Assuntos polêmicos

10 de março de 2004
 

Diálogo sobre as Limitações da Mulher num Mundo ainda Machista.

Benjamin Teixeira
pelo espírito
Eugênia.

Há algum assunto palpitante que deseje abordar, a fim de que possamos, então, trazer aqui, a lume, destrinchado?

Não, Eugênia. Tem alguma sugestão?

Tenho. Você pode me interrogar sobre os direitos da mulher. Anteontem, nós publicamos um texto falando dos ganhos que a mulher tem feito. Gostaria de falar das limitações.

Certo. E o que você nos diria?

Primeiramente, que o preconceito que existe contra as mulheres é um fato, mas que, ao mesmo tempo, é possível nos deslindarmos dele, à medida que nos dispomos a agir acima das atitudes discricionárias (e discriminatórias) e, principalmente, quando olhamos além das polaridades e focamos a unidade subjacente entre todas as criaturas, seus interesses e necessidades. Em outras palavras, em vez de focarmos a luta, as divergências e os atritos entre os sexos, devemos adotar uma postura de buscar o fundamental, de buscar a união de todos, pelos objetivos comuns.

Uhm!… muito sábio…

E prático. Através de posturas pragmáticas e, sobretudo, emocionalmente isentas, pondo-se o ego e os sentimentos mesquinhos fora do páreo das questões maiores em jogo, como o progresso e o bem estar gerais, logo teremos uma natural acomodação de forças, que se fundirão, em função do bem comum.

Certo. Poderia nos dar um exemplo?

Sim. Se uma mulher moderna percebe que seu consorte está propendendo a caminhos escusos ou inadequados, falar dos inconvenientes da escolha e do quanto se ganharia tomando rumo diverso é excelente recurso dissuasivo. Em lugar, assim, de atacar o caráter e a estima do esposo, acusando-o de inepto ou indigno, direta ou indiretamente, ao atentar e demonstrar estar observando-o em erro, deve-se apontar para a alternativa melhor, assim favorecendo a inclinação dele mesmo a optar pelo rumo mais apropriado, fazendo com que, inclusive, ele tenha a ilusão de que fez a escolha por conta própria, sem sua ajuda.

Isso não é meio capcioso ou, pelo menos, injusto?

Não. É sagaz. Não se assemelha isso à atitude da mãe que discorre sobre os elementos atrativos da escola, para que o filho pequeno se sinta atraído pelo colégio, e decida ele mesmo ir, sem ser obrigado a tanto? No caso de uma criança, sempre subsiste o expediente final de obrigar-lhe a ida. Todavia, no que tange a um adulto, o problema é mais complexo, já que não se pode ingerir diretamente sobre o livre-arbítrio do outro. Somente, assim, envolvendo-o em argumentos sólidos e numa embalagem emocionalmente confortável, é possível conduzi-lo em certo sentido. O que caracteriza o ardil é o desejo de enganar, de se locupletar com a fraqueza ou a inépcia alheia, é o manipular com subterfúgios, em função do interesse próprio. Mas, quando a intenção é cativar para auxiliar, não há por que se tenha receio de interferir, com inteligência e traquejo, sobre o plano decisório alheio, propiciando-lhe um encaminhamento melhor de sua vida, através de uma abordagem psicológica, diplomática e, com isso, persuasiva.

É, Eugênia, magnífico, como sempre. Algumas mulheres, todavia, acham humilhante terem que fazer uso de artifícios para convencer seu homem de que ele está para fazer uma “burrada”, e, com isso, impacientam-se com a freqüente arrogância masculina de se julgar sempre com a razão e partem logo para a agressão, acusando o cônjuge de teimoso e estúpido, por dar mais valor ao próprio orgulho que a resultados práticos.

Essa atitude feminina de intempestividade, porém, equivale, em grande medida, à postura masculina que tenta atacar. Em verdade, acontece aí uma projeção. Quem não tem vaidades não se incomoda com as vaidades alheias. Quem se arvora ao direito de acusar e cobrar, por estar à frente, deve provar estar, sendo compreensivo e sábio com quem vem atrás. O presunçoso, principalmente o tirânico, obviamente, sempre incomoda. Mas, diante de tais caracteres difíceis, subsistem duas alternativas: aprender a conviver com eles, com flexibilidade e tato; ou afastar-se deles, porque o convívio, no sistema do confronto (que se costuma chamar de transparência) torna-se insustentável, principalmente quando há personalidades imaturas e voluntariosas envolvidas. Portanto, essa nossa sugestão constitui a saída do bom senso, para uma situação sem-saída de outra forma, a não ser com a ruptura do relacionamento.

As mulheres, Eugênia, lamentam-se muito ainda por terem poucas oportunidades de trabalho, por terem que se esforçar muito para ganhar o mesmo ou ainda menos que seus pares masculinos. Abominam o assédio sexual e a tendência irresistível, em muitos colegas e superiores homens, no ambiente de trabalho, a avaliarem-nas pelos aparatos físicos, etc. O que você teria dizer sobre tudo isso?

Que só existe uma alternativa ante realidades difíceis: a adaptação criativa e sábia, para que se extraia delas o máximo de proveito, com o mínimo de prejuízo. Não adianta debater-se contra um fato. Devem-se criar ajustes, para que se otimizem as possibilidades de interação bem sucedida com ele.

Certo. Mais algo deseja dizer às mulheres?

Algo bem batido, que se converteu em clichê, nos ambientes mais esclarecidos, mas que merece nossa ratificação. As mulheres devem agir como mulheres, no mercado de trabalho e não tentar amoldar sua natureza psicológica aos esquemas masculinos do esfera profissional. A mulher tem muito a dar com sua intuição, sua natural propensão à gestão participativa (tão em voga ultimamente), ao acolhimento, à sensibilidade à capacidade de interagir com o próximo, rica e profundamente. São os homens, hoje, que devem desenvolver essas atribuições, até bem recentemente consideras exclusividade feminina. A mulher que psicologicamente se traveste de homem representa um esteriótipo ultrapassado das primeiras profissionais que adentraram o mercado de trabalho, antes reduto esmagadoramente masculino. À época, foi necessário que elas agissem como homens, para que pudessem ser respeitadas, ouvidas e, portanto, poderem participar das engrenagens produtivas da sociedade. Hoje, entretanto, vivemos outros tempos e tal postura indicaria um total retrocesso, já que não só sacrifica psicológica e fisicamente as mulheres, como ainda lhes compromete a vida profissional, nessa era de ascensão do feminino em todos os sentidos, inclusive em plena selva cruel e implacável do mercado de trabalho.

(Diálogo travado em 10 de março de 2004.)




Cadastre-se e receba mensagens por e-mail: