Diálogos com o Espírito Eugênia-Aspásia

2 de setembro de 2004
 

Diálogo sobre o Apaixonar-se.

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

(Benjamin Teixeira) – Eugênia, o que deve fazer uma pessoa, quando se enamora?

(Espírito Eugênia) – Primeiramente, ponderar. Não deve se deixar levar pelo fluxo dos sentimentos, emoções e sensações que lhe surgem, como uma inundação dos sentidos, da mente, da consciência. O apaixonar-se é um desafio à manutenção do equilíbrio íntimo, favorecendo desenvolvimento do auto-domínio e da resistência psicológica a elementos desestabilizadores da harmonia interior.

Num segundo momento, deve avaliar se a situação é de fato viável ou não, para que se possa tomar uma deliberação, tanto firme quanto possível, de canalizar energias e, se for o caso, manter distanciamento físico ou, não sendo possível (como no caso de colegas de trabalho) ao menos no nível emocional, evitando intimidades que fomentem um acirramento da paixão. Pessoas já comprometidas em relacionamentos anteriormente estabelecidos devem ser respeitadas em suas responsabilidades morais assumidas, tanto quanto as circunstâncias e a determinação moral de cada um puderem fazer, sobretudo quando crianças estiverem envolvidas. Somente casos em que a infelicidade crônica do casal possa justificar uma alternativa mais feliz para todos, inclusive para as crianças, dariam um lastro espiritual ao término de um relacionamento já estabelecido, para eventual experimentação de outra opção conjugal.

Terceiro, avaliar, em profundidade, os motivos hipotéticos que tenham levado o próprio coração a esse processo de encantamento. Razões inconscientes sérias estão em jogo e quase sempre indicam áreas lacunosas na psique, que precisam ser preenchidas e/ou elaboradas, com ou sem andamento do processo de enamoramento. O inconsciente, às vezes através da linguagem simbólica da paixão, deseja comunicar uma mensagem urgente para a mente de vigília. Uma mudança ou iniciativa dramática que precisam ser levadas a cabo são assim notificadas à razão-centro-decisório-da-consciência. Não raro, quando iniciativas elementares são tomadas, como dar mais tempo aos filhos e ao cônjuge ou tirar férias e dedicar-se a um novo hobbie, ouvir a própria consciência, e dedicar-se mais à espiritualidade fazem todo o calor da paixão sumir – leia-se: ser integradada à psique, favorecendo a paz e o bem estar gerais.

(BT) – Uma dica bem prática…

(EE) – Pôr o “pé no freio” – como se falaria no vernáculo. Quanto possível, desacelerar as induções dos hormônios, dos surtos emocionais de delírio, de toda aquela gama de fantasias e intempestividades perigosas que costumam acompanhar envolvimentos passionais, que, como o nome já diz, sendo passional, merece toda cautela.

(BT) – Colocar a razão sobre as emoções.

(EE) – Quanto possível. Mas uma razão lastreada no bom senso, no respeito aos próprios sentimentos, na consideração da intuição e da voz da consciência. Não se pode contrapor à paixão uma razão, no sentido de mero cálculo de interesses imediatos, porque não só pode surtir efeito contraproducente, exacerbando a força da paixão, como poderá engendrar processos patológicos de repressão das emoções, que devem ser lidas, assimiladas e re-processadas e não propriamente eliminadas, porque não o serão, indo alojar-se em departamentos obscuros da psique, nos porões do inconsciente, tornando-se destrutivas, portanto. As repressões graves, como vemos no que acontece quando alguém se obriga a sistemas de contenção fora de suas condições, podem conduzir a desatinos inconscientemente fomentados, como as histerias coletivas em conventos medievais tanto indicavam.

(BT) – Que mais?

(EE) – Seguir o Fluxo e orar muito. Observe que na primeira resposta minha, neste diálogo, disse para não se seguir o fluxo (letra minúscula, indicando mera correnteza irracional e irresponsável de impulsos), mas peço agora para se seguir o Fluxo (letra maiúscula, correspondendo ao conjunto de eventos externos, intuições, sincronicidades, ideais, bloqueios inexplicáveis e estímulos irrefreáveis; em suma: uma torrente de sentimentos e experiências conscienciais de ordem superior), como o campo de atuação da Divina Providência, que melhor teria equivalência no termo chinês Tao (d’onde se origina o termo “Taoísmo”, a grande religio-filosofia do Oriente), que significa, grosseiramente “O Caminho”. O ser humano tem a tentação freqüente de controlar a sua vida, como se fosse uma empresa a ser administrada. Esquece-se de que sua consciência, seu ego-deliberativo e seu próprio nível de entendimento e avaliação das coisas são agentes passivos do processo evolutivo e, portanto, de contingências críticas que podem estar sendo enviadas para arrebentar conceitos, condicionamentos ou fixações deletérias em sua psique. Ou seja: por mais que se queira, não se tem império absoluto sobre si e a própria vida. No que concerne às paixões, amiúde se convertem em boa amizade, quando os envolvidos sabem observar a essência oculta de seus sentimentos. Outras tantas vezes, a aflição se mostra desnecessária, porque certos ímpetos afetivos somem tão rapidamente quanto apareceram, não merecendo tanto espaço mental, preocupação e desgaste, quanto se supõe dever-se-lhe dar, de início. A meditação, a prática da visualização curativa, a freqüência a cultos religiosos, a prática da caridade, todas as atividades que gerem conexão ou reforço da conexão com o estrato mais nobre da personalidade devem ser desdobradas com afinco, nesse período, tanto quanto há a tentação de parar-se tudo, para se dedicar a pensar e viver o elã. O perigo da paixão reside nisso: sua vocação para eclipsar outras funções da consciência, sobremaneira as mais elevadas e capitais, que poderiam alertar a criatura quanto a perigos implicados no processo. Mantenha o apaixonado em mente que, “se tiver de ser”, se for o melhor para ele, se for da Divina Vontade, naturalmente tudo se encaixará, em tempo devido, não precisando de pressa. O afobamento indica sintonia com as forças do mal. Prudência, prudência, prudência – é o que poderíamos dizer, enfim. “Omini festinatio ex parte diaboli est” – “Toda pressa tem parte com o diabo”, reza o brocardo latino. Pressa e confusão consociados constituem a fórmula perfeita da obsessão ou de idéias obsessivas – ou seja: haja ou não a presença de entidades perturbadoras, potencializando a vivência íntima, trata-se de um processo obsessivo da própria alma do apaixonado.

(BT) -Mais algo a dizer?

(EE) – Não, satisfeita.

(Diálogo travado em 30 de agosto de 2004.)




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