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16 de abril de 2004
 

Desconforto

por Benjamin Teixeira.

Para que a energia flua, num certo circuito, indispensável haver polarização de forças. Se não houver um polo negativo, simplesmente o positivo é neutralizado e a função do fluxo energético, que só acontece com a ação integrada dos dois polos, não ocorre.

Vivemos numa cultura do prazer. Há uma ditadura de caprichos, desejos, vontades, e nos esquecemos de que a vida não funciona tão lindamente, dentro de nossas cartilhas lineares de expectativa de felicidade rasteira, imediatista, egoica, materialista. Não caiamos na fantasia perigosa, cercados como somos de controles-remotos e aparelhos eletrodomésticos de toda sorte, de que a distância entre nós e nossos objetivos de vida é um clique no teclado de nossos computadores. Não só nossas crianças: nós também estamos viciados e mimados. E, pior: cheios de ideias, direitos e impulsos de protesto e reivindicação, como nunca houve assim uma sociedade na Terra, o que, por isso mesmo, faz-nos estar, agora, à beira do abismo. A sociedade democrática nos iludiu com a impressão de que as liberdades individuais constituem deusas inquestionáveis, e, assim, passamos a agir como tiranos em pequena escala – com nossos entes queridos, com pessoas no ambiente profissional e social, mas, principalmente, com nós próprios.

A celebridade atingiu o pináculo da fama: “Deve ter deitado com muitos diretores e magnatas da mídia”. O empresário teve sucesso: “Negociatas inconfessáveis estão por detrás de seu sucesso”. Aquela pessoa parece feliz na vida afetiva: “Deve ser uma pérfida jogadora do sexo e da paixão”. Ou aquela outra parece estar em paz consigo mesma e com a vida: “Mas é claro: a vida dela foi muito mais fácil que o normal!”. E, com essas frases, a preguiça e a presunção ocultam desses levianos a única coisa que lhes poderia realmente abençoar e redimir: o sentimento de responsabilidade por si mesmas. Não dizendo isso como uma força de expressão, mas como uma verdade.

Estamos num universo seguro, amoroso e inteligente, mas não num cosmo paternalista e vulnerável a barganhas de filhos negligentes e voluntariosos. Assim, uma das grandes manifestações de amor da Vida é deixar sem respostas e soluções aqueles que não as estão buscando do modo que devem, até que, um dia, cansados de tanto sofrer, percebam o que está abaixo de seus narizes: eles não são pobres coitados sofredores, mas preguiçosos, manipuladores e pseudossantos, que têm ódio do mundo, por o mundo não correr para satisfazer suas vontades, a todo tempo, de todas as formas. São crianças, no pior sentido da palavra: perversas, mesquinhas e mentirosas, a ponto de muitas enlouquecerem, no afã de esconderem até de si próprias o quanto são incongruentes, inconsistentes, em uma palavra: grandes fraudes.

Conheço poucas pessoas que achem divertido trabalhar, sobretudo naqueles momentos de acordar cedo ou dar expediente até mais tarde, estudar um pouco mais ou deixar o lazer para depois, amar e ter paciência com os filhos e os demais entes queridos, a despeito de seus defeitos, birras e contradições. Digo que conheço poucas pessoas para não cometer de pronto esse pecado da lógica (a generalização) de afirmar que ninguém se diverte com todos os aspectos de seu cotidiano, mas creio que, fazendo essa ousada assertiva, estou expendendo um princípio universal. Mesmo as pessoas mais vocacionadas, fazem seu trabalho com enorme carga de esforço, de devotamento, para superar barreiras inúmeras do dia a dia, os diversos probleminhas que surgem a toda hora e lhes exigem tato, criatividade e sensibilidade para a tomada de decisões adequadas. Os desafios do cotidiano são isso: desafios. E há indivíduos que despencam em lamúrias infinitas porque encontram dificuldades: estão loucos, acaso? Alguém pode crescer sem desafios? Mas, na hora do surto da vítima, parece que todo mundo, volta-e-meia, esquece-se de que estar vivo é exatamente isso: ter problemas e, com isso, sentir-se estimulado a seguir, a resolver e a crescer, por meio das dificuldades.

Mesmo a vida ou o trabalho mais divertidos (aparentemente), estão cheios de tarefas enfadonhas, de fracassos pequenos ou grandes, de tentativa, acerto e muitos, muuuuuiiiitos erros. A questão é que algumas pessoas supõem (e se julgam adultas) que esses entraves da vida só acontecem com elas, azaradas, cheias de carma ou injustiçadas pela Vida, já que outros têm uma vida tão melhor e mais fácil…

Há uma diferença, realmente, entre os bem-sucedidos e os derrotados. Os bem-sucedidos passam por problemas muito maiores, não só em quantidade, como em dimensão. Por isso, chegam bem mais alto ou mais longe. Acostumaram-se a viver no caos, a administrar no limite, a encontrar significado nas adversidades, a crescer com circunstâncias em princípio desfavoráveis.

Noto, realmente, que um dos grandes males da humanidade é a preguiça, e um outro grande mal é o não nos darmos conta disso. Não tenho visto, em textos clássicos ou modernos de espiritualidade ou psicologia, menções claras a esse “demônio”, e, no entanto, vejo-o em toda parte, nestas duas décadas em que venho estudando a alma humana e trabalhando com ela, em busca de soluções e cura para toda ordem de problemáticas. E, como o demônio da preguiça costuma estar associado a sua irmã gêmea: a ignorância (de que se é ou se está preguiçoso), não raro surge, para denegá-lo, toda sorte de racionalizações, de elaborações intrincadas, desde filosofias espirituais como a do carma, das antigas tradições espirituais do Oriente, até a tese da predestinação feliz dos pobres, da clássica doutrina católica.

Vou dizer uma coisa a quem estiver me lendo agora, e, como me honra com a confiança de me ler, certamente me dará algum crédito para o que disser: é difícil viver. Não, não é difícil viver: é muito difícil viver. Sou uma pessoa que se pode dizer relativamente bem-sucedida, com quase duas dezenas de livros publicados e um programa de TV transmitido em rede nacional de televisão, de um capital do Nordeste. Mas, apesar de ajuda imensa dos bons e sábios orientadores espirituais, quem disse que foi fácil chegar aqui e, principalmente, manter-me aqui? Tudo, na Terra (ou, melhor dizendo, nas existências físicas) aponta para baixo. É o princípio da entropia, o segundo da termodinâmica: tendemos à desordem, ao repouso, à desagregação de forças e elementos. Assim, quando alguém não se esforça, sistemática, diariamente, para estudar, trabalhar com qualidade, concluir aquele curso de inglês ou começar e manter atividade física periódica, bem como fazer suas preces ou contactar seu lado melhor (ou os mentores espirituais, para quem for médium ostensivo), naturalmente, tudo tenderá ao fracasso, ao retorno às origens de estagnação, à recaída no pior (porque, quando há negligência, nunca se volta ao nível de antes, mas a um mais fundo de decadência). Com o tempo, podemos nos acostumar ao esforço, como uma espécie de estabilidade dinâmica, assim não sentindo tanto desconforto na labuta constante, mas as tentações, em torno de nós, são sempre numerosas, tentando cooptar nossos corações para a estabilidade estática, equivalente à morte, em todos os sentidos, a começar pela morte da alegria de viver e da dignidade pessoal.

Entenda, amigo, o esforço de trabalhar, disciplinar-se e determinar-se a superar obstáculos e aprender com eles, que tais realidades “desagradáveis”, em primeiro exame, constituem, em verdade, o tal polo “negativo” da vida, a fim de que se possa propiciar o fluxo energético do sucesso, da realização, da transformação pessoal. Existe o desconforto espiritual, intuicional ou moral, aquele que alude à percepção íntima, dos estratos mais elevados da consciente, de que algo não está certo e de que devemos tomar outro rumo. É um desconforto sutil e deveria ser ouvido e obedecido, mas justamente ele as pessoas não atendem, porque, inclusive, maciçamente sequer percebem. Mas o desconforto emocional, físico e intelectual do empenho em viver, realizar, servir, mudar e aprender é parte inerente aos processos da vida, e quem dele foge está fugindo do paraíso e se encaminhando aos níveis de pesadelo e inferno psicológicos das condições reparadoras, nessa e n’outras existências, no plano físico ou no extrafísico de vida, começando pelo mal-estar geral de quem vive essa filosofia escapista de vida, e pelo fato de que nada costuma dar certo na existência dessa pessoa, inclusive a relação consigo mesma.

E já que estamos falando de preguiça, a maior de todas elas, a preguiça espiritual (resistência a se empenhar em descobrir significado, propósito, finalidades nos eventos, situações e experiências da vida), tem uma expressão das mais diletas: a ingratidão, o complexo de vítima e a reclamação sistemática. Se há uma coisa que aproxima alguém da esfera mental dos anjos, essa coisa é a gratidão: é esse o estado de espírito das entidades mais elevadas das esferas da transpessoalidade. Se alguém quer se afastar de Deus e do Plano Maior, siga lá: reclame de tudo, ache tudo péssimo e siga se sentindo um pobre coitado cercado de injustiça, desde o dia em que pisou a Terra. Fazendo isso, você não irá para o inferno: já estará nele. E… ah!, boa e importante notícia para lhe dar: mantendo essa política mental, como seus piores pressentimentos lhe segredam: as coisas realmente tenderão a ficar piores, cada vez piores, bem piores do que sua inteligente criatividade mórbida lhe sugere poderem ficar. Agora, pode dar aquele sorrisinho de vitória, de canto de boca, e dizer: “É… eu sabia!”. É, amigo, mas seu ego (que o leva a buscar estar sempre certo, ao preço até do bom senso e da própria felicidade) pensa que venceu: na verdade, você foi vencido por sua preguiça orgulhosa. Isso não é inteligência: é burrice. E a culpa, é claro: é toda sua, grande bebê chorão e perverso.

Bem, vou encerrar por aqui meu libelo sinistro. Mas, se quiser sair da esfera macabra de meu vaticínio, que você sente como uma fria e concreta sentença de morte (nisso você realmente acredita), vou lhe sugerir uma saída: Agradeça por tudo. Foque o lado melhor das coisas. Veja que o copo está tão meio cheio como meio vazio: portanto, é uma questão de escolha focar um aspecto ou outro da mesma realidade. E se vier resmungar agora que, no seu caso, é diferente. Direi: Ó, pobre coitado, vítima da fome na Etiópia! Você deve achar horrível que existam coisas ruins em sua vida! Elas não poderiam acontecer com você, não é mesmo? Afinal, você é você(!), o centro do universo, não é isso? Por favor, francamente, amigo, cresça e torne-se adulto de verdade! E note como Deus é tão bom que ainda lhe permite, câncer emocional que é, estar no mundo, para aborrecer os outros com suas lamentações e drenar-lhes o fluxo vital, para coisas inúteis e totalmente dispensáveis, como, por exemplo: você e seus caprichos infantis. Ninguém, como indivíduo, isoladamente, é importante: só a vida é, em suas complexas teias de interdependência, significado e destino. E, como tal, um ser vivo pertencente a uma grande rede de propósito, você é importante. Mas não seus caprichos. E se você se torna seus caprichos, dominado por eles, amigo: você é um demônio vivo, que, como todo demônio autêntico, não se vê como tal, como Adolf Hitler, que se sentia um profeta, enviado por Deus, para purificar a humanidade, pelos métodos satânicos da eugenia. A gratidão é a única energia ou a única frequência ou padrão mental que atrai a abundância e a graça divina. Perceba o bem ou nunca entrará em sintonia com ele. Desespere e foque o mal e… que acha que acontecerá nesse mundo “cor-de-rosa”? Será difícil sintonizar o mal, por aqui, nesse recanto de anjos? Bem… o resto você já sabe, de cátedra: quem é pessimista e não tem fé no bem, em Deus e/ou no ser humano e em si, recebe o prêmio que busca: a confirmação de sua loucura… e de sua desgraça. Sim, sendo fiel a essa perspectiva macabra, você sempre terá a ilusão de estar certo, apesar de tudo estar dando errado em sua vida, esquecendo-se, somente, ironia das ironias, do essencial, que lhe salvaria: uma mudança de percepção, de modelo e leitura da realidade, da dimensão mental em que escolheu viver, consciente ou inconscientemente.

Olhe para cima e decida dar um basta a tudo isso. Pare de reclamar. Pare de pôr a culpa nos outros ou em Deus. Percebe como isso é loucura? Nem sequer prático é. E, assim, quebre o paradigma da vítima e se converta num guerreiro-herói-lutador, brigando por realizar seus projetos de vida, não em medidas megalomaníacas, mas sábias: por considerar que o primeiro e mais importante de todos os objetivos de vida é ser feliz e estar em paz, consigo e com o mundo, porque, amigo, perder a paz, sem sombra de dúvidas, é o único e verdadeiro e insuportável desconforto.

A grande questão, ao fim, parece ser você se perguntar se sua preguiça e sua pretensão boba de querer estar sempre certo e com a razão e, mormente, se sua ótica de observação da vida são tão mais importantes que seu bem estar, sua felicidade e sua própria existência. Uma resposta e uma decisão que só podem ser respectivamente dados e tomados por você mesmo.

Escolha a sua dor, ou ela o escolherá. Escolha seu desconforto, para construir sua felicidade. Isso faz parte da vida. Ou o infortúnio o perseguirá, para entornar uma taça de fel na sua alma, dando-lhe apenas desconforto e, é claro, sempre mais, em medida infinita e crescente: ainda mais desconforto.

(Texto redigido em 14 de abril de 2004.)












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