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O Grande Orador.
(Capítulo 4 de “O Instituto Voltaire”)
Benjamin Teixeira
Gerard entrou, sem cerimônias, na sala do médico amigo, o tal professor de Sorbonne na última reencarnação que já havíamos citado, “en passant”.
– Querido Duclerk, poderia ajudar-me na descida ao plano físico, hoje? Faremos um trabalho de inspiração a grande orador espírita, que visita nossa cidade-base na crosta.
– Claro! Será um grande prazer! – respondeu o médico, com um gesto muito característico seu, reaproximando dos olhos os óculos sem aros de suporte nas orelhas. – A que horas a caravana sai?
– Às 20h. Haverá uma fala inicial de outros companheiros encarnados, e só seremos necessários, no ambiente, minutos mais tarde. Como não compomos a equipe de tarefeiros que prepararão a psicosfera para o evento, manter-me-ei em minhas atividades até o momento em que nos fizermos chamados ao serviço por lá.
– Desculpe-me, Gerard, mas quem é o orador?
– Nadir.
– O que trabalha com nossa cara Luíza?
– Sim, ele mesmo.
– Tenho muita curiosidade em conhecê-lo. Soube que está fazendo grandes progressos. Andou metido com manobras políticas perigosas e de graves conseqüências na última encarnação, não foi?
– Sim, está agindo no bem, quanto lhe está ao alcance. Naturalmente, apresenta ainda o perfil psicológico do político da velha guarda, com visíveis traços de paranóia, quando, em verdade, atrapalha, às vezes, o trabalho de outros companheiros. Contudo, sem dúvida, está realizando uma obra de vulto para suas condições evolutivas. Falhas todos temos, principalmente quando jungidos ao corpo, que nos acentua os componentes inferiores da psique, pela proximidade da matéria e dos instintos animais da máquina biológica. Em suma, o mérito dele é grande, justamente porque está se esforçando para fazer o que, em tese, não poderia ser feito por alguém do padrão de maturidade psicológica e espiritual que apresenta.
– É você mesmo quem fará a inspiração?
– Sim. Obviamente, serei, como de habitual, por minha vez também, conduzido por nossos mentores do Plano Sublime, mas a parte essencial da orientação de idéias e conteúdo eu mesmo produzirei, injetando-lhe conceitos na mente mediúnica.
– De fato, bastante interessante. Terei muito gosto em acompanhar.
Faltando cinco minutos para as oito horas da noite, os dois amigos adentraram a casa espírita simples, com platéia que era grande para os parâmetros espíritas da época, mas que não ultrapassava as 200 almas na esfera material. Nadir, homem moço, na casa dos 30 anos, sentado, nos últimos minutos antes de iniciar sua fala, deslizava os olhos de lince, percucientes, sobre a platéia. Alguns sentiam temores inexplicáveis quando lhe cruzavam o olhar, sem saber que o conheciam do tempo em que fora a grande e implacável figura de poder da existência pretérita. Gerard cumprimentou a venerável figura de Luíza, mentora espiritual de Nadir, e, em poucos segundos, definiram diretrizes sobre o que deveria ser inspirado naquela noite especial de estudos e reflexões espirituais. Findo o diálogo telepático, voltou-se para o professor de medicina e lhe disse, sem rebuços:
– Duclerk, preciso que ajude o processo de digestão de nosso amigo, acelerando-o. Os irmãos encarnados ofereceram-lhe repasto ao estômago muito tarde, influenciados por agentes perturbadores de nossa dimensão. Teremos apenas quinze minutos para agir. Reequilibre os plexos inferiores de nosso companheiro, enquanto inicio o meu processo de fusão psíquica provisória com ele.
O médico atendeu, pressuroso, imediatamente aplicando métodos complicados de manipulação de energia, fazendo uso de seus avançados conhecimentos de Medicina do Plano Superior. Enquanto isto, o diretor do Instituto espalmou as mãos sobre o crânio de Nadir, às suas costas, de pé, e, rapidamente, fios energéticos e ondas luminosas de tom verde limão envolveram os dois numa só massa de energia luminosa e suave. Ao mesmo tempo, um estreito tubo luminoso, de tom esbranquiçado, formou-se, ligando o chakra coronário de Gerard em direção ao infinito, para cima, conectando-o a Inteligências Superiores Ignotas… Mal terminara a operação, que durou exato quarto de hora, o expositor encarnado recebeu, do dirigente da mesa na dimensão física, a delegação da fala, levantando-se, com maneiras lentas e majestosas, de seu assento e aproximando-se do ponto que representaria o púlpito, acompanhado, de uma distância de pouco mais de um metro, pela figura do professor desencarnado, que fechou os olhos, após a dupla interdimensional se posicionar para o discurso, em estado de profunda concentração. Logo depois, foi a vez de o próprio Nadir demonstrar a produção de um transe. Fechou igualmente seus olhos, a voz pareceu ficar pastosa e monocórdia, e, em poucos instantes, alteando-lhe o volume e empolgando-se, exibiu um espetáculo de oratória inflamada, a explodir no salão pequeno, como se houvesse ali congregadas duas mil, e não duzentas criaturas atentas.
Passado pouco menos de uma hora e meia, Nadir saiu de seu transe de oratória, seguido de Gerard, que abriu os olhos e respirou fundo algumas vezes, desfazendo-se, paulatinamente, a partir daquele instante, a massa de luz esverdeada que os unia numa sinergia psíquica. A ovação se fazia ainda no ambiente, enquanto diversas entidades enfermas, acopladas a inúmeros dos componentes da platéia, eram desvencilhadas de seus hospedeiros do mundo material – trabalho desdobrado durante todo o discurso do visitante ilustre. Duclerk, então, aproximou-se de Gerard e, em tom suave e respeitoso, indagou-lhe:
– Tudo bem, amigo?
– Sim, já diluí a concentração.
– Que achou? – perguntou, com ar inteligente, sabendo que, pela intimidade, arrancaria interessantes e completos comentários do culto e lúcido diretor.
– 30% do que eu gostaria. Ele é muito focado nas questões históricas e no traço literário da oratória, ao estilo que se convencionou, principalmente no meio político, como a excelência retórica, que não me agrada de modo algum, exageradamente formal e rebuscado. Mas isto é perfeitamente compreensível, porque este é o padrão do plano físico. Os encarnados, por ora, acreditam que uma fala empolada e declamada seja mais bela que a conversa espontânea e sincera, rica de pontuações filosóficas, científicas e proposições simples e psicológicas de aplicação imediata na vida prática. Tentei fazê-lo desenvolver alguns raciocínios apresentados por pesquisadores europeus, a respeito da temática, mas ele apenas os citava, sem desdobrar as idéias que lhe sugeria. Também propus que ele apresentasse algumas dicas de melhoria íntima aos companheiros, mas ele deu um tom profético de medo e culpa (conforme fixações que adquiriu, em reencarnações como sacerdote católico) ao que eu pretendia fazer estimulante e tranqüilizador. Além desta grave barreira de valores e parâmetros psicológicos, saindo da esfera da inspiração – que é a mais importante –, com respeito à fenomenologia mediúnica mais diretamente considerada, capta ele, com precisão admirável, números e nomes que lhe emanamos, mas tem dificuldade de construir conceitos e desenvolver abstração. Ou seja: é uma ótima máquina mediúnica, mas apresenta resistência em elaborar argumentos mais completos e escorreitos – uma falha comum nos médiuns: muita passividade, pouca lucidez. Grava tudo com facilidade, reproduz com fidelidade, mas, no momento de intuir significados mais amplos, não logra elucubrar com profundidade, o que faz com que, ao soprarmos conceitos mais complexos, se embaralhe ou sinta um “vácuo de pensamento” (digamos assim), por falta de ressonância com nossa freqüência de intelecção, e pule para o tópico seguinte, sem maiores esclarecimentos (como almejaríamos) dos pontos alvitrados. Em resumo, não tem a intelectualidade trabalhada para assuntos intrincados, mas apenas para os administrativos e políticos, o que faz muito bem, sem dúvida! Mais uma vez, o precedente reencarnatório, no histórico de nossas aptidões conquistadas no carreiro evolutivo.
Duclerk sorriu, como se fosse amparado em suas especulações íntimas. Mas não resistiu, na conversa franca entre amigos, e permitiu escapar, entre os lábios, num tom entre enigmático e irônico:
– A platéia adorou!
– Mas ele realmente é ótimo, querido Duclerk! Estas pessoas não têm preparo para avaliá-lo da forma como fazemos. São crianças no espírito ainda. Recorde-se de que somos inteligências buriladas em sucessivas reencarnações de trabalhos intelectuais, mas estes pobres amigos, embora já possam ser contados na vanguarda relígio-filosófica da Terra, sendo espíritas confessos em pleno século XX, não desfrutaram dos ensejos que tivemos, para bem antes do Egito Antigo, incluindo o próprio Nadir, almas mais velhas que somos, em vários milênios de esforços de conjecturas e análises complexas.
– Por favor, Gerard, não me nivele a você… – falou firme e transparente, o médico brilhante.
– Você superdimensiona as diferenças entre nós, querido amigo. Compreende o que lhe disse, apenas confirmando as próprias avaliações íntimas, ao passo que um comentário deste, no plano físico, soaria “fascinação” (*) ou “inveja”, quando estamos movidos, em verdade, por gratidão, até mesmo empolgados no intuito de apoiar o corajosíssimo irmão encarnado, que persiste no trabalho, debaixo de forte saraivada de ataques no meio espírita, atualmente. Apenas quando estivermos reencarnados novamente, trabalhando em outra época, com necessidades diferentes, na virada para o próximo século, o estilo do companheiro já será obsoleto, e o nosso poderá ser recebido, embora com muita dificuldade nos primeiros decênios, como a nova vanguarda do movimento espírita.
– Não vejo a hora de vê-lo proferindo suas magníficas aulas, já reencarnado! Com seu poder de fazer liames transdisciplinares entre as temáticas e falar sobre tudo, incluindo questões complexas, como se fosse simples e prosaico, vai favorecer, muito mais, a fala direta dos Grandes Sábios do passado, de nossa Dimensão… Sem dúvida, vai ser aceito rapidamente por todos!…
– Agradecido, caro Duclerk, pela palavra sincera de estímulo e solidariedade, mas não será bem assim… Quando apresentamos um novo paradigma de ser, pensar e agir, por mais convincente e bem fundamentada que seja nossa apresentação ao populacho, causamos mais escândalo que impacto positivo. Lembre-se de que trabalharemos contra vários tipos de preconceito, simultaneamente. Inúmeras vozes se levantarão para nos acusar de pervertido ou “obsediado”, desencaminhado do propósito que nos teria levado à reencarnação, ou mesmo completamente audacioso por pretender assumir uma posição que não seria para nós. Se Nadir está sendo assim perseguido, com óbvia postura conservadora e solene, imagine o que poderá acontecer conosco…
– É… – quase sussurrou o médico culto, cofiando a pequena barba no queixo – que Deus e as Autoridades do Plano Maior nos protejam…
– Sim, nunca nos faltará este concurso! Nós é que talvez vacilemos. Por isto, temos que fixar a lição da vigilância e da oração, para suportar os desafios de se estar na vanguarda, quando eles chegarem.
A esta altura da conversa, Luíza se aproximou de Gerard e cumprimentou-o, agradecendo pela colaboração prestada nas atividades de inspiração aos amigos do mundo físico, sendo respondida com muito respeito e carinho pelo dirigente do Instituto, que lhe demonstrava viva afeição. Mais alguns minutos de despedidas fraternas com outros companheiros desencarnados do grupo espiritual de assistência, e os dois intelectuais franceses em “terras astrais” brasileiras “alçaram vôo” de volta ao Voltaire, abraçados, em íntimo colóquio de espíritos irmãos.
(Texto psicografado em 29 de março de 2007. Revisão de Delano Mothé.)
(*) Em terminologia espírita, a obsessão (influência mental perturbadora), em seu segundo nível de aprofundamento. O fascinado perde os parâmetros do bom senso, e não se apercebe dos erros crassos que comete ou do ridículo óbvio a que se expõe.
(Recorde-se o prezado internauta de que haverá mensagens novas aqui disponibilizadas, no transcurso do fim de semana.)
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