Diálogos com o Espírito Eugênia-Aspásia

13 de março de 2007
 

A Voz do Coração (breve diálogo mediúnico)

Como distinguir emoções vulgares de intuições genuínas? Como saber se é o momento de agir ou de esperar – e o que fazer quando sabemos que devemos agir de determinado modo, mas simplesmente não conseguimos nos posicionar? Como conduzir a própria vida, em meio ao caos de eventos imprevisíveis? Reconsideração de ideias abandonadas, indecisão e procrastinação.

Benjamin Teixeira de Aguiar
em diálogo com o Espírito Eugênia-Aspásia
12 de março de 2007

Espírito Eugênia-Aspásia – Ouçamos a voz do coração, em todas as questões do espírito, a fim de que não nos deixemos motivar por emoções de ordem inferior e venhamos a tomar rumos equivocados, de que depois nos arrependamos amargamente, sofrendo as consequências de nossa ingrata escolha.

E como fazer a distinção entre emoções baixas e intuições apuradas, entre o palpite vulgar e a inspiração divina?

Responderíamos: pelo padrão dos estados psicológicos. Quando a pessoa se conhece a fundo, é capaz de diferenciá-los, natural, automática e facilmente, detectando-lhes a origem: se primitiva e grosseira ou elevada e nobre. Eis que, assim, pela profundidade e leveza dos sentimentos ou pela baixeza das impressões íntimas, será possível discernir uma doutra experiência.

Benjamin Teixeira de Aguiar – Mas e quando a intuição do Plano Sublime trata de evento ou situação inferior, em caráter de alerta? Não poderia o neófito em assuntos mediúnicos e espirituais confundir-se?

EEA – Sim. Por isso, o indivíduo deve dedicar-se ao trabalho de autoconhecimento profundo, para não se embaralhar em circunstâncias fenomenológicas mais complexas, como a que você apresentou. Para favorecer um entendimento aproximado do que queremos dizer, imaginemos uma cena de corpos ensanguentados e/ou esquartejados: a imagem despertará, num pervertido, o açulamento de seus instintos degradados no franco sadismo; num médico cirurgião, por outro lado, em sala de emergência hospitalar, insuflará os mais subidos ímpetos e providências de solução salvacionista e curativa, no intento de reparar a conjunção orgânica do paciente, quiçá resgatando uma vida da iminência do decesso carnal.

BTA – E quanto à necessidade de agir ou esperar? Há momentos em que, em vez de procurar respostas ou nos colocar em ação, precisamos tão somente aguardar. Como distinguir negligência de confiança irrestrita em Deus?

EEA – Existe o princípio da previdência e o da Providência. Pelo primeiro, o ser humano age em seu próprio favor ou das realizações que pretende empreender, fazendo uso de suas faculdades, de razão, livre-arbítrio, discernimento. Pelo segundo, opera Deus, expressando-Se no mundo por mil modos, desde ocorrências prosaicas, coincidências aparentemente fortuitas no encadeamento de eventos, até fenômenos extraordinários, como as manifestações paranormais, mediúnicas ou místicas. Pelo entrelaçamento desses dois princípios, os destinos humanos são entretecidos.

Cabe-nos galgar níveis progressivamente mais altos de consciência e sabedoria, para que não só logremos agir corretamente, quando for o momento de atuar no drama da vida, mas também saibamos suspender a nossa interferência, de qualquer natureza que seja, no instante reservado à Providência Divina. Nesse capítulo existencial, temos o famigerado conceito oriental da “não ação”, que deve se casar ao exacerbado e sufocante impulso ocidental à ação, de sorte que se neutralizem em seus excessos e possa haver equilíbrio, felicidade e paz no viver humano.

BTA – E quando decidimos agir, mas as coisas não se dão como esperávamos?

EEA – O caos não deve gerar perturbação. O caos existe para instigar a inteligência a buscar patamares mais complexos de entendimento da realidade. E, como substrato básico da criatividade, o caos incentiva a renovação. Há períodos em que quase nada do que prevemos acontece, e nem por isso precisamos, necessariamente, nos fazer mais produtivos, ou nos consumir em ansiedade. Algumas fases de incubação, de transformação subliminar, somente a posteriori evidenciarão sua utilidade. E tais quadras existenciais, não raro, são ricas em desordem e crise, justamente os fatores que mais fomentam a transcendência de um dado “status quo”.

Com essas ponderações, todavia, de forma alguma desmerecemos a necessidade de planejamento, que tem relevância estratégica na configuração dos destinos humanos e consiste em uma das maiores responsabilidades de toda criatura em estágio hominal de consciência. Em outras ocasiões, inúmeras, já deixamos bem clara essa nossa opinião-assertiva essencial.

A propósito, ao início desta resposta utilizamos o verbo “prever”, e não “planejar”, ajustando propositalmente o enfoque da temática, para não haver reforço aos reclamos desta era civilizacional de ansiedade e desejo de controle exagerados. Devemos nos planejar e, na medida do possível, sem paranoias ou perfeccionismos, empenhar-nos em tentar aplicar o planificado. Mas que, com essa postura programática diante da vida, não deixemos de levar em conta os princípios da imprevisibilidade de eventos, da impermanência de todas as coisas e da impotência do ser humano para controlar, em termos absolutos, o que se passa dentro e fora de sua mente. Essa política de abordagem existencial, que, se analisada leviana e superficialmente, pode dar a impressão de displicência ou irresponsabilidade, constitui, de reversa maneira, corolário direto de maior maturidade psicológica e lucidez espiritual de um indivíduo.

BTA – E quando, por outro lado, chegamos à conclusão de que devemos agir, mas simplesmente não encontramos forças para tanto?

EEA – Alguns se condenam pelo fato de uma iniciativa previamente programada não se materializar a contento, considerando a expectativa frustrada como um sinal de descaso ou preguiça pessoais. Melhor, porém, renunciar a uma estipulação disciplinar ou mesmo a uma decisão específica, quando nos sentimos sem condições de atendê-las, do que romper com o equilíbrio da própria psique. Nem sempre podemos saber que vetor mental nos leva a paralisar ante uma determinada tarefa a ser desdobrada. Dessarte, o que, à primeira vista, parece uma fuga, uma traição à própria consciência, pode representar, ao contrário, um ato de suprema inteligência intuicional, no sentido de preservar a sanidade mental da pessoa, impedindo-a de enveredar por erros maiores do que aqueles que pugnava por evitar, na ânsia do forçar-se a agir.

BTA – E quando estamos confusos sobre um caminho a tomar e oscilamos entre duas ou mais possibilidades de escolha, por tempo indefinido?

EEA – Reconsiderar hipóteses anteriormente tidas como fora de cogitação pode indicar, da mesma sorte, uma intuição afiada ou uma perspicácia mais acentuada para ver além das aparências ou do arranjo conjuntural do momento. Uma alternativa em torno de que se volta a conjecturar não estava nem nunca poderia estar de todo suspensa. Como no campo das probabilidades quânticas, em que tudo é possível, há sempre caminhos opcionais para nossas escolhas centrais ou prevalentes, aquelas que julgamos mais apropriadas ou mais de acordo com os recursos à nossa disposição ou com a circunstância de vida em que estejamos inseridos. Neste universo complexo, com múltiplos fatores interinfluentes e diversas forças geratrizes de linhas de eventos, o quadro de um instante pode ser inteiramente revolucionado no seguinte. Mantenhamos a mente aberta, portanto: eis uma lição precípua, embora elementar, para que se alcance a legítima sabedoria.

Obviamente, nada do que elucubramos nestas linhas deve excitar o vício da procrastinação ou a covardia da indecisão. Nosso intuito é combater a tendência generalizada à linearidade excessiva, no Ocidente, que se faz de tal modo idiossincrática em algumas personalidades, que elas dificilmente teriam condições de vislumbrar quão determinantemente foram a isso induzidas pelos vetores de influência da cultura.




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