Diálogos com o Espírito Eugênia-Aspásia

11 de junho de 2007
 

Parada do Orgulho Gay (1) de São Paulo (diálogo mediúnico)

Benjamin Teixeira de Aguiar – Você teria algo a nos dizer sobre a parada do orgulho gay de São Paulo?

Eugênia-Aspásia – Trata-se de uma parada do “orgulho” humano ou, como seria melhor dizer: da dignidade e do respeito aos sentimentos humanos. Explicando-nos, vejamos, em dois tópicos, alguns argumentos que lastreiam nossa afirmação.

Primeiro: quando um preconceito mais incrustado na cultura, qual o existente contra homossexuais, for debelado, seguramente outros mais leves, como a discriminação contra mulheres, negros ou estrangeiros, estarão definitivamente erradicados dos quadros civilizacionais. Os heterossexuais, como categoria dominante nas convenções sociais, devem apresentar a hombridade e grandeza moral de adotar postura suficientemente democrática, civilizada, humana e cristã, favorecendo tais movimentos de combate e eliminação de toda ordem de preconceito, e não apenas dos que diretamente lhes afetem, ou viveremos, indefinidamente, uma ditadura de maiorias, muito distantes de uma sociedade igualitária, plural, moderna, em que grupos minoritários encontrem ampla liberdade para se manifestar, tendo seus direitos, valores e sentimentos respeitados por todos. Compreendamos, assim, que esta é uma causa do gênero humano, não somente de homossexuais.

Segundo: a nova sigla de identidade do movimento gay, GLBT (1), inclui os bissexuais em seus quadros e revela, por conseguinte, que os interesses defendidos pela causa envolvem estratos demográficos que, em sua totalidade, podem se equiparar, em números, aos contingentes heterossexuais das populações, ou mesmo superá-los.

BTA – Poderia deixar mais clara essa sua opinião?

EA – Utilizemos estatísticas tão só do plano físico, para não criar confusões excessivas em nossos leitores – embora pudéssemos trazer dados de que dispomos, no domínio espiritual de existência, acerca da delicada temática.

Conforme o mais conservador e aceito estudo sobre a sexualidade humana, o famigerado relatório Kinsey, se somarmos o percentual de indivíduos plenamente gays ao dos que têm algum potencial para uma relação homossexual (mesmo que eventual ou incidental), chegaremos a um total de aproximadamente 50% das comunidades humanas. Destarte, somente a outra metade da humanidade terrestre seria integralmente heterossexual, ou seja: completamente incapacitada de travar uma relação homossexual com quem quer que seja, em qualquer circunstância considerada. E estamos nos referindo a um levantamento publicado em 1948, feito à base de entrevistas diretas entre os pesquisadores e os consultados – imaginemos quantos, em meados do século transato, responderam sinceramente a perguntas como ter ou não desejos gays, ainda que com a garantia de sigilo…

Eles estão por toda parte, no seio da vida doméstica, formando, com lastimável frequência, famílias disfuncionais e infelizes (por motivos óbvios), seja no intuito de fruir a prerrogativa humana sagrada da constituição do próprio núcleo familiar, seja, sobremaneira, no afã desesperado de evitar a estigmatização e a marginalização. Os homossexuais são, de uma forma geral, cidadãos decentes, trabalhadores e criativos, muitos, por sinal, expoentes em suas profissões, já que não só costumam ter mais maturidade e força psicológica que a média heterossexual (por suportarem pressões ingentes e transcendê-las desde a infância), como também buscam, naturalmente (por viverem num contexto sociocultural que ainda não lhes dá direito à livre manifestação de seu modo psicossexual de ser), extravasar sua maior frustração afetiva, dedicando-se às atividades e ao brilho profissionais.

Por isso asseveramos, na resposta anterior (e agora justificamos a assertiva), que a classe heterossexual tomaria um grande susto, se todos os gays e bissexuais (em termos potenciais – lembrando que expressiva parcela deles se castra) se declarassem publicamente, a um só tempo. E os heterossexuais então poderiam constituir uma minoria que, muito provavelmente, seria acolhida e tratada com carinho e consideração pela majoritária fatia bissexual-gay da população… Atenção: não estamos confirmando tal conjectura, mas apenas trazendo uma ideia do assombro que acometeria grandes setores sociais mais reacionários, caso houvesse uma gigantesca e geral declaração pública de identidade gay, por parte dos componentes homo-bissexuais das sociedades.

BTA – Você então aprova a imediata e maciça declaração pública de identidade homo ou bissexual – proposta, inclusive, sustentada por alguns militantes do movimento gay, no sentido de abolir a força da homofobia, por tornar clara a quantidade de gente decente e importante que integra as hostes homossexuais?

EA – De modo nenhum. Seria o mesmo que decretar a destruição de diversas obras de vulto para o progresso humano. Devemos respeitar os ritmos de cada criatura e, principalmente, as barreiras culturais e a energia psíquica acumuladas em séculos de homofobia institucionalizada – recordemos os recentes fornos dos campos de concentração nazistas, se não quisermos ir mais longe, até as fogueiras da inquisição. Nem todos estão preparados para ouvir e, muito menos, para se expor, quando se trata de assunto tão polêmico, eivado por pesado tabu nas comunidades terrícolas da atualidade.

Um reality show nos EUA exibiu, recentemente, o pasmo de integrantes de uma família de brancos que se passaram por negros (mediante aplicação impecável de maquiagem), ao perceberem, a partir da experiência dramática de vivenciarem a condição negra, a medida acachapante de racismo que permeia praticamente todas as relações humanas. Tinham eles, como acontece mui frequentemente entre os partícipes da raça branca, a tendência a minimizar o preconceito, justamente por não sofrerem a perseguição estúpida e gratuita do racismo, a força do ódio e desprezo a negros, vergonhosamente ainda bem vivos nos meios mais ditos urbanizados.

Muito pior que o racismo (cujo combate representa inclusive um valor das sociedades civilizadas, sem espaço a discordâncias públicas), subsiste, indubitavelmente, a homofobia. A aceitação de gays está, no mínimo, um século atrás da que os negros hoje desfrutam, em termos de avanço nos direitos civis e nas regras consuetudinárias. Para verificarmos a plausibilidade dessa especulação, basta observarmos o que dizem segmentos inteiros das sociedades, quais os do âmbito religioso, que ainda propalam, inescrupulosa e descaradamente, campanhas contra gays, desabonando-os diante de Deus e da moral, quando se sabe que, nas nações mais desenvolvidas do globo, a condenação à homossexualidade é considerada uma heresia anticientífica, além de ser um ato expressamente ilegal (2).

BTA – E quanto aos abusos e atentados ao pudor que espocam em paradas gays?

EA – São reações naturais a esse nível crítico de preconceito, presentes em quase todas as comunidades humanas de nosso orbe. Lembremos que, em várias partes do planeta, a homossexualidade é punida com a pena capital, como ainda ocorre notadamente no Oriente Médio. Quando alguém é tratado, desde a tenra idade e por toda a vida, como uma aberração perante Deus, como uma vergonha pública diante das sociedades, como abominável até mesmo na intimidade do lar, pelos entes mais queridos, é perfeitamente razoável que desequilíbrios psicológicos, agressivos e compulsivos sejam desencadeados.

É bem verdade que posturas exageradas, em certo aspecto, reforçam o preconceito em alguns, mas estes já seriam contrários à causa do respeito às diferenças, de qualquer forma. Coletivamente, todavia, isso indica que as massas de centenas de milhões de homossexuais estão se insurgindo como podem, pela agressividade bem aplicada politicamente, contra a opressão injustificável que padecem, desde o berço e por todos os lados – incluindo, lamentavelmente, os ataques embasados em teorias estapafúrdias e impudicas de espíritas que se esquecem da proposição categórica, apresentada pela Espiritualidade Maior e pelo próprio Kardec, de que o Espiritismo deve seguir a Ciência, sempre que houver contradição entre os avanços científicos e os postulados da “doutrina” espírita.

Eugênia-Aspásia (Espírito)
Benjamin Teixeira de Aguiar (médium)
11 de junho de 2007


(1) Hoje, LGBT: lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros.

(2) Como é o caso do Brasil, em que a homofobia é inconstitucional, infringindo o artigo V da Constituição atualmente em vigor, de 1988. Com relação ao aspecto científico, por sua vez, o Conselho Federal de Psicologia, na Resolução 01/99, proíbe, terminantemente, o “tratamento” clínico de homossexuais, podendo um(a) profissional da área perder seu direito de clinicar, caso lhe seja comprovada a intenção de “curar” a homossexualidade de alguém. Bem antes disso, a Associação Médica Brasileira (1985) e a Associação Psiquiátrica Norte-Americana (1973) declararam, oficialmente, que a homossexualidade não constitui qualquer ordem de distúrbio mental ou moral, razão por que não pode, absolutamente, ser foco de tratamento.




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