Assuntos polêmicos

19 de abril de 2006
 

Diálogo sobre atividade sexual

com o espírito Eugênia.

Ide e aprendei o que significam estas palavras: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”
(Oséias, 6:6).

Eu vim chamar os justos e não os pecadores.
Então, os discípulos de João, dirigindo-se a Ele, perguntaram: “Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?” Jesus respondeu: “Podem os amigos do esposo afligir-se enquanto o esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o esposo. Então, eles jejuarão.”
(Mateus, 9:13-15)

Por isso te digo: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor.
Jesus (Lucas, 7:47)

Encolerizou-se ele e não queria entrar, mas seu pai saiu e insistiu com ele. Ele, então, respondeu ao pai: “Há tantos anos que te sirvo, sem jamais transgredir ordem alguma tua, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos. E agora, que voltou este teu filho, que gastou os teus bens com as meretrizes, logo lhe mandaste matar um novilho gordo!”
(Lucas, 15:28-30)

(Benjamin Teixeira) – Eugênia, o tema sexual sempre desperta grande atenção; quando não, tumulto. Recentemente (em “Sexo e Sexo Sublime”, artigo neste site), você propôs uma disciplina sexual com o uso dos excedentes da libido em atividades nobres. Muita gente, que nem sequer resolveu suas repressões ainda, ficou consternada. De minha parte, provoco ainda: há autores que falam que até um orgasmo ao dia seria um ritmo cabível e saudável de atividade sexual; outros chegam a propor que manter a freqüência de duas vezes ao dia denotaria saúde e vitalidade. Teria como clarear um pouco mais seu ponto de vista e o da Espiritualidade Superior, a fim de que não sejam geradas confusões?

(Espírito Eugênia) – Sim, é claro. O tema tem causado transtornos e angústias, século sobre século, sobremaneira na civilização ocidental. A sexualidade humana tem seus ritmos próprios. Cada organismo físico, como cada organismo psíquico apresenta características muito próprias, que não nos é lícito invadir, para não criar distúrbios de monta. O que posso antecipar, porém, para simplificar a intrincada teia de neuroses e desatinos, repressões e desajustes no setor desta ação humana, é que o signo do desequilíbrio surge quando o trabalho e outras atividades e responsabilidades do indivíduo passam a ser comprometidos, por conta da voragem do desejo. E o desequilíbrio tanto pode estar no excesso, quanto na supressão de instintos, que assim passam a agir destrutivamente, em plano subliminar, engendrando psicopatologias complexas. O “assassínio” da libido pode ser refletido na tendência à depressão, bem como em fortes estados mórbidos de angústia e de amargura, inveja e ciúme, ganância desmedida ou ambição desenfreada. Irritabilidade exacerbada pode indicar, por outro lado, o extremo oposto do espectro, com pessoas excessivamente ativadas em seus aspectos instintuais, esgotadas com abusos da energia animal.

(BT) – Eugênia, creio que exista também preconceito no caminho reverso do que falamos, em relação a “assexuais” (os que não demonstram desejo sexual nenhum ou quase nenhum), que estariam gravitando entre 1% a 1,5% dos contingentes demográficos, conforme recente estimativa. Seria de se aceitar isto? Há controvérsia no meio psicológico e sexológico. A maior parte dos autores considera que existe um distúrbio a ser tratado. Creio que existam os bem-resolvidos. Mas e você: que nos diria?

(EE) – Na maior parte dos casos, sim, haverá uma questão psicológica a ser tratada, como no caso de homossexuais que não admitem sua própria forma de ser, bem como de mulheres e homens com fortes traumas sexuais, de infância ou mesmo da fase adulta, assim como indivíduos fanatizados, que castram a própria libido, em função de crenças religiosas nem sempre tão apropriadas ao seu estágio evolutivo. Mas concordo que haja aqueles que estão muito bem em seu natural e gradativo fenecimento dos ímpetos à cópula. Constataremos, no entanto, se há um processo natural de transmentalização das forças psíquicas, que o indivíduo permanece cheio de vitalidade, entusiasmo, bem como de humildade e lucidez por outro lado, à medida que seus desejos sexuais se esvaem. Importantíssimo registrar, contudo, que é indispensável dissociar, quanto possível, a idéia de evolução espiritual da presença ou ausência de impulsos sexuais. Quem está em corpos materiais naturalmente apresenta um feixe de impulsos automáticos de conservação da máquina biológica, que em nada destoam da grandeza de sentimentos que possa portar. Há preconceito nisto, de origem judaico-cristã, em sua acepção ideológica menos feliz, já que ninguém cogita, por exemplo, de o instinto alimentar ou de o automatismo respiratório serem pecaminosos ou precisarem ser sublimados. Além disto, imprescindível também lembrar que, através das emoções de fundo sexual, ainda que profundamente mascaradas por racionalizações, grandes estímulos ao trabalho e à realização de obras úteis a indivíduos, coletividades e à humanidade inteira têm oportunidade de acontecer. Vou controverter um pouco mais: em certa ocasião, Jesus perdoa uma mulher de “má vida”, dizendo-lhe perdoada pelo “muito que amava”. Ora, o Cristo fazia alusão a uma forma de amor (o sexo) que une a caridade moral e a caridade material (como visto no capítulo XIII, item 9, do “Evangelho Segundo o Espiritismo”), um tipo de amor que se manifesta por meio de uma necessidade fisiológica. Não por acaso, disse o Mestre que muitas das criaturas atacadas pelas convenções sociais entrariam no Reino dos Céus, antes de seus discípulos mais chegados. Obviamente, não que o Mestre aprovasse a prostituição ou qualquer conduta menos respeitosa nas relações interpessoais, no capítulo sexual ou em qualquer outro departamento da existência humana. Pretendia asseverar, entretanto, que o amor é a moeda fundamental para conquistas espirituais e que, ainda que seja um amor impuro, havendo amor em uma alma, tem ela enorme potencial para se projetar para os círculos espirituais de Luz; tanto quanto, de reversa maneira, sem amor, almas disciplinadas e trabalhadoras podem passar milênios rodopiando em círculos estreitos de espiritualidade inferior. A parábola crística do “Filho Pródigo”, igualmente, retrata bem este princípio, com o filho devasso retornando glorioso à casa do Pai, com seu arrependimento de coração, enquanto que o “certinho” mostra-se amuado e magoado, por não ter sido premiado por um “retorno” que não se havia feito necessário. Em outras palavras, Jesus homenageia a humildade de quem não se preocupa com aparências e a coragem de quem está disposto a perder tudo por seguir o próprio coração e os próprios ideais, ainda que momentaneamente equivocados. Isto nos remete, para concluir, ao pensamento de Jung, o grande psiquiatra e psicólogo suíço, que nos afirma, categórico e com muito acerto, que não pode haver iluminação de uma alma, sem a conscientização dela mesma, a respeito de suas trevas interiores.

(BT) – Brilhante, Eugênia! Agradecido. Tenho certeza de que fará bem a muita gente este seu esclarecimento.

(EE) – Toda Luz é de Deus e d’Ele-Ela procede. Muita paz para todos.

(Diálogo psíquico travado com o médium Benjamin Teixeira, em 18 de abril de 2006. Revisão de Delano Mothé.)





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