido esclarecedor, continuou observando a médium, atentamente, aguardando que recobrasse a plena operacionalidade do corpo e até a consciência (a médium às vezes ficava semiconsciente), preocupado e sinceramente contristado com a companheira de trabalho, pela intensidade da manifestação. Quando a sensitiva levantou a cabeça e endireitou-se à cadeira, imediatamente indagou: – Tudo bem, Luíza? – Sim, Láercio, obrigada. – Ela foi levada? – Sim, acompanhei a chegada de dois enfermeiros da outra dimensão. Foi sedada e colocada numa maca. Vai ser tratada na clínica espiritual que fica em nossa própria Instituição, na sua contraparte astral. – Que bom! Alguém mais deseja falar? – Vejo Matheus de Antioquia aproximar-se. O prezado mentor deverá dar alguns informes… Sim… sim… é o que me diz. Pede-me passividade. – Ótimo. Aguardaremos, ansiosos. Vou avisar aos demais presentes – completou Laércio, que enfeixava as funções de esclarecedor das entidades sofredoras e de dirigente da reunião mediúnica. – Amigos, nosso muito estimado mentor espiritual fará uso da psicofonia de nossa irmã Luíza para se comunicar conosco. Como estamos a apenas dez minutos do encerramento de nossas atividades, pedimos aos médiuns que, por gentileza, desfaçam o transe em que porventura estejam, já que todos devemos a máxima atenção aos nossos professores da Outra Dimensão de Vida. Luíza concentrou-se. Dotada de excepcional elasticidade psíquica, além de invejável patrimônio intelectual, os orientadores de nosso Plano facilmente encontravam meios de se manifestar através dela, com fluência e naturalidade. O mentor de nossa Dimensão, conhecedor profundo do processo de incorporação, apenas pousou a destra sobre o plexo coronário da companheira encarnada, permanecendo de pé, atrás dela, de olhos fechados, igualmente mergulhando em estado de concentração. Em segundos, a médium se empertigou na cadeira, coluna ereta sem afetações, ar solene sem chegar a ser severo. Isenta de grande policromia fenomenológica, mas com a espontaneidade elegante dos médiuns excelentes, Luíza ficou com a voz ligeiramente mais grave, sem contudo forçá-la neste sentido. E, enquanto isso, fios luminosíssimos ligavam seu psiquismo ao do “controle” desencarnado, seu guia espiritual: – Prezados irmãos: “Que Jesus nos abençoe, agora e sempre. Hoje, trouxemos, à baila de nossas atividades de socorro espiritual, entidades que jaziam presas a catres medonhos de dor moral, supondo-se ainda jungidas a seus antigos corpos físicos, de há muito decompostos, no decesso carnal. Que saibamos valorizar as oportunidades que ora desfrutamos, seja no corpo ou fora dele, porque, mais cedo ou mais tarde, seremos chamados a dar contas do uso que houvermos feito dos recursos e ensejos de ação que nos foram ofertados por mercê da Misericórdia Divina…” O mentor prosseguiu, em belíssimo discurso de exortação ao pleno aproveitamento dos talentos da vida, e, depois de apenas cinco minutos, ainda restando mais outros cinco para qualquer iniciativa final, voltou-se para o dirigente da mesa, solicitando-lhe, lacônico, através da boca da médium: – Caro Laércio, poderia arranjar-me papel e caneta, a fim de que possa grafar algumas despretensiosas linhas para irmã aqui presente? – Pois não, prezado amigo – respondeu Laércio, muito solícito e satisfeito, aprestando rapidamente o material pedido. Chamá-lo-ia, com gosto, de grande mestre, mas sabia que o humilde e sábio professor da nossa faixa de ação jamais o aceitaria; de modo que, para compensar a excessiva “horizontalidade” da relação, que lhe soava desrespeitosa, esforçava-se por ser o mais servil, afável e presto que estava em seu alcance. Matheus concluiu a instrução breve:
– Se acontecer de eu ultrapassar alguns minutos do tempo planejado ao término de nossa reunião, não estranhe; não constituirá distração da médium, e sim determinação minha, já que a epístola deve seguir na íntegra, para a companheira encarnada. Mas, no máximo, ultrapassarei dois ou três minutos. Ao fim, peça ao caro amigo João Dário que faça a prece de desfecho das atividades: ele já está devidamente conectado à sua mentora espiritual, Irmã Dalva, que, pela inspiração, conduzirá sua fala, conforme as necessidades dominantes dos presentes, tanto da nossa, como da dimensão de vocês.
– Como o senhor quiser… sempre às ordens – respondeu o diretor da reunião, felicíssimo em servir ao grande mentor de além-túmulo.
Luíza, numa psicografia profunda, que era mais uma continuação da incorporação que propriamente uma psicografia, começou a escrever, com velocidade, o texto que o guia da Espiritualidade Sublime lhe ditava aos ouvidos psíquicos, enquanto lhe conduzia, diretamente, em parte, os movimentos do braço direito, que parecia elétrico, redigindo páginas de fraseologia e conteúdo impecável, no lusco-fusco, sem uma única vacilação.
De fato, a psicografia teve fim apenas três minutos passados das 21h – definidas para término da reunião. O irmão encarnado previamente assinalado para a oração final proferiu-a, a convite de Laércio, e, acesas as luzes (tudo houvera sido realizado à penumbra), uma jovem senhora ainda na casa de 30 anos recebeu a missiva mediúnica, em meio a pasmo e expressiva felicidade, vertendo lágrimas de gratidão e entusiasmo: 3 tópicos de suas preces, feitas imediatamente antes de se dirigir à reunião mediúnica, haviam sido enumerados e respondidos (tópicos, obviamente, que não eram do conhecimento da médium).
Estávamos reconfortados e encantados, assistindo à bênção ímpar que o Espiritismo bem aplicado e conduzido constitui para a humanidade carente de socorro e transformação… E, é claro, testemunhando como o mandato mediúnico, exercido com fervor religioso e disciplina, pode representar verdadeiro repositório de dádivas celestes. Pouco antes de deixar o ambiente, em meio às despedidas dos companheiros de nosso domínio de vida, vimos Luíza, muito humildemente, recebendo os cumprimentos dos amigos agradecidos por tantas dádivas propiciadas por suas faculdades abençoadas, no correr de anos de trabalho persistente e heróico na seara mediúnica. Matheus a observava, de si também agradecido, e disse-me, sem tirar os olhos da pupila, tendo-os marejados de pranto:
– Graças à disciplina e à determinação em servir santamente com Jesus, de nossa cara Luíza, milhares de almas dos dois planos de vida têm podido ser confortadas e orientadas, todos os dias, pelas páginas e falas de consolo e esclarecimento que, pela imprensa ou pessoalmente, fluem de suas mãos e de sua garganta dedicadas ao Cristo. Ore por nossa amiga, irmão. É humana e tem limitações como qualquer criatura. Embora o respeitável patrimônio evolutivo que já ostenta, não é uma alma de todo redimida.
Com significativo brilho no ar, prosseguiu o mestre em intercâmbio mediúnico:
– Por conta das peculiaridades invulgares que lhe exornam o caráter, causando admiração ou temor, muita gente ou quer ver nela uma santa ou um demônio, em vez de terem-na como uma mártir anônima do esforço em dar de si o melhor por todos, sem notarem, é claro, o empenho mastodôntico que vive, ano sobre ano, para tanto oferecer a tantos, sem desfalecimentos, numa área em que a esmagadora maioria dos que poderiam algo fazer preferem ficar à distância, no camarote fácil da crítica e da calúnia ou na carruagem confortável do menor esforço, abandonando as sacrificiais atividades no bem. Para chegar até aqui, após duas décadas de trabalhos ininterruptos na canalização mediúnica, nossa irmã, entre provações inumeráveis, que não caberia aqui minudenciar, incluindo a ingratidão e o ataque gratuito por parte dos maiores beneficiários de seus empreendimentos de Luz, visitou a fronteira entre a loucura e a sanidade inúmeras vezes (para que melhor se condicionasse mentalmente aos nossos comandos psíquicos, sem interferências maiores do plano inferior de consciência – as famosas obsessões), e teve que renunciar a qualquer destaque de ordem profissional, social ou financeira.
Matheus fez uma pausa expressiva, como a fitar o infinito, e, demonstrando intenção de rematar o curto discurso, prosseguiu:
Ore, amigo, por ela. Porque, por ora, para a atividade gigante que por seu intermédio desdobramos, não teríamos substitutos fáceis; e, provavelmente, caso ela venha a desistir ou desencarnar (já que tem direito de nos pedir isso, espírito amadurecido e com muitos créditos ante Nosso Grupo), teremos que levar várias décadas de preparação laboriosa, até conseguir alguém à sua altura operacional. Os agentes das trevas não querem o trabalho.
Após nova e significativa pausa, sorriu largamente e, olhando para o Alto, declarou, profético:
– Mas as Altas Potestades do Plano Excelso querem a continuidade de sua tarefa… que pertence, em verdade, a Elas… e a protegem… muito!!!!…
Saímos, de fato, em prece… muita prece… de gratidão… Ela não iria se desviar – percebemos isso em seu olhar… alma velha… muito velha… Deus a abençoe… para que prossiga beneficiando milhares… milhares…
(Texto psicografado em 15 de junho de 2007. Revisão de Delano Mothé.)
(*1) Personagem antigo do comediante Chico Anísio, que se caracterizava por perguntar asneiras.
(*2) Não é necessário este “encaixe” do espírito comunicante no corpo do médium, para que haja a incorporação, mas pode acontecer, sobretudo quando se trata de manifestação de entidades de menor adiantamento evolutivo.
(Notas do Médium)
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