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30 de abril de 2004
 

Quebra de Fluxo ou Obstáculo a ser Transposto?

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Muitos me perguntam como fazer a distinção clara entre o momento de persistir e o de refletir, para mudar de rumos. Quando perceber que não se está no caminho certo e que determinado conjunto de fatores negativos indicam um bloqueio ofertado pela Divina Providência? E como diferenciar essa situação daquela em que a Divina Sabedoria nos testa, para ver até onde vão nossos propósitos de seguir a trilha do próprio ideal e assim nos premiar com a vitória, após a suplantação de adversidades? Ambas contingências são extremamente comuns, e nos deparamos com os dois tipos situacionais, a toda hora, amiúde em complexas combinações simbióticas, o que nos exige acentuada perspicácia para discernir, dentro dos tecidos intrincados das circunstâncias, o que deve ser alimentado, e o que deve ser alijado do foco da consciência. Num relacionamento afetivo, por exemplo, podemos descobrir que devemos dar continuidade ao vínculo de compromisso moral com o parceiro, mas não de nutrir determinado comportamento neurótico de co-dependência, que precisa ser tratado e extraído dos liames psicológicos entre os cônjuges.

Crianças entram na escola muito cedo, e saem à hora do almoço. Têm um instante de recreação, no meio da manhã, em qual ocasião têm também a oportunidade de lanchar, mas apenas para dar continuidade a um esforço de aprendizado que consome toda a manhã. Após o almoço, mal a digestão se iniciou, ei-las de volta, levadas pelos pais à banca, para darem prosseguimento a seus estudos, e, depois, já no cair da noite, a cursinhos de ballet, esportes diversos, inglês… E são apenas crianças… Mas nós controlamos, em certa medida, as crianças. Pais, amiúde, tratam seus filhos como bonequinhos vivos, que conduzem por controle melhor, estipulando, é óbvio, o que consideram melhor para seu futuro… Esquecidos, porém, de fazer o mesmo por si próprios… Dá trabalho… é cansativo, estão esgotados do esforço do trabalho… é o que dizem. Já estudaram muito na vida…

Analise com cuidado, meu caro amigo. Quanto você acha que tem despendido de esforço para se melhorar, se aprimorar, tornar-se um ser humano mais completo? As crianças e adolescentes evoluem rápido não só porque estejam numa fase de célere desenvolvimento psico-orgânico: também se lhes exige muito, e, como tal, crescem muito. Adultos, porém, afora o esforço de trabalhar para sobreviverem e conquistarem fortuna ou poder, não se empenham, normalmente, na melhoria íntima, e costumam passar décadas inteiras, existência sobre existência, como a mesma pessoa, com os mesmos padrões viciosos de pensamento, sentimento e conduta; sem ampliarem substancialmente a própria cultura, aprender um novo idioma ou desdobrar uma nova aptidão.

Você não é um ser pronto. Como criatura inacabada, em processo contínuo de construção e, principalmente, de auto-construção, pode e deve você conduzir, agora, o seu projeto de auto-poiese. Não relaxe nesse esforço, porque a Vida não relaxará por você, e lhe cobrará altos tributos pela sua inércia, preguiça e negligência. Ser responsável por si é sempre se empenhar em crescer e tornar, por volta de si, o mundo um pouco melhor, ainda que para apenas duas pessoas. Somente parasitas se deliciam em apenas existir e se divertir. Divirta-se: fazendo o bem, sendo útil, prestando serviços ao próximo, sendo solidário, amadurecendo, estudando para melhor ainda servir à coletividade.

O avanço da civilização para a era pós-industrial tem instaurado essa nova perspectiva de vida: de uma eterna escola. Não mais como uma metáfora, mas como uma lei dramática de sobrevivência. Hoje, quem não agrega, continuamente, valores ao seu currículo, está em processo de franco declínio, faz-se um profissional decadente, forte candidato à obsolescência. O conceito de empregabilidade, substituindo o de emprego, mostra um universo social dinâmico, assim denunciando que, como natural processo de evolução das sociedades, as organizações humanas começam a refletir, com mais fidedignidade, o sistema de hierarquização funcional do Cosmos: todos crescem, e “manda” quem for mais “crescido”. Ainda não vivemos, na Terra, numa meritocracia, mas concursos públicos e a ferocidade do mercado de trabalho, selecionando os mais aptos, incluindo valores como sociabilidade e intuição, criatividade e disposição a se dedicar a causas humanitárias, precipuamente nos grandes centros urbanos, tem demonstrado que caminhamos a passos largos nessa direção.

Se você tem dúvida sobre que rumo tomar; se percebe que uma trilha lhe permite descansar um pouco mais e outra lhe pede um pouco mais de suor; sugiro-lhe, amigo, enfaticamente: tome o caminho mais difícil. Não confie em facilidades: elas corrompem, iludem, e fazem o indivíduo perder as mais preciosas oportunidades da existência. A experiência de estar em fluxo, de atingir um tal estágio de excelência que não se sente o próprio esforço não é bem o viver uma facilidade, mas, de reverso modo, constitui o resultado de um longo e doloroso processo de expansão e aprimoramento de uma faculdade, como a do bailarino clássico que, no palco, parece sorrir, tranqüilo, sem fazer força para realizar piruetas e saltos mortais. E, no entanto, por detrás do brilho de alguns minutos de glória, no palco, escondem-se décadas de trabalho diário de mais de dez horas de dor e suor, fome e disciplina.

É bem verdade que existem atitudes suicidas, profundamente danosas à família e ao lado espiritual do trabalhador. Não é a isso que estamos aludindo. “Workahollics” têm que ser tratados, para que encontrem mais equilíbrio em suas vidas e não fujam de confrontar seu verdadeiro eu e suas necessidades complexas, multifacéticas. O viciado em trabalho afunda-se em uma única atividade, em detrimento de todas as outras funções e compromissos de sua vida, inclusive os mais sagrados, como a família e o vínculo com o Criador. Faço referência à pessoa que pode dar um pouco mais de si, mas prefere descansar um tanto mais, sob a sombra do menor esforço. Não acredite nessa filosofia de vida. Lembre-se que, atualmente, quando se fala em ócio, tange-se a idéia de “ócio criativo”, como proposta pelo sociólogo do trabalho, Domenico DeMasi, em que o indivíduo encontra prazer e aprendizado, na atividade profissional a que se dedica, nada tendo a ver, portanto, com a improdutividade, mas, muito ao inverso, apontando para a trilha da excelência, já que, fazendo o que gosta, o indivíduo logra fazer mais e com maior qualidade, sem necessidade de tanto repouso ou lazer, tornando-se, assim, eis o princípio: mais competitivo no mercado de trabalho, já que não colapsará tão facilmente, motivado pelo prazer, no esforço inaudito da sobrecarga de tarefas e responsabilidades profissionais, como é indispensável para aqueles que almejam o topo de organizações e da excelência no desempenho de uma função, qualquer que seja.

Creio que já lhe tenha dado uma pista de como avaliar sua situação específica, e, realmente, não lhe darei uma cartilha objetiva, qual uma fórmula pronta, um esquema pré-fabricado, a fim de que siga, como a criança que faz o abecedário e precisa cobrir linhas pontilhadas, a fim de treinar a coordenação motora. Você, como ser consciente, livre, lúcido, deve estabelecer, sozinho, suas metas, seus meios de atingi-las, seus valores, suas prioridades; e você mesmo será aquele que delineará sua rotina, estabelecendo disciplinas, cobrando-se resultados. É esse o grande desafio da modernidade: o ser humano, agora, é um construtor de si mesmo. Não obedece mais a esquemas social e culturalmente introjetados, não deve se enquadrar a modelos pré-estipulados, aprendidos. De contrária maneira, é senhor de seu destino e responsável, completamente, pelo que é, o que pensa, como age, com quem está e para onde vai.

Seja bem-vindo à era da incerteza – traduza-se: à era da liberdade, da criatividade e da plena e responsabilidade individual pela própria existência, seu destino e seu legado à humanidade.

(Texto recebido em 29 de abril de 2004.)




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